A sina das palavras mais generosas é a promiscuidade. Até os interesses mais perniciosos buscam se camuflar com discursos pela justiça, a democracia e a paz.

Quando o governo de Netanyahu condiciona uma possível e futura liberação do bloqueio em Gaza à desmilitarização do Hamas, o que coloca sobre a mesa é um objetivo sórdido: consolidar nas mãos de Israel o monopólio da violência e da capacidade de defesa. Este discurso é típico dos Estados coloniais.

A retórica francesa sobre o Vietnã e a Argélia, por exemplo, não era diferente. As forças que lutavam pela auto-determinação eram “terroristas” e o conceito de paz se circunscrevia à capitulação dos rebeldes. A lógica da dominação colonial, afinal, é a supremacia.

A paz justa é um movimento espelhado, baseada em direitos iguais. O Estado palestino deve ter as mesmas garantias de existência que Israel, tanto políticas e econômicas quanto territoriais e de defesa. Quando as armas se calam por submissão de uma das partes, a paz passa a ser instrumento de poder.

Mas este não é o único problema. A principal questão é que, enquanto Israel mantiver a ocupação ilegal dos territórios da Cisjordânia e o cerco contra Gaza, os palestinos têm toda razão de reivindicar o direito à resistência, por todos os meios que estiverem ao alcance de suas mãos.

Não há paz quando o povo colonizado abaixa os braços, apenas quando o Estado colonial renuncia à expansão ilegal. Quem acredita que a paz se resume ao silêncio dos canhões de guerra, faz o jogo da direita sionista, de forma consciente ou desavisada.

Sobre o direito de Israel a se defender

3 de agosto de 2014 | Postado por admin em Sem categoria

O governo de Netanyahu alega que os ataques a Gaza são legítima defesa. Como se a situação tivesse começado com lançamento de mísseis pelo Hamas.

O argumento, para início de conversa, tem um déficit original: ao menos desde 1967, quando tomou a força territórios árabes, Israel é o Estado agressor. Os palestinos, desde então, são os que possuem direito natural à auto-defesa e à rebelião, como está escrito na Carta das Nações Unidas sobre povos submetidos a situação colonial.

Segundo, os mísseis do Hamas foram uma resposta, independente do juízo que se faça dela, à maneira como o governo de Israel conduziu o caso dos três jovens israelenses cruelmente assassinados. Ao contrário de considerar um caso policial, que pressuporia investigação e julgamento conduzido pela Autoridade Palestina, dentro de um prazo razoável, Netanyahu tratou como um tema militar, lançou uma onda de prisão em massa contra palestinos e denunciou a responsabilidade do Hamas sem que houvesse provas conclusivas a esse respeito. A organização islâmica contestou com seus disparos a esmo os gritos de guerra e a repressão generalizada conduzida pelo governo de Israel.

Terceiro, não se pode considerar “direito de defesa” um massacre como o que está em curso, com mais de 1,5 mil palestinos mortos, a maioria civil, incluindo mulheres e quase trezentas crianças, além de ataques a edifícios sob controle das Nações Unidas.

Estes três argumentos são suficientes para desmascarar o suposto caráter defensivo da escalada em Gaza. O nome do que faz o governo de Israel é crime de guerra.

Por que a Copa do Mundo desafia o Brasil?

12 de junho de 2014 | Postado por admin em Sem categoria

Talvez a beleza e os resultados do futebol brasileiro sejam a melhor vacina disponível para desfazer a narrativa catastrófica que foi deliberadamente construída

Quando foi anunciado, nos idos de 2007, que o maior país dos trópicos sediaria o campeonato mundial de futebol em 2014, as ruas brasileiras se encheram de alegria e festa. Era desejo antigo e profundo: ser anfitrião da competição mais proeminente do esporte que marca a identidade nacional, quase sete décadas depois de ter sucumbido ao Uruguai na tragédia de 1950, conhecida como Maracanazo.

O estado de ânimo entre os brasileiros, naquele momento, também colaborou para o clima de euforia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro ano de seu segundo governo, liderava um projeto capaz de retirar milhões de cidadãos da miséria, impulsionar um crescimento potente da economia, reduzir a desigualdade social e afirmar o país como nação protagonista no cenário mundial.

Apesar da avaliação de que o Brasil teria de enfrentar muitos obstáculos para viabilizar o evento e já se preparar para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, as recompensas pela ousadia pareciam generosas. A Copa do Mundo poderia se configurar em ferramenta para reforçar a imagem internacional, ampliar o fluxo turístico, acelerar investimentos em infraestrutura e modernizar tanto os equipamentos esportivos quanto os sistemas de transporte.

O país abre as portas para o espetáculo, porém, tomado pelo mau humor e a desconfiança. De nacionais e estrangeiros. Por que, afinal, a felicidade de 2007 cedeu ao pessimismo de 2014? O que levou ao envenenamento da Copa do Mundo, pensada como vitrine das mudanças comandadas pelo Partido dos Trabalhadores de Lula e Dilma Rousseff desde 2003?

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A primeira razão dessa guinada negativa talvez possa ser encontrada na confluência entre a perda de ritmo nos avanços sócio-econômicos a partir de 2010 e as turbulências provocadas pelo ambicioso projeto para o Mundial de Futebol.

