Como Jânio ganhou a simpatia de Joel

Jânio da Silva Quadros entrou para a história como o presidente que não foi. Vencedor do pleito de 1960, governou por apenas sete meses, quando seu isolamento político e a ilusão de que ainda tinha apoio popular levou-o à renúncia, fracassada como golpe. Além disso, seu governo pode ser resumido a medidas folclóricas, como a proibição do biquíni e das rinhas de galo (há também o caso da condecoração de Che Guevara, que, na confusão de uma decisão de última hora, não levou a Ordem do Cruzeiro do Sul para Cuba, mas foi fotografado com ela).

Viagem com o Presidente Eleito (Mauad), de Joel Silveira, agora na segunda edição – a primeira é de 1996 –, cumpre um papel bastante peculiar, pois Jânio é mesmo um personagem especial.

Antes de assumir, viajou para a Europa, no fim de 1960, no transatlântico Aragon. Fugiu da imprensa e das pressões. Joel, graças a interesses e informações de João Dantas, diretor do Diário de Notícias e do Mundo Ilustrado, conseguiu acompanhar grande parte dessa viagem. Quando a tarefa lhe foi designada, ele não gostava do presidente eleito. Terminou tornando-se um amigo, “embora não dos mais íntimos”, mas dividindo com ele garrafas de esplêndidos uísques – que Jânio informava: “Presente de puxa-saco”.

Fosse Jânio um presidente que cumprisse seu mandato, o livro de Joel teria de ser diferente. Teria de comparar as conversas que teve com Jânio em função de suas realizações. Mas, como elas não ocorreram, fica o homem, as conversas menos importantes, os estranhos hábitos, enfim, aquilo tudo que faz uma pessoa ser comum.

Jânio e Joel conversavam sobre vários assuntos, dos ternos do presidente, feitos em Londres (segundo ele, por uma questão de economia), à UDN (União Democrática Nacional). A roupa impecável diferia completamente das vestes surradas que Jânio utilizava na campanha eleitoral, muitas vezes salpicadas de falsas caspas.

O presidente eleito sabia que a UDN estava ansiosa, esperando sua volta para lotear o governo. “A UDN acha que lhe devo a eleição. E quer tudo”. Soltava-se um pouco. “A UDN já formou o meu ministério, o que muito me diverte. Vez ou outra, dava uma declaração bombástica, dizendo que as greves às vésperas da posse estavam sendo orquestradas para desestabilizá-lo. Joel enviava a informação.

O relato de Joel, um dos maiores jornalistas do País, é agradável e cheio de informações engraçadas. Joel não conseguiu nenhum “grande furo” durante a viagem – nenhum nome de ministro, por exemplo -, ou pelo menos reconta a história assim. Diga-se, porém, que esse tipo de informação, hoje, seria bem pouco relevante. Atento, entretanto, notou o tratamento rude que Jânio dispensou à mãe: “E esta é d. Leonor, minha mãe. Está com câncer já adiantado, irreversível”.

Quando o navio chegou a Portugal, Joel achou que teria problemas com a Pide, a polícia política portuguesa, devido, em parte, a artigos que escrevia. Disse ao presidente, a essa altura uma companhia quase diária no bar do navio (em que bebiam uísque e cerveja e se tornaram amigos de uma açoriana cheia de curvas), que preferia ficar no navio. Jânio, no entanto, fez questão que ele descesse e o incluiu na comitiva, garantindo ao jornalista a segurança diplomática que precisava para circular.

A viagem de Jânio incluiu a estada em Londres, mas também a passagem por outros pontos. Correndo atrás do presidente eleito, às vezes com pistas erradas, Joel passou por Paris e Roma. Na capital francesa, sem saber exatamente onde estava Jânio, os correspondentes brasileiros se divertiam, entre eles Rubem Braga e o campeão de fliperama Antonio Maria. Já Roma é pretexto para Joel contar sua experiência como correspondente na 2ª Guerra Mundial, quando seu desconhecimento da língua lhe garantiu uma confortável noite num hotel destinado aos generais.

Jânio ganhou a simpatia de Joel, mas acabou por transformar-se numa figura secundária na história do país. Grande parte da graça do livro de Joel, que nunca perde o ritmo, é essa: quando viajou à Europa, Jânio era o homem mais popular e poderoso do Brasil, e Joel um repórter e editor reconhecido, mas havia uma distância clara entre eles. Hoje, Joel é um escritor e jornalista admirável, e Jânio um político que, apesar de sua passagem pela prefeitura de São Paulo nos anos 1980, uma figura que caminha para o esquecimento. Seus herdeiros mal conseguem chegar a um acordo sobre a divisão de seus bens, quanto mais alcançar alguma expressão política. A simpatia de Joel por Jânio não nasceu assim, mas certamente se alimentou do caráter autodestrutivo do presidente que foi eleito, mas não governou.

Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo, 3 de dezembro de 2000.