‘Dois Irmãos': uma entrevista com Milton Hatoum, autor do livro, em 2000

Juliana Paes, em 'Dois Irmãos', adaptação de Luís Fernando Carvalho da obra de Milton Hatoum
Cena da minissérie 'Dois irmãos', baseada no romance de Milton Hatoum e dirigida por Luis Fernando Carvalho

Pouco antes do lançamento do romance que deu origem à minissérie, entrevistei o escritor

Em 27 de maio de 2000, publiquei uma entrevista com o escritor Milton Hatoum sobre o romance que estava para ser lançado, Dois Irmãos, agora minissérie da Globo. Foi uma conversa longa, por telefone. Viria a conhecê-lo algum tempo depois. Escrevi uma página para o jornal O Estado de S.Paulo, editada no forma pergunta-e-resposta.


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Segue abaixo a entrevista e a resenha do livro, que de fato “pegou”.

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Milton Hatoum canta Manaus para ser universal

Quando Milton Hatoum lançou, em 1989, Relato de Um Certo Oriente, a literatura brasileira  contemporânea teve uma grata surpresa. Acabava de ganhar um representante regional – nascido em Manaus e de família de origem libanesa – que evitava o regionalismo. Hatoum conquistou a crítica, foi traduzido para o francês, o inglês, o italiano, o alemão. Só agora, 11 anos depois, apresenta seu segundo romance: Dois Irmãos (Companhia das Letras).

Desta vez, afirma ter tido menos pudor ao descrever o cenário dos dois livros: Manaus, cidade em que viveu até os 15 anos, antes de passar por São Paulo (estudou arquitetura na Universidade de São Paulo), Paris e mais quatro cidades pelo inundo. Na capital amazonense, Hatoum dava aulas, até um ano atrás, de literatura francesa. Hoje, está licenciado, vivendo novamente em São Paulo. Prepara tese de doutoramento, orientado pelo critico literário Davi Arrigucci Jr. O tema é Euclides da Cunha e o livro que deixou inconcluso, sobre o Amazonas. Não sabe quando vai defendê-la. “É um trabalho de anos.”

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Dois Irmãos gira em tomo de Yaqub e Ornar, filhos de Halim e Zana. Gêmeos idênticos, em tudo parecidos, menos no comportamento. Os dois competirão pelo amor dos familiares e das mulheres de Manaus. Yaqub, regrado, segue os estudos, vai a São Paulo, forma-se em engenharia e casa- se. Ornar frequenta prostíbulos em Manaus, tem uma vida errante – e é o preferido da mãe. O narrador, Nael, é filho de uma agregada da família, Domingas, vinda do interior do Amazonas. Seu pai é um enigma que não se resolve: Yaqub ou Ornar.

Em entrevista, Hatoum falou sobre seu novo livro e também sobre Um Rio entre Dois Mundos, romance sobre o qual já deu entrevistas, mas que ainda não entregou ao editor. Disse que não escreve pouco e que não considera importante publicar muito: “Na pressa, pode-se acabar prejudicando o leitor”, brinca. “Adoraria viver do que escrevo, mas não posso escrever para vender.”

O que aconteceu com Um Rio entre Dois Mundos?

Milton Hatoum – Eu acabei, mas não publiquei. Preciso reescrevê-lo. São quase 600 páginas. Está adormecendo, esperando por uma cirurgia drástica.

Você escreve devagar? São 11 anos, desde o lançamento de Relato de um Certo Oriente.

Na verdade, eu demorei para publicar. Eu não parei de escrever. Publiquei contos em jornais, ensaios, reflexões. Romance, escrevi dois, mas não publiquei. Não tinha acertado o tom, achei que os enredos ficaram confusos. Não acho importante publicar muito. Na pressa pode-se acabar prejudicando o leitor.

Estado – Em Dois Irmãos, você acha que amarrou uma boa história?

Quando se termina um livro e se entrega a uma editora, é porque você já escreveu alguma verdade íntima. A maior dificuldade é encontrai’ o tom adequado ao seu enredo. Se isso não acontecer, é melhor não publicar. Porque, aí, as questões técnicas do romance são importantes. O romance tem de convencer o leitor daquilo que é nanado.

Estado – O narrador do seu novo livro começa pouco presente, como se a história fosse ser contada em terceira pessoa. Aos poucos, ganha força.

Ele é um narrador que se mostra aos poucos. No início, o leitor não sabe quem está contando a história. De alguma forma, eu também não sabia. Acontece com ele algo que também se passa no romance, em que os problemas se mostram aos poucos, nada é revelado de uma forma ostensiva Até o fim, nem tudo é revelado. Como o narrador está à margem da família ao mesmo tempo em que está no centro do drama familiar, ele participa desse jogo sutil entre o centro e a periferia Ele é desfavorecido socialmente, é um filho bastardo, não sabe quem é o pai. Suas origens são difusas, como aliás são problemáticas as origens de todos os personagens. De início, era um narrador menos presente, que cresceu nas últimas versões. Foi um problema que eu tive de resolver.

Estado – Você escreve sobre Manaus e o encontro de dois mundos. É daí que surgem suas preocupações?