Mesmo que o Brasil atualmente apresente uma das mais baixas taxas de desemprego, inferior a 6%, com aumento real do salário mínimo na casa dos 72,35% desde a posse do presidente Lula, muitas pessoas reclamam que as melhorias ficaram mais lentas. Aproximadamente 35 milhões de brasileiros foram retirados da miséria desde 2003, ampliando o mercado interno e alavancando o crescimento da economia, mas o freio no desenvolvimento afetou o dinamismo dos anos iniciais.

O presidente Lula, além de contar com alguns anos bastante favoráveis no cenário mundial, pode dar importantes saltos a frente com a adoção de programas sociais de amplo alcance, redirecionando recursos do Estado para as camadas mais pobres e excluídas. Seus bons resultados não foram apenas sociais, mas também econômicos: o PIB subiu uma média anual de 4% durante os oito anos do líder histórico petista.

O cenário mudou a partir da posse de Dilma Rousseff. Sem contar com os efeitos multiplicadores de políticas já implementadas e que, portanto, em sua fase de consolidação, não propiciavam mais benefícios de amplo espectro, a presidente também teve o desprazer de ser atingida pelos piores ventos da crise capitalista aberta em 2008.

A economia brasileira passou a crescer modestos 1,8% por ano, com redução relativa do orçamento governamental e, portanto, da capacidade do Estado em ampliar a expansão de direitos e serviços. O governo paga também o preço de continuar refém da política de juros altos, pressionado pelos bancos e os meios de comunicação sob influência do rentismo, que inibe ainda mais os gastos estatais e força maior dispêndio com o financiamento da dívida interna.

Estes dados cinzentos cercearam as possibilidades da administração federal, que moderou ou abandonou políticas para elevação salarial de funcionários públicos, construção de universidades, repactuação das dívidas de estados e municípios, investimentos em infraestrutura, modernização dos serviços públicos. Criou-se a base material para a insatisfação que explodiu nas manifestações de junho do ano passado.

As pessoas não foram às ruas, então, para reclamar de salário e emprego. Da porta para dentro de casa, no que diz respeito à renda das famílias, a curva da economia brasileira é oposta à da maioria dos países, especialmente os Estados Unidos e as nações europeias. Mas da porta para fora a insatisfação gritava: as décadas anteriores, de privatização e recessão, de redução do Estado e submissão à lógica rentista, arruinaram os serviços públicos (especialmente transporte, saúde e educação), sem que os governos petistas pudessem ter feito um movimento significativo para resgatá-la.

A Copa do Mundo, com seus formidáveis estádios, acabou por se transformar em mote para a indignação, contrapondo os gastos com este megaevento às restrições para a oferta de sistemas mais universais e eficazes de atendimento ao cidadão.

Além das despesas, a preparação da competição esportiva também afetava a vida de muita gente, com remoção de grupos populacionais de áreas destinadas à execução do projeto apresentado a FIFA, explosão de preços imobiliários nas cidades-sede e conturbação provocada pelas próprias obras em curso. A verdade é que, para muitos setores, o cisne acabou virando o patinho feio.

Eleições e gastos

Com a coincidência entre a Copa do Mundo e as eleições presidenciais, previstas para outubro, as correntes oposicionistas e os principais veículos de informação, francamente inimigos do petismo, aproveitaram para desatar verdadeira guerra psicológica sobre o tema. O esforço teve duplo sentido: radicalizar a percepção de que a Copa do Mundo desvia dinheiro dos serviços públicos e apostar no próprio fracasso do evento.

Denuncia-se que o Estado desembolsou 83,6% dos 25,6 bilhões de reais necessários para viabilizar a competição, como se todos esses recursos fossem para a construção de arenas desportivas. Esconde-se, geralmente, que 60,1% dos investimentos são para objetivos permanentes e de interesse geral, como obras viárias, aeroportos e telecomunicação. Tampouco se dá destaque que esses investimentos, durante sete anos, geraram 3,6 milhões de empregos diretos.

O governo gastou sete bilhões de reais para a construção e a reforma de 12 estádios, mais 1.5 bilhão para segurança pública durante a Copa. Isso equivale a 3% das despesas públicas anuais com educação, por exemplo. Atribuir a esses gastos as carências em infraestrutura, portanto, não tem qualquer lastro na realidade. Cálculos da Fundação Getúlio Vargas, por outro lado, indicam que o torneio deve gerar negócios adicionais ao redor de R$ 142 bilhões, além de poder quadruplicar a receita da indústria do futebol e modernizar sua estrutura

Nem mesmo o estouro de orçamento, calculado em 20%, é algo muito grave. Mudanças nos projetos justificam boa parte dessa situação. No mais, este percentual de despesas adicionais está apenas um pouco acima da Copa do Mundo na Alemanha (14%) e bem abaixo da África do Sul (32%).

Algumas dessas obras serão entregues com atraso, pois estava prevista sua inauguração para o Mundial. Mas serão ativos importantes e úteis, mesmo assim, para melhorar a vida nas grandes cidades brasileiras. Novos aeroportos, pontes, viadutos e avenidas que ajudarão a tornar mais confortável o dia-a-dia das metrópoles.

Ainda que os fatos não justifiquem a ofensiva contra a Copa, o governo brasileiro se vê acuado na batalha midiática, dentro e fora das fronteiras. Não tanto pelos problemas concretos que podem ocorrer durante o campeonato, por erros e insuficiências, mas provavelmente porque os petistas subestimaram como seus adversários atuariam.

