Ainda a apropriação cultural: por que estamos discutindo há dias a história do turbante?

Rosa Parks e Martin Luther King Jr.
Rosa Parks e Martin Luther King Jr.

Do ponto de vista literário, episódio preencheu todos os lugares-comuns para que o suposto “preconceito invertido” fosse sacado da manga

A história da mulher branca de Curitiba que usava turbante numa estação de ônibus quando teria sido admoestada (sempre quis escrever essa palavra) por uma viajante negra abriu um debate intestino dentro da esquerda sobre apropriação cultural. Imagino, portanto, o tamanho da desinformação e barbárie que está circulando nas redes da direita – uma hora vamos falar do permanente recurso à vitimização por essa gente… –, consolidando fantasias do tipo “racismo invertido”, “negros é que são racistas” etc.

Há muito texto bom e muito texto ruim discutindo a questão, então vou fazer um comentário paralelo. Espero não ofender ninguém, mas não garanto nada.

POST SCRIPTUM NO MEIO DO TEXTO, em 17/2/2017 – Tudo que foi escrito abaixo e acima baseou-se na versão que circulou da história. Como disse, não estava trabalhando com a ideia de verdade, mas de ficção: a história que pegou, e que vai abaixo analisada, é a da versão. Que só pegou porque ela, a versão, preenchia os requisitos abaixo. Agora, após a polêmica, a garota cujo post original causou toda essa repercussão apresentou várias correções: o episódio não ocorreu em Curitiba, por exemplo. Mantenho o escrito, porque era uma análise da narrativa, não do fato em si, cujo relato desde o início apresentei como era: problemático.


Clique e faça agora uma assinatura solidária de Opera Mundi

Gostaria de tentar encontrar uma explicação para o fato de esse episódio tão localizado, particular e mal observado – só temos um relato, em primeira pessoa, do fato, o que torna a narrativa problemática (não estou trabalhando aqui com as categorias de falso e verdadeiro), porque única e necessariamente parcial – ter se tornado tão relevante.

Essa é uma das chaves da questão para entendermos porque tanto foco e energia foi direcionado para o episódio, e de como essa direção foi bastante improdutiva para o debate desse tema fundamental que é o da apropriação cultural.

A primeira coisa a observar é o simbolismo do espaço em que a narrativa ocorre: à espera de um ônibus. Não sei se alguém se lembrou, nessa discussão toda, de Rosa Parks. Porque o espaço ônibus é fundamental para a história do movimento negro: em 1º de dezembro de 1955, Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um branco, criando um conflito que deu início ao boicote da população negra de Montgomery aos serviços de transporte da cidade. Esse boicote tornou-se um marco para a organização do movimento negro na luta antissegregacionista e por direitos civis nos Estados Unidos. Um dos líderes que se destacaram nesse episódio foi Martin Luther King Jr., assassinado em 1968.

A história de Curitiba é, portanto, a inversão perfeita da cena ocorrida mais de 60 anos atrás: uma mulher branca, simbolicamente pressionada a não ocupar o lugar da mulher negra. E resiste a acatar a “ordem” de alguém que tem, supostamente, uma autoridade pelo menos moral para isso.

Esse é o primeiro aspecto, mas, ainda tratando de espaço, vamos recorrer às estatísticas. A região de Curitiba é, segundo o IBGE, a região metropolitana de menor autodeclaração de população “preta”, por apenas 3% dos habitantes (há uma grande proporção de autodeclarados “pardos”, uma categoria complexa, que pode reunir não apenas mestiços de brancos e negros, como também descendentes de indígenas).

Brancos e negros em Curitiba

Divisão da população por cor na Região Metropolitana de Curitiba, segundo as PNADs, de 2001 a 2011

Segundo os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Análise de Domicílio), a Grande Curitiba é menos branca que a de Porto Alegre (92% de autodeclarados brancos), mas ainda assim é uma cidade de inconteste maioria branca, com mais de 71% da população (na RM de São Paulo, o número é 58%, e no Rio, de 49%). Ou seja, em Curitiba, no imaginário corrente, há também uma inversão do cenário brasileiro, em que a maioria negra sofre com o poder da minoria branca.

