Haroldo Ceravolo Sereza

Haroldo Ceravolo Sereza

escreve sobre cultura e política

Quem Sou

Haroldo Ceravolo Sereza, que mantém o blog Ágora, é jornalista e crítico literário. Graduado pela ECA-USP em 1995 e doutor em Letras pela FFLCH-USP em 2012, trabalhou nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo e no portal UOL. Atualmente, dirige a redação do site Opera Mundi (www.operamundi.com.br). É autor do livro Florestan – A inteligência militante (Boitempo, 2005).

 

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Haroldo Ceravolo Sereza

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escreve sobre cultura e política

As mulheres do século 12, por George Duby

Quem entende as mulheres de hoje? E as do século 12, então? Essa é a árdua tarefa a que se propôs o historiador Georges Duby (1919-1996), em Eva e os Padres – Damas do século 12, terceiro volume de uma trilogia publicada na França no ano de sua morte, lançado aqui pela Companhia das Letras. Os dois primeiros tomos desse trabalho saíram no Brasil, pela mesma editora, com os títulos Heloísa, Isolda e Outras Damas e Damas do século 12.
Logo de inicio, o historiador explica que a tarefa não é fácil e que não tem muita ilusão nos resultados da empreitada. Isso porque os relatos que sobraram sobre a vida cotidiana do período foram escritos todos por homens religiosos que procuravam aconselhar as mulheres. São, portanto, autores totalmente comprometidos do ponto de vista ideológico.

São homens que se exprimem afogados em seus preconceitos de homem, forçados, além disso, pela disciplina de sua ordem a manterem-se afastados das mulheres, a temê-las. “Assim, ainda desta vez, nao hei de captar senão uma imagem das damas do século 12″, escreve Duby na introdução. Trata-se, portanto, de um estudo da imagem que os homens e, especialmente, a hierarquia católica faziam das mulheres, mais do que um estudo da vida das mulheres em si.

E que mulher viam esses homens? Há variações — on ela a urn ser rational, capaz de tomar algu¬mas decisees (nunca tab indepen¬dentes quanto os homens), outras é apenas alguem a quern os ho-alerts devem orientar e submeter. Mas ha um movimento que Duby identifica e que é fundamental ate pan entender a escolha do histo¬riador. Para ele, o seculo 12 marca o inicio de um movimento da Igre¬ja Cat6lica em direcao as multi-does, que atingira seu spice nos se¬culos 14 e 15. “Na virada dos sCacu¬los 11 e 12″, escreve Duby, os me¬Ihores padres “haviam decidido vi¬ver como os primeiros discipulos de Jesus, ou seja, propagando, co¬mo esses haviam feito, a boa nova atraves do mundo”.
Inicia-se, nesse moment() da Ida-de Media, portanto, urn movimen¬

to de longa duracao cuja repercus¬sao ainda se faz sentir, na °pinta° de Duby. As cidades comecarn a ga¬nhar importancia em relagdo ao campo e a Igreja passa a levar “seriamente em conta a expectati¬va das mulheres”.
Numa epoca em que os padres todos ja haviam sido obrigados a adotar a vida celibataria, a Igreja amplia seu cont role para a vida pri-vada dos setts seguidores. Duby ex-plica: “No seculo 12, o cristianismo nao é mais tanto questa° de rito, de observsancia, quanto de conduta, de moral. A expansao das pratica.s da penitencia Intim torna mais ur¬gente a pergunta: o que a pecado? Onde ele ester?”
A resposta dos eruditos era: na mulher Innis que no homem, ester na Biblia. E, na Biblia, nua ima-gem a fundamental pars entender o papel da mulher imaginado pela Igreja: Eva, aquela que convenceu Ada° a provar do que era. proibido.
Sao cinco os comentadores do seculo 12 a que Duby recorre: Ro-bert de Liege, Abe¬lardo, Pierre le Man¬geur, Hugues e An¬dre de Saint-Victor. Todos acusant-nas das mas tendencias da vontade de pre¬valecer sobre o ho¬mem (AdAo), con¬tra as clisposicOes do Criador, e, sobre-tudo, a leviandade, a debilidade, enftrn, a sensualida¬de. “A queda, nao duvidam disso, foi provocada pelo apetite do pru¬zer.” Assim, invertiam a relacao en-

Ire a sexualidade e opecado estabe-lecida por Santo Agostinho, pant quem a primeira era decorrencia dasegtmcla, e nao o contrario.
A muffler, portanto, era unia especie de personificacao do perigo
da sexualidade.
NaFrancadosecu-
lo 12, os padres
acreditavam ha-
ver urn profundo
fosso entre ho-
mens e mulheres.
Fins a que partiam
pars o ataque, dis-
smuffadas, bran-
dindo as armas dos fracos. “Os pa-
dres, eles preprios penando pan
conter seus apetites, situavam na
raiz do mal, na route de todos os

desregnmentosdas damas, ahnpe-tuosasensualidade por que as supu-nham naturalmente inflamandas”, escreve Duby.
Discussees te6ricas, muitas de¬las expressas na forma de cartas as mulheres de entao, tinhorn conse-qfiencias praticas. E no seculo 12 que o casamento se estabelece co¬mo urn sacramento, embora pres-suponha o desejo — condenavel. visto como umaespecie de mal me-nor, o homem tendo poder sobre o corpo da mulher, enquanto Deus manteria seu poder sobre a alma. Os padres passam a questionar ho-mens (principalmente) e mulheres sobre as condutas fora dos rituals, nas runs, no dia-a-dia. Maridos sao chamados a zelar pelo comporta-mento das mulheres (ainda que o
cuidado com elas tenha crescido, a racionalidade continuava a ser con-siderada uma capacidade especial-mente masculina) e o amor tortes é codificado pelos padres, nas cor¬respondencias corn as mulheres.
Tanta preocupação em enfraquecer as mulheres pela angústia do pecado revela, tuna especie de afirmacao das mulheres, que pas¬s= a ser tratadas como pessoas e a verem os homens a ser obrigados a debater corn elas. Duby chega a supor que essas mulheres eram fell-zes e mais fortes do que somos ca-pazes de imaginar. Mas tern de ad-mitir que os documentos que anali-sou ajudam a extender mais os ho-linens que se sentiam atraidos e arnedrontados pelas Etas do seen-lo 12. (H.C.S.)