A comemoração de 2007 criou falsa aparência de unanimidade, que pode ter induzido lideranças da esquerda brasileira a acreditar em um cenário de paz e harmonia. Quando despontaram as primeiras contradições e crises, irrompeu a onda de descontentamento estimulada a partir de setores da imprensa, nacional e internacionalmente, contra a qual o governo brasileiro se mostrou vulnerável.

Nunca antes na história do país, como tanto gosta de dizer o ex-presidente Lula, tantos dependeram tanto de tão poucos. Além de confiar que as obras garantam eficácia, segurança e conforto durante o Mundial, o humor nacional poderá depender dos 11 jogadores brasileiros e seus reservas.

Talvez a beleza e os resultados do futebol brasileiro sejam a melhor vacina disponível, a essa altura do campeonato, para desfazer a narrativa catastrófica que foi deliberadamente construída para desgastar o processo político dirigido pelo PT desde o início do século.

Protagonista da luta guerrilheira nos anos 80 e dirigente histórico da FMLN, Salvador Sánchez Cerén (outrora comandante Leonel) assume a presidência em 1º de junho

A FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), partido da esquerda salvadorenha, conquistou a presidência da República, pela primeira vez, há cinco anos. O candidato vitorioso, que chegará ao final de seu mandato no próximo dia 1º de junho, foi o jornalista Maurício Funes. Filiado à agremiação sem ter participado na guerra, mas com robusta trajetória progressista, seu nome transformou-se em opção triunfante ao atrair setores que ainda estavam contaminados pela campanha do medo impulsionada durante 20 anos pela direita e seus meios de comunicação.

O governo Funes, além de ter alcançado forte popularidade graças a políticas sociais e de redistribuição da renda, ajudou a neutralizar parte da guerra psicológica permanente contra a FMLN. Muitos eleitores foram se dando conta de que o cenário de caos e violência anunciado pelo conservadorismo não passava de golpe midiático.

Essa fase de transição, na qual o governo de esquerda era conduzido por um aliado político, não de uma liderança orgânica do partido, revelou-se fundamental para a segunda vitória presidencial, ocorrida no último dia 9 de março, dessa vez levando à chefia do país um dirigente histórico, o professor Salvador Sánchez Cerén, outrora comandante Leonel González, atualmente vice-presidente.

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O presidente eleito foi protagonista da luta guerrilheira nos anos 80, encabeçando uma das cinco formações político-militares que deram origem a FMLN. Sua organização, as Forças Populares de Libertação, era considerada a mais influente e numerosa pela maior parte dos estudiosos. Durante 12 anos, entre 1980 e 1992, na montanha e na clandestinidade, Salvador foi Leonel, em uma época na qual a política e o fuzil caminhavam juntos.

A resistência armada tinha irrompido depois do assassinato do monsenhor Óscar Romero, em 24 de março de 1980, por um atirador de elite do Exército salvadorenho, enquanto rezava uma missa. Era o sinal da brutal reação de direita às lutas populares, restabelecendo a tutela militar sobre governos fantoches que se subordinavam à oligarquia local e à política de guerra fria dos Estados Unidos, empenhados em isolar as revoluções cubana e nicaraguense.

Mais tarde veio à tona que a ordem para matar o sacerdote progressista partira do major Roberto D’Aubuisson, um dos caciques dos esquadrões da morte envolvidos em ataques contra as mobilizações sociais e seus representantes. Esse oficial, falecido de causas naturais em 1992, fundaria o partido Aliança Republicana Nacionalista, que governou o país durante vinte anos. Até hoje seu busto decora a entrada da sede partidária e todas as campanhas areneiras começam com uma homenagem a esse prócer anticomunista.

A guerrilha unificada na FMLN resistiu, sem jamais ser derrotada, à coalizão entre o Exército nacional, os bandos clandestinos de extermínio e a intervenção indireta dos norte-americanos. Ao não ser batida, venceu. O governo, incapaz de dobrá-la, perdeu. A própria Casa Branca, no início dos anos 90, percebendo que seria impossível um triunfo militar sobre a esquerda, aceita abrir negociações de paz e obriga o governo salvadorenho a sentar na mesa de negociação.

Os acordos que colocaram fim à guerra civil acabaram assinados em 16 de janeiro de 1992, no castelo de Chapultepec, no México. Um dos signatários era Leonel, que voltaria a ser Salvador Sánchez Cerén. Ao lado de Schafik Handal, então secretario-geral do Partido Comunista de El Salvador, além de outros quadros importantes da luta armada, o líder das FPL começou sua segunda vida, com o objetivo de transformar a FMLN em um grande partido de massas e capaz de se constituir como alternativa institucional de poder.

Por quase duas décadas, do pacto de redemocratização até a vitória de Funes, a esquerda salvadorenha se reinventou. Derrotadas as tendências que apostavam na transformação da FMLN em uma agremiação que se despojasse do programa socialista e da ação organizada dos trabalhadores como centro da estratégia, o partido de Schafik e Salvador foi construindo seu próprio caminho.

Uma das providências mais relevantes foi a dissolução das cinco organizações fundadoras, medida que permitiu a superação do formato frentista e o estabelecimento de um comando único. Outras decisões importantes se seguiram. Merecem destaque, por exemplo, a proibição de tendências internas permanentes e a manutenção de uma estrutura celular na qual a militância pudesse se manter organizada por local de trabalho e moradia.

