“Todas as livrarias físicas vivem uma crise”

Haroldo Ceravolo Sereza, editor da Alameda. Foto: Joana Monteleone
Haroldo Ceravolo Sereza

Entrevista concedida a João Camilo para o site da Câmara Mineira do Livro

 Transcrevo abaixo entrevista que concedi ao site da Câmara Mineira do Livro para discutir um assunto urgente: a crise das livrarias.

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Crise nas livrarias: uma entrevista com Haroldo Ceravolo Sereza

De tempos em tempos, certos temas ganham força, ocupam o espaço na mídia e então somem. O tema da moda é a crise das Livrarias, mas para impedir que a discussão desapareça juntamente com as livrarias tradicionais, vamos tentar manter viva a luta por algo que é mais que um negócio, mas uma escolha que fazemos.

Quando defendemos as livrarias, estamos dizendo qual cultura queremos cultivar.

O nosso entrevistado é Haroldo Ceravolo Sereza da Alameda Editorial e ex-presidente da LIBRE. Ele abordou o tema das livrarias depois dos desencontrados anúncios sobre a FNAC em uma coluna da Publishnews:  “Crise nas livrarias: Insistindo no erro até encontrar o fracasso” e aceitou o nosso convite para falar um pouco mais do tema:

CML: No artigo publicado na Publishnews “Crise nas livrarias: Insistindo no erro até encontrar o fracasso”, você aponta que a crise das grandes cadeias é uma oportunidade que pode ser aproveitada como tem sido nos Estados Unidos. Mas, nos Estados Unidos, existe um hábito de leitura mais estabelecido e um público leitor que procura a livrarias independentes. Você acredita que mesmo assim é possível haver uma retomada das livrarias de pequeno porte no Brasil ou será preciso uma ajuda extra vinda do poder público e das entidades?

HCS: Acho que o Brasil nunca foi um lugar cheio de livrarias e que, apesar da crise, certamente vivemos, em relação a nossa média histórica, a melhor situação. Mas o Estado e o brasileiro não veem o acesso à livraria como um direito tão essencial quanto o acesso à farmácia ou ao supermercado. O Plano Municipal do Livro, Leitura e Literatura de São Paulo, de 2015, traz essa ideia, e esse é o salto que talvez a gente possa dar. Quanto ao hábito de leitura, ele pode ser baixo ainda em relação aos Estados Unidos, mas ele é crescente em relação ao Brasil. Temos, portanto muito espaço para melhorar a situação, que é de subconsumo de livros no país.

CML: Quando as pessoas falam na crise das livrarias, pensam em livrarias tradicionais fechando por não conseguirem competir em um mercado muitas vezes desequilibrado. Quando falamos da Cultura, Saravia, FNAC, estamos falando de algo diferente? Como a crise das grandes cadeias físicas está relacionada com a crise das pequenas livrarias?

HCS: Há muitas crises em andamento. A maior de todas é a crise mundial de 2008, que teve inicialmente um impacto menor no Brasil, mas que, combinada a uma crise política em parte derivada disso, atingiu o país terrivelmente a partir de 2014 e 2015, retroalimentando a crise política, aliás. Temos também a crise tecnológica: quem tem acesso ao chamado “big data” e ao “big crédito”, como a Amazon, tem condições de disputa desproporcionais com quem não tem. E finalmente temos a crise do surgimento de novas plataformas de leitura. Todas as livrarias físicas, desse modo, vivem uma “crise”. Algumas têm buscado na consistência cultural seu sustentáculo e construído novos projetos muito interessantes. Entre as de mais destaque, citaria a Martins Fontes, de São Paulo, a Blooks, originalmente carioca, e a nova Leonardo da Vinci, no centro do Rio. Em Pelotas (RS), a livraria Vanguarda fez uma loja no shopping em que a vitrine é uma estante, ou seja, um jeito bastante inovador de organizar uma loja, que promove a livraria em si, e não um produto em particular. Mas isso em si essas alternativas não são garantia de sucesso e sobrevivência: a jornada está e continuará difícil para todos.

CML: Quando você fala em insistir no erro, imediatamente me lembro da questão do preço do livro, que por muitos anos foi um dos vilões favoritos quando eram citadas as razões do baixo índice de leitura do brasileiro e que as pesquisas mostraram não ser um fator tão importante. O livro no Brasil não é caro, mas o preço do livro continua sendo um problema? Se o problema não é o preço do livro, por que a insistência nas promoções feitas pelas grandes cadeias de loja?

HCS: Comparado com o livro fora do país, o preço do livro nunca foi muito maior – dependendo, claro, da variação cambial. Mas o fato é o que preço caiu nos últimos anos, e a reclamação permanece. Por quê? Primeiro, porque o brasileiro médio ganha mal, então qualquer gasto não regular ele considera caro, porque tira recursos do essencial, da sobrevivência. Segundo, porque o brasileiro trabalha muito e tem pouco tempo de leitura, mesmo os que trabalham diretamente com a leitura, como os professores. Quando compramos qualquer livro, embutimos inconscientemente nele o preço que gastaremos lendo, um tempo caro e escasso. Nessas condições, mesmo para quem ganha o suficiente para comprar livros sem se preocupar em fechar o mês no azul, ele é caro.

Sobre as promoções, aí entramos no campo da hiperprodução de livros. Temos uma profusão de títulos disponíveis, um estoque alto e um giro lento. Promoções em qualquer ramo são uma forma de desentesourar um capital, transformar algo parado em algum dinheiro, pensando mais no giro que no lucro. Quando os bancos cortam o giro das empresas, como ocorreu dramaticamente nos últimos anos, a alternativa é essa. O problema é que o tempo de leitura do comprador de livros não é elástico, e isso gera um desequilíbrio econômico nas empresas, porque há um limite no “aproveitamento” dos descontos.

CML: A ideia da livraria como um espaço cultural não é uma ideia nova: entidades representativas do setor, os planos do livro e nas discussões sobre o problema editorial, mas está longe de ser aplicada. A Amazon é a principal responsável por impor um modelo comercial de venda de livros? Não é possível pensar nas lojas digitais como espaço culturais também, uma vez que existem esses espaços nas redes sociais ou site como o Skoob?

HCS: Quando falo na livraria como um espaço cultural, não estou pensando num espaço de eventos, peças, leituras, etc. Eles podem ocorrer, mas é outra a questão. Essa confusão também ocorre quando falamos de bibliotecas públicas: o essencial numa biblioteca pública é ela servir como um espaço atrativo para a leitura e a troca de conhecimento para o maior número possível de pessoas, tendo como centro o livro. A própria livraria é em si um espaço cultural, como a farmácia é um espaço de saúde. São os livros expostos e à venda que fazem dela um espaço cultural. Por isso, a seleção não pode estar pensada apenas na lógica do marketing. Aí não temos uma livraria, mas uma loja de livros.