Cinema na voz passiva

Cadete Wislow
cadete wislow

Como contar uma hisória a partir do entorno

 

Pode-se contar uma história de muitas formas. Cadete Winslow, do diretor e dramaturgo David Mamet (diretor de Oleanna, 1994), opta pelo caminho de retratá-la a partir dos seus contornos.

Os últimos minutos do filme são o melhor exemplo da difícil escolha de Mamet: enquanto um julgamento que mobiliza a opinião pública britânica está em andamento, não há uma cena feita do tribunal ou da rua. Assiste-se apenas ao que se passa no interior da casa dos protagonistas, que discutem os rumos do caso e que esperam um resultado negativo para o dia seguinte. A criada, no entanto, dá-lhes a notícia de que o julgamento terminou antes do previsto, já carregando para dentro da casa a edição extra do jornal.

Mamet faz assim uma espécie de cinema na voz passiva. O que vemos na maior parte do tempo não é a ação, mas a sua consequência para as personagens, que, a partir desses fatos, decidem como agir em resposta.

The Winslow Boy (título original em inglês) foi uma popularíssima peça de teatro. Baseada em fatos ocorridos em 1908 e produzida após o fim da Segunda Guerra Mundial, Terence Rattigan, autor da peça, a deslocou no tempo para a Inglaterra que se preparava para a Primeira Guerra, em 1912 – essa é a sua segunda adaptação para o cinema (a primeira, de 1949, foi exibida no Brasil como Um Caso de Honra).

A trama começa com o anúncio do casamento de Catherine Winslow (Rebecca Pidgeon). Quando o brinde que comemora o fato está sendo feito, o patriarca Arthur Winslow (Nigel Hawthorne) é informado de que seu filho mais novo, Ronnie (Guy Edwards), foi expulso do Colégio Naval de Osbourne sob a acusação de ter roubado um vale postal de um colega. O pai, em vez de puni-lo, como mandaria a tradição, acredita na inocência jurada por Ronnie. Pede explicações à escola, fica insatisfeito, decide levar o caso adiante. Para defender o filho, contrata os serviços do advogado Robert Morton (Jeremy Northam), um político conservador que se opõe ao voto feminino.

Nessa condição, provoca a reação de Catherine, uma militante sufragista (as mulheres lutavam pelo direito a voto). Na luta do fraco (o menino) contra o forte (o Estado), a família Winslow é humilhada. O noivo de Catherine desiste do casamento, o dinheiro começa a minguar, a ponto de a família duvidar se vale a pena continuar enfrentando o Estado, num sistema jurídico que garantia privilégios à Marinha.

E por que a história, tão distante no tempo e no espaço, funciona?

Contá-la na voz passiva no cinema é uma escolha estética que combina muito bem com a trama. Significa optar pelos dramas do lado fraco e por suas reações diante da arbitrariedade do Estado. E essa opção pelo oprimido permite a identificação do espectador.

Mamet, responsável pela adaptação do texto de Rattigan, conta-nos uma boa história de um modo interessante. Cenário, fotografia e figurino respondem bem às necessidades de um filme de época, mas não chegam a roubar o espaço que é do texto, da direção e dos atores. É mais um bom filme do premiado Mamet.
Publicado originalmente da Folha de S.Paulo, 7/1/2000. Título original: “Cadete Winslow é cinema na voz passiva”