Essas questões organizativas se subordinaram a escolhas políticas: a oposição intransigente contra o neoliberalismo impulsionado pela Arena, a combinação entre disputa eleitoral e lutas sociais, a articulação entre experiências de poder municipal e o fortalecimento da FMLN como partido com nítida identidade cultural e ideológica.

Ao longo do tempo, a esquerda foi aumentando seu cacife eleitoral e alicerçando um bloco de forças políticas e sociais que permitiu repetir, na democracia, o que havia sido possível na guerra: dividir o país em duas metades que se equilibram, em uma situação na qual a FMLN poderia almejar a conquista do governo da república.

A movida tática que permitiu a primeira vitória presidencial, em 2009, foi inteligente. O objetivo era atrair os votos que rejeitavam a Arena, mas ainda temiam a FMLN. A candidatura de Funes foi a peça que decidiu o jogo de então, derrotando a direita, no primeiro turno, com 51,2% dos votos válidos.

Além de administração bem sucedida, a primeira gestão de esquerda ajudou a aprofundar divisões no campo conservador, com o descolamento de um setor que lançaria, para as últimas eleições, o ex-presidente Tony Saca. Essa dissidência se movimentou para ocupar espaço ao centro, se afastando da direita representada pela Arena e facilitando a governabilidade parlamentar.

Nem tudo foram flores, a bem da verdade, na relação entre Funes e a direção da FMLN. Mais que divergências pontuais, sempre amplificadas pela pouca convivência do presidente com o partido, o principal ponto de tensão esteve nos ensaios do núcleo palaciano em compreender o triunfo de 2009 como a possibilidade de criar um terceiro agrupamento, com perfil de centro-esquerda, eventualmente aliado às correntes que se dissociavam da Arena, como estratégia para superar o equilíbrio bipolar.

A FMLN respondeu com firmeza a essa alternativa, indicando Salvador Sánchez Cerén, que acumulava a vice-presidência e a titularidade do Ministério da Educação, como seu candidato para liderar a república. Fazia-se, assim, um giro tático em relação a 2009, optando-se por claro protagonismo frentista, no qual a hipótese principal era forçar o centro a girar ao redor da esquerda. Esse raciocínio respondia, em certa medida, à opção de deslocar as forças progressistas para posições mais moderadas através de alguma fórmula eleitoral com maior taxa de diluição.

Salvador iniciou a campanha, ainda em 2013, com expressivo índice de rejeição. Aos poucos, no entanto, essa barreira foi sendo reduzida, através do esforço para ampliar alianças e se colocar como vértice da construção de uma nova maioria nacional, somado à defesa dos feitos da gestão Funes e a um trabalho publicitário que, destacando esses avanços, transferia o campo de disputa eleitoral do confronto ideológico para o debate de propostas concretas. O candidato da FMLN, por esse caminho, foi associando sua radicalidade histórica à amplitude programática, ascendendo nas pesquisas.

O desenvolvimento do processo eleitoral acabou por contar com o presidente Funes somando energias à agremiação que o elegera. Tanto ele quanto sua companheira, a brasileira Vanda Pignato, muito popular por seu trabalho pelas mulheres e os setores mais pobres, arregaçaram as mangas e contribuíram para a consolidação do ex-líder guerrilheiro.

Quando terminou a apuração do primeiro turno, realizado dia 2 de fevereiro, a esquerda havia conquistado quase 49% dos votos, contra 39% da Arena e 11% da Unidade (partido de Saca), com 1% destinado a partidos conservadores nanicos. Sequer o surgimento de uma terceira via tinha dissipado votação da FMLN, que conquista a maior diferença de sua história em relação à direita.

O segundo turno, dia 9 de março, foi um capítulo diferente. O fato é que as fileiras conservadoras conseguiram mobilizar seus simpatizantes e unificá-los contra a FMLN, através de uma campanha marcada pelo medo e terror, no velho estilo da guerra fria. Revelaram possuir reserva eleitoral de razoável porte, cujos reflexos provavelmente continuarão a influenciar o xadrez político salvadorenho nos próximos anos.

Quase 350 mil novos sufrágios foram registrados, carreando o comparecimento eleitoral de 55% para 62%. Apesar da FMLN ter agregado 190 mil votos se feita a comparação com o primeiro turno, superando o próprio resultado de Maurício Funes em 2009, a direita teve capacidade de voltar a seu patamar anterior, arrastando 450 mil votos adicionais. A fórmula de esquerda obteve 50,11% da escolha popular, contra 49,89% do direitista Norman QuijanoParte do conservadorismo apostou na tensão contra o resultado das urnas. Mas as instituições, incluindo as Forças Armadas, rechaçaram tramas golpistas e referendaram a eleição de Salvador Sanchez Cerén, celebrada em gigantesca manifestação no centro da capital, uma semana depois do voto. Anunciava-se, na praça pública, que está para começar a terceira vida do comandante Leonel.

Quando tomar posse no primeiro dia de junho, o presidente Salvador Sánchez Cerén não terá como missão apenas a continuidade e o aprofundamento das reformas iniciadas em 2009. Sua agenda estará marcada pela necessidade de fundir políticas sociais exitosas com um modelo de desenvolvimento que suavize os efeitos da dolarização, da dependência de remessas da diáspora e da subordinação à dinâmica econômica norte-americana. O processo de mudança dessa base material, através de uma potente renovação produtiva, é indispensável para continuar gerando empregos e renda, em novos patamares de justiça e bem-estar social.

