Chacina na Lapa: 40 anos da ação que dizimou o comitê central do PC do B

Chacina Lapa 1976 PCdoB
Chacina da Lapa, 16 de dezembro de 1976

Pedro Estevam Pomar fez uma análise rigorosa de documentos do processo contra os comunistas, apontando uma série de falhas nos laudos de peritos e legistas

Em 1996, publiquei na Folha a resenha abaixo. Houve avanços sobre o caso e, especialmente, sobre a violência política nos anos Geisel, que é maior do que sugerem os números deste texto. Mas o livro segue uma referência no episódio, ocorrido em 16 de dezembro de 1976.

Nesta terça, dia 13/12, a Câmara Municipal de São Paulo homenageará os dirigentes do PC do B mortos nessa ação do Estado. Mais detalhes aqui.

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‘Massacre na Lapa’ recebe nova versão

Aos poucos, a história vai sendo reescrita. Em 1987, Marcos Soares lançou um livro, Massacre na Lapa, detalhando como se organizou e executou a ação militar que literalmente liquidou com o Comitê Central do PC do B, em 76, após encontro dos dirigentes na casa 767 da rua Pio 11, em São Paulo.

Literalmente porque dois dirigentes foram mortos na operação, um morreu em decorrência dela e outros quatro foram presos.

Hoje, nove anos depois, uma segunda edição é lançada pela editora Scritta. A história já começa a mudar pelo nome do autor: o jornalista Pedro Estevam da Rocha Pomar é quem assina a edição, abandonando o Marcos Soares adotado em 65, aos sete anos de idade -exigências da clandestinidade.

A mudança fica ainda mais importante quando se sabe que Pomar é neto de Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar, ou Pedro Pomar, uma das vítimas da ação. E filho de Wladimir Pomar, membro da direção que acabou preso.
Mas não é só isso. O livro conta com descobertas recentes sobre o caso -o relato do ex-sargento Marival Chaves, obtido pela jornalista Ana Maria Mandim e publicado na Folha em julho passado, por exemplo, foi incorporado ao texto.

O relato reforçou a suspeita, sustentada por Pomar, de que Jover Teles, então membro do Comitê Central e hoje membro do PPB de Arroio dos Ratos (RS), entregou o local da reunião dos dirigentes comunistas.

Também é preciso levar em conta que a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, neste ano, aprovou a indenização às famílias de João Baptista Drummond, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, recusando a versão oficial de que houve um tiroteio.

Sem retirar o caráter de livro-reportagem, Pomar fez uma análise rigorosa de documentos do processo contra os comunistas, apontando uma série de falhas nos laudos dos peritos e médicos-legistas.

O livro não poupa nem o próprio partido -Pomar avisa, no início do livro, que não tem ligações com ele.

São criticados o afastamento sem direito de defesa dos dirigentes presos, acusados de revelarem informações importantes, e o líder do PC do B, João Amazonas, por negar que a reunião discutiu os resultados da Guerrilha do Araguaia e que o partido tendia a tomar uma posição diferente da sua -a posição de Pedro Pomar.

Geisel
Outro ponto polêmico do livro é a critica que Pomar faz ao que classifica de “mitologia” da “abertura lenta, gradual e segura” do governo do general Ernesto Geisel, morto aos 88 anos em outubro de 1996.

“Os fatos não endossam essa visão generosa. Um rápido levantamento indica que Geisel foi tão brutal quanto Médici. Afinal, durante o governo do ‘homem da abertura’ foram assassinados com requintes de crueldade, pelo Exército e demais órgãos de repressão, por motivos políticos, pelo menos 38 brasileiros”, escreve.

A crítica não se limita ao presidente. Dilermando Gomes Monteiro, o general que ocupou o lugar de Ednardo d’Ávila no comando do 2º Exército após a morte de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, recebe leitura semelhante.

Para Pomar, Dilermando não foi o “fiador da abertura” em São Paulo, mas o executor de uma “preparação de terreno” para a abertura “segura”.

O ano de 1996, com a morte de Geisel, o reconhecimento da responsabilidade de mortes pelo Estado no período militar e os novos relatos sobre o episódio da Lapa provam que a história nunca tem uma versão definitiva.