Bolívia, 1995: um partido da revolução

Bolívia, 1995: um partido da revolução

Retomo a publicação de um trecho significativo de uma longa reportagem que fiz em 1995 como trabalho de conclusão de curso da ECA-USP sobre a economia boliviana. O primeiro trecho: Eleições na Bolívia: como surgiu Evo Morales; o segundo: Bolívia, 1995: breve histórico do neoliberalismo; o terceiro: Bolívia antes de Evo: a estabilidade vale mais que a revolução.

 

* * *

 

Lênin dizia que 1917 os bolcheviques eram poucos, mas muito influentes
Guillermo Lora (1922-2009), em entrevista ao autor em 1995

Guillermo Lora, líder do POR, em seu quiosque, em La Paz (1995)/Foto Haroldo Ceravolo Sereza

Guillermo Lora, líder do POR, em seu quiosque, em La Paz (1995)/Foto Haroldo Ceravolo Sereza

 

 

É quase unanimidade: O Partido Obrero Revolucionário está perdendo influência. (Tal avaliação aparece expressamente no texto “The Crisis of Bolivian Radicalism”, de James Dunkerley (in The Latin American Left – From the Fall of Allende to Berestroik, organizado por Betty Carr e Steve Ellner, Westview Press, 1993: Londres/San Francisco; ela também aparece de modo menos nítido em vários textos sobre a Bolívia, como no Manual de Historia de Bolivia, de Humberto Vasquez Machicado, Jose de Mesa, Teresa Gisbert e Carlos D. Mesa Gisbert; Gisbert y Cia.: La Paz, 1994). Entretanto, em nenhum lugar do mundo os trotskistas, de um modo geral, tiveram tanta influência quanto na Bolívia, outra unanimidade.

 

Tais análises partem, em geral, da análise de resultados eleitorais e da participação dos partidos nas centrais sindicais. Se elas valem para o dia-a-dia da política quando a instável “normalidade democrática” boliviana vigora, elas perdem precisão quando há radicalização política. Nessas horas, radicais do POR e de outras tendências trotskistas (mas não só), apesar de muitas vezes divididos, ou “rachados”, no jargão esquerdista, rapidamente recuperam uma influência que, aparentemente, haviam perdido.

 

A burocracia sindical ficou para trás. Nós comandamos de fato as manifestações antes e durante o estado de sítio –, afirma a professora Vilma Plata, dirigente do sindicato dos professores urbanos de La Paz e militante do POR.

 

Para os militantes do partido, este é um movimento natural: aconteceu em 1952, quando ocorre a revolução, provavelmente o momento mais marcante da história do país no século XX, foi assim no período da Assembléia Popular, em 1971, o fato repetiu-se nas manifestações de março e abril, que “sitiaram o governo” e está sendo assim agora. Mais uma vez, explica Vilma:

 

– Os últimos acontecimentos apresentaram germes insurrecionais. As pessoas enfrentavam a polícia, organizaram piquetes armados de autodefesa.

 

O principal líder teórico do POR é Guillermo Lora. Um intelectual ativo, que edita o jornal Masas, do partido, já tem sete volumes de sua obra completa publicada (ele diz que elas chegarão a a 50 volumes, com cerca de 500 páginas cada exemplar). Para Lora, o partido não deve participar das eleições para o governo e para o Parlamento porque os bolivianos já não creem nelas. “Antes, ninguém saía às ruas para protestar quando chegava o período eleitoral. Desde a década de 1980, isso mudou. Tiveram de impor multas para as pessoas se alistarem.”

 

Lora refere-se ao processo de alistamento que ocorreu em outubro. A dois dias do fim do alistamento, diante do baixo interesse do possíveis eleitores, a Justiça decidiu que aqueles que não se alistassem pagariam uma multa de 150 bolivianos (¾ de um salário mínimo – para efeito comparativo, no Brasil, em que o voto é também supostamente obrigatório, a multa para quem não vota e tem condições de pagá-la, uma vez que é possível reivindicar isenção, é, no ano de 2014, de R$ 3,50). Ou seja, “o boliviano deixou para se alistar na última hora”, anunciaram os meios de comunicação diante das filas que se formaram nos últimos dias da convocação.

