Carlos Lacerda, a barata tonta

Carlos Lacerda em 1964
Carlos Lacerda em 1964

O jornalista e político ícone da direita pré-1964 achava que comandava os fatos, mas na verdade corria atrás deles

Mais do que qualquer um de seus contemporâneos, o político e jornalista Carlos Lacerda, principal líder da UDN (União Democrática Nacional) sonhou em ser governo, mas teve de se contentar com a oposição. Claro que estamos falando do seu grande objetivo, que era o governo federal, pois Lacerda alcançou o poder local, no antigo Estado da Guanabara, que geria o território da cidade do Rio.

O governo federal, aliás, chegou a estar formalmente nas mãos do seu partido, com a vitória de Jânio Quadros em 1960. Mas Jânio, como provou sua renúncia sete meses após a posse, em 1961, agia com uma autonomia maior do que a esperada por Lacerda. Carlos Lacerda e os Anos Sessenta, de Claudio Lacerda, também jornalista e sobrinho de Carlos, começa no breve governo Jânio e termina com a fracassada tentativa de abalar o regime militar com a formação da Frente Ampla, unindo o personagem-título e os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubistchek.

Não é, entretanto, uma boa referência para quem quer entender por que o Brasil caminhou para um regime militar. Como o próprio autor diz, apresenta o político, mas não analisa sua atuação. Os fatos são todos apresentados com Lacerda, e o que ocorre no país é visto com os olhos do próprio “Corvo”, apelido nada lisonjeiro dado por seus adversários. E parece incrível que, apesar de tantos esforços, o país tenha andado por onde andou.

O ponto forte do livro são os textos e entrevistas do próprio “Corvo”, publicados em letras mais miúdas. Neles, Lacerda, famoso pela retórica e pela habilidade nas articulações, revela-se quase uma barata tonta, correndo atrás dos fatos, mas chegando sempre atrasado, apesar do estilo.

Para ler Carlos Lacerda e os Anos Sessenta, é preciso ter em mente que Lacerda foi um dos principais desestabilizadores da frágil democracia brasileira do pós-guerra. Seu inflamado discurso anticomunista deu pretexto ao movimento militar de 1964. E, em vez de usar as Forças Armadas para encurtar seu caminho rumo ao poder, como tentara dez anos antes, acabou sendo usado por elas.

Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo em 13/6/1998. Título original: “Lacerda quis usar os militares, mas acabou sendo usado”.