Até para realizar essas tarefas, no entanto, precisará resolver o cenário de equilíbrio paralisante entre esquerda e direita, dotando a FMLN de instrumentos e alianças que permitam a construção de uma nova hegemonia no interior do Estado e da sociedade, ainda amplamente controlados por interesses oligárquicos e corporativos.

Como é sabido, seu trabalho, de fácil, nada terá. Precisará da mesma paciência e tenacidade de suas duas vidas anteriores, na montanha guerrilheira e na planície institucional.

O que acontece quando um partido de matiz socialista passa a defender os instrumentos de repressão de um Estado que segue sob hegemonia burguesa

Corria o ano de 1976. O Partido Comunista Italiano alcança 36% dos votos nas eleições parlamentares (quase o dobro do PT em disputas pela Câmara dos Deputados). O secretário-geral do partido, Enrico Berlinguer, anuncia a política de solidariedade nacional. Apesar de não integrar o governo hegemonizado pela Democracia Cristã, passaria a apoia-lo no parlamento. O objetivo era dar estabilidade política ao país, que vivia longa situação de empate entre esquerda e direita, abrindo hipoteticamente caminho junto ao eleitorado mais conservador.

Esta política provoca muita tensão em setores do partido. Não há dissidências expressivas, mas o diálogo com a juventude estudantil e operária, cujo ápice de mobilização tinha ocorrido nos anos anteriores, é bastante afetado. Organizações extra-parlamentares ganham espaço para liderar parcelas da esquerda, em um rumo oposto ao pregado pelos comunistas.

Nesse caldo de cultura – que combina o quadro internacional com a podridão da DC e a guinada do PCI -, emerge a luta armada na Itália, até então circunscrita a ações de propaganda. As Brigadas Vermelhas, fundadas em 1970, conquistam certo apoio e se lançam na chamada “estratégia da tensão”, declarando guerra aberta ao Estado burguês. Sua principal ação: o sequestro e assassinato, em 1978, do ex-primeiro ministro Aldo Moro, um dos chefes máximos da Democracia Cristã.

A direita pressiona por mudanças legais e constitucionais. Aspira por leis de exceção que permitissem a radicalização da repressão não apenas contra as Brigadas e outras organizações combatentes, mas contra o chamado “movimento” – os numerosos grupos sociais que davam suporte, direto ou indireto, à luta armada.

O PCI vive, então, um impasse. Romper com a política de solidariedade nacional, defendendo a Constituição e recompondo sua influência à esquerda. Ou manter seu compromisso com a DC, abraçando as políticas repressivas. Prevalece a segunda hipótese. A Itália passa a ter juízes sem rosto, suspensão de garantias constitucionais, aceitação de culpa por presunção, repressão massiva sem ordem judicial. Com o aval comunista.

Após alguns anos, as Brigadas estavam derrotadas. Quem havia se fortalecido era a direita mais dura, no seio da DC. O PCI tinha perdido influência e vê sua votação decair fortemente. Berlinguer se dá conta do erro cometido desde 1976 e comanda a virada da política no início dos anos 80, voltando à estratégia de confrontação contra as classes dominantes e o conservadorismo.

O partido recupera um pouco de sua força. Com a morte súbita do secretário-geral, em 1984, chega aos 33% dos votos nas eleições europeias e é, pela primeira vez, o partido mais votado da Itália. O “efeito Berlinguer”, no entanto, dura pouco. A decadência eleitoral e social se impõe nos anos seguintes. Uma forte corrente revisionista, forjada durante a política de solidariedade nacional, impede que se consume a guinada proposta pelo líder comunista antes de sua morte.

Final dos anos 80. Crise do socialismo. Colapso da União Soviética. A queda de influência se combina com o caos político-ideológico. A ala de direita assume o comando e liquida o PCI, que passa a se chamar Democratas de Esquerda, depois apenas Democratas e finalmente Partido Democrata. Rompe com o marxismo e o socialismo. Vira um trapo político, cuja ascensão eventual na política italiana depende de sua aliança com os antigos democratas-cristãos e seus satélites. Apoia o neoliberalismo, a política norte-americana e as posições mais conservadoras.

Os setores que discordaram dessa revisão ficam isolados e entram em processo de divisão. A esquerda italiana, a mais potente e vigorosa de todo o mundo ocidental, passa a viver sua longa crise terminal.

Obviamente as situações são distintas. Mas não é o caso da esquerda brasileira e do PT aprenderem algumas lições com essa experiência? Não seria útil refletir o que acontece quando um partido de matiz socialista passa a defender os instrumentos de repressão de um Estado que segue sob hegemonia burguesa? Não seria importante pensar quais as consequências quando a esquerda abandona o papel de campeã radical da democracia para ser o partido de uma ordem que não é a sua?

Carta de Ano Novo a três camaradas

31 de dezembro de 2013 | Postado por admin em Brasil

A José Dirceu, José Genoino e Delubio Soares

Nasci em uma família na qual a palavra camarada sempre representou o valor supremo das relações humanas. Seu significado vai além de qualquer trato protocolar ou laço de sangue. Camarada é irmão de trincheira, parceiro de sonho, companheiro por quem se põe incondicionalmente a mão no fogo.