 

O POR interpreta a barafunda que vive a Bolívia hoje como um processo revolucionário que não pode ser freado pela classe dominante. Na análise do partido, como a burguesia boliviana é intermediária, comercial, portanto, ela não consegue se contrapor aos interesses imperialistas – basicamente norte-americanos. “Nosso país está sendo entregue pedaço a pedaço, nosso presidente é um títere do embaixador dos Estados Unidos”, diz Vilma. “Como o governo não responde às reivindicações, os conflitos se convertem em problemas políticos”, completa.

 

A condução dessa revolução, diz o POR, cabe aos operários, basicamente os mineiros. Embora seu número tenha decrescido muito com as políticas liberalizantes (basta lembra que, após crash do preço do estanho, a Comibol – Coorporação Mineira Boliviana, estatal, demitiu 23 mil mineiros), eles é que teriam de levar o processo adiante, eles é que teriam de atuar como uma vanguarda revolucionária.

 

Lora explica que os mineiros têm uma história de lutas que nenhuma categoria no país teve. Os operários fabris são reduzidos e dispersos – “a maior fábrica do país, uma cervejaria, tem 400 empregados” – e os camponeses, a maior parcela da população boliviana, embora muito pobres, são proprietários e não podem, para o partido, ter uma clara consciência de classe – ou seguem o proletariado ou a burguesia, acha o POR.

 

Os mineiros, no entanto, para Lora, não precisam “atuar fisicamente”: podem expressar suas posições por meio da classe média, dos professores, estudantes e dos próprios camponeses. O importante é que liderem o processo, mesmo sendo a minoria. Lora compara o processo boliviano ao cubano, em que um movimento democrático derrubou a ditadura e sacudiu todo o continente. O operariado, mesmo minoritário, defendeu então a revolução.

 

É essa a lógica que oriente, por exemplo, a organização da COB: 51% das vagas do Comitê Executivo Nacional são ocupadas por operários. E a presidência da entidade tem, obrigatoriamente, de ser exercida por um mineiro.

Detalhe de mural do artista Alejo Pantoja, que pintou a Revolução Boliviana de 1952

Detalhe de mural do artista Alejo Pantoja, que pintou a Revolução Boliviana de 1952

 

 

Mas o que fazer para evitar que, como na revolução de 1952, um outro grupo político se aproveite do movimento e tome a sua frente, como ocorre com o MNR? Para Lora, os operários já tomaram consciência de que têm de exercer uma política própria. Mas, sim, há obstáculos: o primeiro é o predomínio da ASD, ou dos “stalinistas”, como prefere o teórico trotskista, na central sindical, “uma direção burocratizada e corrompida”. Vilma define assim a diretoria cobista: “São agentes do governo. O ministro do Trabalho é quem montou a diretoria da entidade. Acham que a Bolívia pode se desenvolver sozinha e tentam colaborar. Pactuam por migalhas. E estão sempre salvando o governo.

 

Outro obstáculo é o baixo grau de instrução tanto do operariado quanto dos universitários bolivianos. Diz Lora:
– Se o analfabetismo e a ausência de estrangeiros foi positiva na década de 1940, porque os europeus não trouxeram o anarquismo ou um marxismo que respondia bem aos problemas da Europa (como aconteceu no Brasil), mas não aos problemas da América Latina, permitindo que na Bolívia fosse aprovado um programa trotskista como a Tese de Pulacayo, hoje isso é um problema, porque é preciso formar quadros, formar os operários. Os estudantes bolivianos saem praticamente analfabetos em espanhol da universidade. Porque não é a língua deles. Eles leem, mas não entendem.

 

Mas e se a revolução vingar? O que será da Bolívia, pressionada por todos os lados?

 

– Temos uma vantagem. Somos um país de camponeses, que pode sobreviver muito tempo apenas da subsistência. Essa é a fortaleza dos países atrasados. E, se os Estados Unidos nos invadirem ou nos bloquearem, continuaremos vivendo assim, até que eles precisem dos nossos produtos. O que não podemos é acreditar na ideia de socialismo num só país, no stalinismo. Porque aí viraremos uma Cuba.

 

Por essas e mais algumas outras, o POR acredita que a Bolívia é hoje o elo mais fraco da corrente capitalista.