Anotações sobre as intervenções nos monumentos de São Paulo

Anotações sobre as intervenções nos monumentos de São Paulo

Nos anos 1940, um descendente de italianos espalhava cartazes que o atacavam

 

1. Na eleição pra prefeito de 1947 (acho que foi essa, tô citado o livro de Maria Victória Benevides sobre o PTB e o trabalhismo de memória), Hugo Borghi disputou a eleição com Ademar de Barros.

borba gato pichado

Estátua do Borba Gato, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo

2. Borghi espalhou nos bairros italianos da cidade cartazes apócrifos na linha: “Não deixe um italianinho governar São Paulo”. Essa antipropaganda fake tinha um sentido claro: animar os eleitores italianos e descendentes de italiano a fazerem justamente o contrário.

3. O caso mostra não apenas o recurso a um instrumento questionável eticamente como também o preconceito que os trabalhadores sofriam na cidade sessenta anos atrás.

4. Borghi não foi eleito.

5. A citação às pichações nos debates de ontem pelos candidatos “da ordem” são quase uma assinatura dos atos de hoje. Se não foram, pelo menos pareceram uma espécie de antipropaganda “à moda de Borghi”. A profusão de cores não combina com o método dos militantes que questionam a história dos bandeirantes, mas pode ser ação de grupos de artistas plásticos – que, de novo, podem ter sido infiltrados etc. As hipóteses são muitas, mas fiquemos com o sentido político que a ação ganhou.

6. Também fiquei impressionado obras do metrô pulularam na cidade há três meses, fechando vias e, claro, criando uma falsa sensação de aumento do trânsito. Milagrosamente, no sábado passado liberaram a Cardoso de Almeida, com uns três furos no chão.

7. Em 1982, durante a campanha pra prefeito de Martinópolis, o prefeito mandou passar um caminhão de cana em primeira marcha durante o comício do candidato de oposição…

8. As pichações são, se minha avaliação de antipropaganda estiver correta, o inverso da campanha de Borghi: ao contrário de combaterem o preconceito ao explicitá-lo, procuram estimulá-lo ao recorrerem à hipérbole (porque vêm carregadas da necessidade do discurso da ordem).

9. A política na cidade de São Paulo está parecida com a de Martinópolis, 1982.

10. Eu voto Renato Borghi e Fernando Haddad contra os quatrocentões que querem tomar a cidade. Sobre o Russomano, bom, prefiro o Tiririca. É reacionário, mas é popular e engraçado.