Tenho orgulho, como milhares de outros brasileiros, em podê-los chamar de meus camaradas. Nestas últimas horas do ano que se encerra, apropriadas para se pensar nas batalhas travadas e nas que ainda virão, esse sentimento de fraternidade e solidariedade é uma resposta ao partido do ódio e da covardia.

Vocês pagam o preço mais alto pela reação da oligarquia contra os que lutam pela emancipação de nosso povo. Derrotadas nas urnas desde a ascensão do presidente Lula, as forças conservadoras buscam incessantemente um atalho para deslegitimar a esquerda e recuperar o terreno perdido. Não é outra a razão de seu empenho para forjar a Ação Penal 470.

A partir de erros reais cometidos pelo Partido dos Trabalhadores, originários de um sistema político-eleitoral financiado pelo capital privado, fabricou-se uma das maiores farsas jurídicas da história de nosso país. Os setores mais retrógados da velha mídia e da corte suprema, de forma arbitrária e contra provas, deram curso a um processo de exceção.

Não há novidade neste estratagema. Da cabeça enferma do capitão integralista Olímpio Mourão Filho, depois general golpista em 1964, nasceu o Plano Cohen, nos idos de 1937, para justificar o Estado Novo e o banimento dos comunistas. O conservadorismo não esconde sua frustração pelo truque, dessa vez, não ter funcionado a contento. O chamado “mensalão”, afinal, não foi capaz de contaminar a vontade popular, apesar de ter golpeado duramente o PT.

Não tenho dúvidas que, mais cedo ou mais tarde, esta farsa terá o mesmo destino que outras fantasias reacionárias do mesmo naipe, como o Caso Dreyfus ou o Incêndio do Reichstag. A verdade acabará por prevalecer, desde que se lute incessantemente por seu restabelecimento. Foi dessa maneira que o tenente Alfred Dreyfus terminou inocentado da acusação de ter traído seu país. Também foi o bom combate que desmanchou a mentira sobre o papel do líder comunista Georgi Dimitrov nas chamas que consumiram o parlamento alemão, durante os primórdios da ditadura nazista.

O espírito de vingança e perseguição, que nutre o comportamento dos principais autores da AP 470, talvez seja um sinal que não está tão longe o dia no qual esta fraude estará definitivamente desmascarada. A raiva dos tiranetes, togados ou midiáticos, engravatados ou fardados, costuma ser a expressão reversa do medo de se verem nus, flagrados em suas manobras e intenções.

Esta gente gostaria de tê-los dobrados e cabisbaixos, apequenados como quem aceita a culpa e renega a identidade. Os punhos erguidos diante da Polícia Federal foram o símbolo maior de que a estatura histórica e moral dos camaradas presos é infinitamente superior a de seus algozes.

Aquela cena será a mais cálida lembrança do ano para inúmeros homens e mulheres que formam nas fileiras progressistas. O gesto de quem responde à dor e ao sacrifício com vontade inquebrável de resistir. De quem jamais se entrega.

Vou ficando por aqui. A vocês três, um grande abraço. Com votos de um bom ano novo para todos nós, queridos camaradas, cheio de saúde e esperança.

( Publicado em 31/12/2013 no Brasil 247)

Quem é a direita brasileira?

20 de dezembro de 2013 | Postado por admin em Brasil

reinaldoazevedobrasil247

O sr. Reinaldo Azevedo, a quem injustamente referiu-se a ombudsman da Folha de S. Paulo como rottweiler do conservadorismo, continua a desmentir sua colega de redação. Qualquer comparação com uma raça canina tão forte e cheia de personalidade é realmente despropositada. Se o nobre animal lesse jornal, provavelmente se sentiria insultado. O colunista, tanto pelas posições que defende quanto por estilo, está mais para cachorrinho de madame.

Deu-nos mais uma prova, no dia 6 de dezembro, em artigo intitulado “Direita já!”, de qual é o seu pedigree. A ideia básica é que falta, no Brasil, uma força política que tenha competitividade eleitoral e, abraçando claramente valores de direita, faça oposição ao governo. Ou que acredite na hipótese de se tornar dominante exatamente por defender esses valores. Ainda mais longe vai o santarrão do conservadorismo: o PT provavelmente continuará a governar porque não seria possível “candidatura de oposição sem valores de oposição”.

O que Azevedo esconde do leitor, por ignorância ou má fé, são as razões pelas quais a direita brasileira atua disfarçada. Esse campo ideológico, afinal, esteve historicamente comprometido com a quebra da Constituição, o golpismo e a instituição de ditaduras. Seus valores de raiz são o autoritarismo, o racismo de índole escravocrata, o preconceito social, o falso moralismo e a submissão às nações que mandam no mundo. Vamos combinar que não é fácil conquistar apoios com essa carranca.

Não é de hoje que direitistas recorrem a truques de maquiagem para não serem reconhecidos. A mais comum dessas prestidigitações tem sido a de se enrolar em supostas bandeiras democráticas para cometer malfeitos. Exemplo célebre é o golpe militar de 1964, quando bateram nas portas dos quartéis e empurraram o país para uma longa noite de terror, em nome da liberdade e da democracia.

