Ainda vivemos sob a sombra do AI-5: uma resenha dos livros ‘1968’, de Zuenir Ventura

Ainda vivemos sob a sombra do AI-5: uma resenha dos livros '1968', de Zuenir Ventura

O Gabeira da tanga de crochê não convive mais com o Gabeira sequestrador do embaixador norte-americano Charles Elbrick -- ele o massacra

Publicada originalmente nas revistas Outubro Trópico, em 2008.

Uma nação se faz com homens e best sellers. Por esta razão, livros como 1968 – O Ano Que Não Terminou (1ª edição de 1988), de Zuenir Ventura, não podem ser ignorados: são obras que têm o alcance popular que este livro teve que fundam as leituras comuns do passado, pontos de partida para que as diferentes opiniões sobre fatos históricos possam disputar suas interpretações no jogo das ideias com um mínimo denominador comum.

 

É o que faz a grandeza e a miséria desses livros que pautam outras manifestações da indústria cultural — novelas, minisséries, reportagens em revistas semanais etc., atingindo também os não-leitores diretos da obra.

1968 – O Que Fizemos de Nós, a continuação agora lançada com a reedição do livro-reportagem de sucesso, não resulta num complemento da obra original. Em vez disso, torna evidente a necessidade de superar a leitura que formou uma geração de admiradores brasileiros do ano de 1968.

Zuenir em 2008 parece dar ainda mais atenção às questões culturais que marcaram 68, deixando a política quase que totalmente de lado. Seu 68 fica ainda mais carioca, e carioca da zona sul, do que o do livro anterior.

O Gabeira da tanga de crochê não convive mais com o Gabeira sequestrador do embaixador norte-americano Charles Elbrick — ele o massacra. Claro que fatos relevantes do ano, como a morte do estudante Edson Luís, a Marcha dos Cem Mil e a decretação do AI-5 são citados -mas não muito mais do que isso. São apenas pontuações temporais, que ajudam a situar um livro que tem a pretensão de, de alguma forma, mostrar o que de 1968 persiste em 2008.

Nesse sentido, é sintomático que, num livro em que passeiam tantos nomes de presidentes e dirigentes da UNE, Zuenir ignore totalmente, ao falar do presente, as manifestações estudantis nas universidades, que ganharam uma enorme força a partir da ocupação da reitoria da USP, em maio de 2007. E que deixe de lado a atual presidente da UNE, Lúcia Stumpf, uma personagem que ilustraria muito bem as contradições de jovens que fazem política, têm um discurso de esquerda e, ao mesmo tempo, apoiam quase tudo o que o governo faz.

Para Zuenir, não há novos estudantes politizados, as raves não se comparam em matéria de liberdade sexual quando colocadas ao lado de Woodstock, as drogas são sinônimo de morte e nunca de liberação, os jovens parecem não se preocupar com o coletivo, apenas consigo mesmos, há uma pulverização de tendências e de tribos. Na sociologia, como se vê, Zuenir busca sínteses, por exemplo, em autores como Michel Maffesolli, dono de uma obra que ajudaria muito mais com suas descrições e análises do que com suas conclusões.

Em alguns momentos do livro, fica bastante difícil distinguir as opiniões de Zuenir das de suas fontes. O narrador vira uma espécie de “cavalo”, um espírito repetindo o que dizem outras pessoas. Isso podia funcionar bem há 20 anos, mas, hoje, talvez por conta da “fragmentação” tão cara a Zuenir, torna especialmente confuso entender aonde o autor quer chegar — é possível que ele não queira chegar a lugar nenhum, mas isso também não está claro.

Em suma, a grande qualidade do livro de Zuenir é escancarar a fragilidade dessa interpretação que ele próprio adota, a de 1968 como uma virada quase que exclusivamente cultural, em que o comportamento tomou o lugar da política (para isso, inclusive, ele ignora fatores políticos que desencadearam as manifestações estudantis em países como França e Estados Unidos).

Seu livro me fez lembrar da vez em que tive de escrever, um tanto às pressas, um comentário a A Ditadura derrotada (2003), de Elio Gaspari, para o jornal em que trabalhava. No dia seguinte, repórteres mais experientes do que eu trouxeram com grande destaque uma fala do presidente Geisel que comprovaria que ele sabia de assassinatos cometidos por agentes do governo na repressão à Guerrilha do Araguaia, organizada pelo PC do B na primeira metade da década de 1970.

Embora eu não deixasse de citá-la, não dei o mesmo peso ao fato. Para mim, nascido em 1974, não fazia nenhum sentido as pessoas imaginarem que Geisel, em algum momento, não soubesse dessas execuções (e acho que, jornalisticamente, eu estava errado: é claro que a declaração gravada poderia ter alguma implicação política, nos processos de reconhecimento das mortes e na até agora vergonhosamente evitada busca dos corpos dos guerrilheiros; infelizmente, isso não ocorreu).

O que tento dizer nesta resenha (um tanto ranheta de um livro de um jornalista que admiro há pelo menos 20 anos, desde que saiu seu primeiro trabalho sobre 1968) é que o Brasil precisa de uma nova interpretação para 1968, que alcance um grande número de leitores — um novo best seller sobre a data, talvez, porque a leitura de Zuenir já não explica nem o passado de rebelião da juventude sob a ditadura nem o presente de suposto conformismo ante um regime civil, para essa geração que frequenta raves e lan houses, troca mensagens, conhecimento, arte e reflexão pela internet e que faz política e contestação comportamental a seu modo — um modo que não é o de 1968, mas que também não o nega.