Portanto, do ponto de vista espacial, a história preenche todos os requisitos para ser simbólica: num espaço de maioria branca, uma minoria tenta impor limites para o comportamento de uma representante da maioria. E o faz dentro de um espaço público historicamente ligado à discussão racial.

Passemos ao segundo ponto: mulheres. O episódio de Curitiba também é emblemático porque envolve, paralelamente, um outro debate em que a esquerda está engajada, que é o do feminismo. A questão da liberdade de escolher se vestir como bem entender, sem ser incomodada pelos homens e pelos poderes, é uma das bandeiras mais evidentes do feminismo contemporâneo, especialmente a partir das Slut Walks. Há, juntamente com a bandeira do feminismo, um componente estético que preza fortemente a individualidade.

Ao colocar a mulher negra na posição de alguém que classifica e julga a maneira de se vestir da mulher branca, a situação de “opressão” se completa: é como se a mulher negra cumprisse um papel de homem que quer ditar as regras de uma mulher, agredida em seu direito individual de se vestir como quiser. Essa situação revela, também, onde está o poder da cena e com quem, então, deveríamos nos solidarizar. Daí as hashtags do gênero #vaiterbrancadeturbantesim, que circularam no primeiro dia da polêmica, que em muito lembram as palavras-chave  do tipo  #vaitermulherempoderadasim.

Mas ainda havia algo errado nisso tudo: pois sendo as duas mulheres aparentemente da mesma idade (pelo que se infere da narrativa, uma vez que não há menção a isso), e tendo sido a admoestação (não resisti, voltei a usar) não fisicamente violenta (aliás, como foi no caso de Rosa Parks, que foi instada a sair e depois presa, mas não foi fisicamente agredida), havia total condição para que a mulher branca respondesse de igual para igual à situação e defendesse sua posição a partir do direito a essa sua individualidade. Afinal, ao contrário de Parks, não havia nenhuma lei que a obrigasse a aceitar o pedido de quem a havia interpelado: ela não seria presa, ninguém teria de pagar sua fiança.

Portanto, a história ainda não estava fechada.  Era preciso, mais uma vez, reafirmar sua fragilidade: temos, então, a bomba H da discussão, que é o câncer. Não era uma apropriação cultural apenas com fim “banal” de ficar mais bonita, mas de sentir-se com a autoestima em dia, diante de um tratamento quimioterápico violento em si, contra o qual ela pouco podia fazer e do qual a mulher negra tampouco poderia imaginar antecipadamente. E, também no imaginário, quem está com câncer está para morrer, ou seja, torna-se praticamente inimputável (a menos que seja Lula ou Dilma, mas vamos deixar isso para outra ocasião também).

O cenário de “preconceito invertido” estava perfeito.

Não citei o nome de ninguém nesse texto propositadamente. Como disse, não estou trabalhando com as categorias falso ou verdadeiro, justo ou injusto, correto ou incorreto neste momento. Mas acho que é um episódio sobrevalorizado, que ganhou uma repercussão enorme porque “literariamente perfeito”: preenche todos os lugares comuns que nos “obrigam” moralmente a tomar posição, mesmo que essa não fosse a nossa agenda no momento.

O problema é que a vida não é uma série de TV nem um post no Facebook: a questão da apropriação e da mestiçagem ou hibridismo culturais é muito mais profunda e relevante do que esse episódio. Ela tem de estar na agenda da esquerda, marxista ou não, porque integra um rol de avanços teóricos, conquistas reais e problemas incontornáveis. Envolve questões concretas, de patentes, por exemplo, e simbólicas gigantescas.

É parte da luta de classes, dos problemas que temos de tratar. Mas, para isso, precisamos ter consciência de que alguns fatos são colocados e, mais certamente, explorados de modo a criar fissuras e fraturas imaginárias, divisões artificiais e problemas que nos afastam uns dos outros.