A ditadura dos generais foi o desfecho idealizado pela “direita democrática”, depois que se viu sem chances de ganhar pelo voto e tomou o caminho da conspiração. O suicídio de Getúlio Vargas sustou a intentona por dez anos, mas os ídolos de Azevedo estavam à espreita para dar o bote. As provas são abundantes: estão presentes não apenas nos discursos de personalidades da “direita democrática” de antanho, mas também nas páginas dos jornalões da época, que clamavam pela ruptura constitucional e a derrubada do presidente João Goulart.

Algumas dissidências desse setor, a bem da verdade, tentaram se reconciliar com o campo antiditadura, depois de largados na estrada pelos generais ou frustrados com sua truculência. A maioria dos azevedinhos daquele período histórico, no entanto, seguiu de braços dados com a tortura e a repressão. Eram ativistas ou simpatizantes do partido da morte. Batiam continência como braço civil de um sistema talhado para defender os interesses das grandes corporações, impedindo a organização dos trabalhadores e massacrando os partidos de esquerda.

O ocaso do regime militar trouxe-lhes isolamento e desgaste. A direita pró-golpe, mesmo transmutada em partidos que juravam compromisso com a democracia reestabelecida, não teve forças para forjar uma candidatura orgânica nas eleições presidenciais de 1989. Acabaram apoiando Fernando Collor, um aventureiro de viés bonapartista, para enfrentar o risco representado por Lula ou Brizola. O resto da história é conhecido.

Depois deste novo fracasso, as forças reacionárias ficaram desmoralizadas e sem chão. Trataram, em desabalada carreira, de aderir a algum pastiche que lhes permitisse sobrevida, afastando-se o quanto podiam da herança ditatorial que lhes marcava a carne. Viram-se forçadas a buscar, entre as correntes de trajetória democrática, uma costela a partir da qual pudessem se reinventar. Encontraram no PSDB, capturado pela burguesia rentista, o instrumento de sua modernização e o novo organizador do bloco conservador.

A mágica acabou, porém, quando o PT chegou ao Planalto, deslocando para a esquerda boa parte do eleitorado que antes era seduzido pelo conservadorismo. Esse foi o resultado da adoção de reformas que modificaram e universalizaram providências antes circunscritas a tímidas medidas compensatórias, como parte de um projeto que permitiu a ascensão econômico-social da maioria pobre do país. Tais conquistas tingiram de cores fúnebres, na memória popular, o modelo privatista e excludente sustentado pelo tucanato.

Enquanto a direita republicana tratava desesperadamente de estabelecer vínculos entre o sucesso do governo petista e eventuais políticas do período administrativo anterior, evitando reivindicar seu próprio programa, outro setor deu-se conta que, sem diferenciação clara de projetos, seria muito difícil reconquistar maioria na sociedade e romper a dinâmica estabelecida pela vitória de Lula em 2002.

Não haveria saída, contra o petismo, sem promover a mobilização político-ideológica das camadas médias a partir de seus ímpetos mais entranhadamente individualistas, preconceituosos e antipopulares. Ao contrário de uma tática que encurtasse espaços entre os dois polos que definem a disputa nacional, o correto seria clarificar e radicalizar o confronto.

As legendas eleitorais do conservadorismo titubeiam a fazer dessa fórmula seu modus operandi, mas os meios tradicionais de comunicação passaram a estar infestados por gente como Azevedo e outros profetas do passado. A matilha não tem votos para bancar nas urnas uma alternativa à sua imagem e semelhança, é verdade. Seria um erro, no entanto, subestimar-lhe a audiência e o papel de vanguarda do atraso que atualmente exerce nas fileiras oposicionistas.

Até porque conta com uma fragilidade da própria estratégia petista, de melhorar a vida do povo através da ampliação de direitos e do consumo, mas atenuando ao máximo o enfrentamento de valores e o esforço para modificar as estruturas político-ideológicas construídas pela oligarquia, especialmente os meios massivos de comunicação. O PT logrou formar maioria eleitoral a partir dos avanços concretos, mas não impulsionou qualquer iniciativa mais ampla para estabelecer hegemonia cultural e ideológica.

Seria persistir neste equívoco não dar o devido combate ao conteúdo programático do discurso azevedista. Sob o rótulo de “direita democrática”, o que respira é uma concepção liberal-fascista, forjada na comunhão das ditaduras chilena e argentina com a escola de Chicago e os seguidores do economista austríaco Ludwig Von Mises.

O velho fascismo, que trazia para dentro do Estado as operações dos conglomerados capitalistas, tornando-os parasitas econômicos da centralização política, efetivamente caducou como resposta aos próprios interesses grão-burgueses. Entre outros motivos, porque retinha parte ponderável da taxa de lucro para o financiamento do aparato governamental.

A combinação entre ultra-liberalismo e autoritarismo converteu-se em um modelo mais palatável entre as elites. O Estado assumia as tarefas de repressão e criminalização das lutas sociais, na sua forma mais perversa e violenta, soltando as amarras legais e sociais que regulavam o desenvolvimento dos negócios em âmbito privado. Não eram à toa os laços afetuosos que uniam Margaret Thatcher e Ronald Reagan ao fascista Pinochet. O neoconservadorismo se trata, afinal, do liberal-fascismo sem musculatura ou necessidade de realizar seu projeto histórico até o talo.

Claro que o ladrar de Azevedo e seus parceiros não é capaz, nos dias que correm, de ameaçar a estrutura democrática do país. Mas choca o ovo da serpente pelas ideias e valores que representa. A melhor vacina para a defesa da democracia, contudo, como dizem os gaúchos, é manter a canalha segura pelo gasganete. Os latidos dos cachorrinhos de madame devem ser repelidos, antes que se sintam à vontade para morder.

(Publicado em 20/12/2013 no Brasil 247)

Frei Betto, Gilberto Maringoni, Valério Arcary, Osvaldo Coggiola e Breno Altman reuniram-se no dia 09 de dezembro de 2013 para discutir o premiado romance “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura.

O livro, lançamento da Boitempo Editorial, narra a vida de Leon Trotski e de seu assassino, o militante comunista Ramón Mercader, em um thriller histórico que coloca em perspectiva a grande utopia do século XX.

? Saiba mais sobre o livro

La derecha chilena ha quedado en una situación de aislamiento; la victoria de centro izquierda vuelve al gobierno con más presión para ser un gobierno distinto, y el alto abstencionismo son factores que influyeron en la victoria de Michelle Bachelet en las presidenciales de Chile, así lo comentó Breno Altman, periodista brasileño, para la cadena de televisión Telesur.

dilmabrasil247

A cada pesquisa divulgada nos últimos meses, confirma-se a curva de recuperação do governo Dilma Rousseff e a consolidação de seu favoritismo para as eleições de 2014. Os números da última enquete do Datafolha não fogem desse registro. Cinco meses depois das manifestações de junho, o índice dos que acham seu governo ótimo ou bom pulou de 30% para 41%, enquanto as avaliações negativas despencaram de 25% para 17%.

Para cada brasileiro que gostava da gestão petista, em seu pior momento político, havia outro que a detestava. Atualmente, a cada eleitor que vaia, há outros dois que aplaudem a administração. Da mesma maneira que nenhum colapso econômico ou social esteve na origem do fosso junino, a recuperação acelerada de popularidade tampouco se apoia sobre feitos formidáveis. Mas revela-se um aparente retorno à confluência entre os interesses de classe, o ânimo diante do governo e a disposição de voto. Não é pouca coisa.

O bloco de candidaturas oposicionistas, que chegou a ostentar de 52% a 56% das intenções eleitorais em outubro, dependendo dos postulantes, desidratou para algo entre 33% e 41% em menos de dois meses. A titular do Planalto, nesse mesmo período, pulou de uma faixa que variava de 37% a 40% para outra entre 41% e 45% das simpatias eleitorais. Se o ex-presidente Lula estivesse no páreo, a diferença seria ainda mais acachapante.

Pode-se interpretar que a reação de Dilma às manifestações, tratando-as como protestos legítimos e respondendo a suas reivindicações através dos célebres cinco pactos, foi o freio de arrumação que deteve a queda e assentou o caminho da recuperação. A oposição de direita, também surpreendida pelas ruas, não tinha repertório para encantar as multidões mobilizadas, que pediam mais reformas e mais Estado.

A presidente sinalizou que aceitava os desafios de mudanças no governo, como contraposição à mudança de governo. Apesar de algumas propostas lançadas por Dilma terem sido mortas no nascedouro, especialmente a convocação de uma Constituinte para a reforma política, o esforço de diálogo deteve a avalanche social e refez paulatinamente os vínculos de confiança construídos com as camadas populares ao longo da trajetória do PT e do governo Lula.

Não é à toa que o programa mais empolgante tenha sido o Mais Médicos. Além de enfrentar um problema crucial na vida dos mais pobres, escancarou o caráter elitista e antipopular das classes dominantes, externado pela aliança entre os partidos conservadores, a mídia tradicional e boa parte das entidades médicas.

A situação, porém, não é isenta de perigos. Para 66% dos entrevistados pelo Datafolha, afinal, é melhor que o próximo presidente adote ações diferentes das atuais, contra 28% que desejam a permanência de tudo como está. A presidente está consolidando seu favoritismo eleitoral porque são minoritários os brasileiros que pleiteiam uma volta ao passado ou que aceitem correr esse risco. Mas pode emergir um cenário menos confortável se não responder mais agressivamente aos anseios mudancistas que, de fato, estavam na raiz das mobilizações de junho.

Estas demandas, porém, se chocam com decisões recentes na economia. O refluxo das lutas populares colocou em evidência a pressão da burguesia financeira e seus meios de comunicação para o reforço de medidas ortodoxas – especialmente a elevação da taxa de juros, a contenção dos gastos estatais e termos mais privilegiados para os investimentos em infraestrutura. Esse caminho tem contradições profundas com a ampliação e a melhoria dos serviços públicos, particularmente nos estados e municípios.

Não é razoável supor que as ruas permanecerão quietas até o desfecho do processo eleitoral. A recuperação da presidente está aparentemente ancorada em um sentimento de identidade com os debaixo que poderia ser abalado se o país retornasse a zonas de turbulência. Apenas uma permanente capacidade de se reinventar, aprofundando mudanças que acelerem a prosperidade social, seria capaz de se antecipar a esse perigo.

Apesar do silêncio das multidões, a percepção de que é necessária e urgente uma nova geração de reformas continua a ser tanto ameaça à estabilidade do projeto inaugurado por Lula quanto oportunidade para um salto à frente que consolide a hegemonia petista e de esquerda.

(Publicado originalmente em 02/12/2013 no Brasil 247)