Acho que esse é o meu livro… Eu só tenho dois livros, uma das vantagens de se publicar pouco é que as minhas referências são poucas. Eu diria que esse meu segundo romance é muito mais manauara que o primeiro. Há personagens de vários estratos sociais, um descentramente generalizado. A personagem Domingas vem do médio Rio Negro, de uma cidadezinha, há o peixeiro, um professor e poeta, um caboclo ex-comandante de embarcação. Tudo isso faz parte de um mundo manauara, misturado com o mundo dos imigrantes, que também já fazem parte da cultura brasileira. De certa forma, esse é o meu mundo. Eu não posso escrever sobre a Bulgária nem sobre a Bielo-Rússia, mas posso sobre as violonistas búlgaras e bielo-russas que integram a Filarmônica Amazônica, sobre a perplexidade dessas europeias em Manaus. Nasci nesse mundo, mas é um mundo distante no tempo. Acho que o romance e a literatura são melhores quando remetem ao passado.

É uma preocupação da história também. Por que acha mais difícil escrever um romance sobre o presente?

O presente é muito circunstancial, e a literatura não fala do circunstancial. A crônica, sim, está no tempo presente. Mas entre o romance e a crônica há uma enorme diferença O romance é uma construção, tuna invenção de eventos passados, ao mesmo tempo verossímeis paia o leitor. O problema do romance é trazer esse passado paia a leitura do presente. O que determina a força do romance é a organização interna e o grau de persuasão. Para mim, acho impossível falar do presente. O mais próximo que eu cheguei foram os anos 60, quando o poeta é assassinado, no momento do golpe militar. Esse foi o meu grito abafado, que há tanto tempo eu queria dar na literatura, e eu só resolvi por meio desse jxieta da província

Você não gosta de ser chamado de escritor regionalista. Acha que as cores locais não poder sobrepor o que está sendo contado. Como vê essa questão em Dois Irmãos?

Só o leitor pode dizer se é um romance regionalista ou não. O regionalismo está preso ao pitoresco, à cor local, ao determinismo geográfico. Acho que a literatura feita do particular para invocar o universal. No primeiro relato, tentei evitar, talvez com um temor exagerado, muitas referências ao Amazonas. Mas eu acho que, para falar sobre a Amazônia não é necessário usar páginas e páginas para descrever a natureza Posso falar do Amazonas dando ao leitor um drama humano, porque os dramas humanos não têm pátria Agora, minha pátria pequena é Manaus.

Há alguns anos, você tinha um romance inconcluso, sobre um escritor que passava a vida tentando escrever um único livro. É um dos seus romances por reescrever?

Não, esse foi totalmente abandonado. Não tem mais salvação. Alguns textos não têm salvação, outros podem ser totalmente reescritos. Dois Irmãos leve o manuscrito lido por várias pessoas. O romance é, de certa forma, uma atividade solitária, mas eu acho que o diálogo, o diálogo dos manuscritos, é importante. As pessoas devem ler, e todos os que leram fizeram observações importantes. A partir delas, você reescreve, repensa o texto.

Todo o romance transcorre em torno da família. Quando Yaqub vem a São Paulo, apenas o que muda a vida da família em Manaus é contado. Porque você optou por ficar em Manaus o tempo todo, como se a história toda saísse do quartinho do narrador?

Eu parti de um drama muito particular, que acontece numa casa que se situa em Manaus. Daí surgem lodos os dramas particulares decorrentes disso: de Halim, um homem apaixonado que não quer ter filhos, a conquista amorosa de uma mulher, Zana, e das coisas que não dão certo para ele: os filhos que ele não queria ter e a relação conflituosa entre esses dois filhos, com a ressonância bíblica da história entre Esaú e Jacó, filhos de Rebeca e Isaac. Como na Bíblia e em muitas famílias, há um filho predileto, escolhido pela mãe. Tudo isso se passa numa cidade que eu conheço, em que eu tive uma convivência profunda. A arte fala do particular; mesmo para alegorizar, ela parte do fragmento, pai a transmitir certos valores humanos.

Quando o mito bíblico de Esaú e Jacó passou a preocupá-lo e por que você decidiu escrever esse romance?

Desde a leitura de Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e da leitura da Bíblia, mas é uma coisa que também está dentro de mim. Sempre oscilei entre a errância – vivi em sete cidades – e a falta que faz um lugar fixo, um enquadramento. Esses extremos, essa tensão que surge entre o nômade e o sedentário, sempre me locaram. Sai de Manaus muito jovem, aos 15 anos, e eu não queria ter saído… Queria e não queria. Eu era um seresteiro, um boémio. Com 13, 14 anos, eu freqüentei a zona, a vida noturna. Tudo isso estava dentro de mim. E há dramas contados por outras pessoas. Às vezes, o leitor pensa que as histórias estão coladas à vida do autor. Não é sempre assim, é só um pouco assim. Tudo isso num mundo muito específico, que é o Amazonas, esse rio entre dois mundos, entre a imigração e a vida manauara.

Que na verdade já estão se fundindo.

Sim, os personagens cuja origem é imigração já estão mudados. O próprio Halim: seu drama não é voltar ao Líbano. Quer é viver na terra que escolheu. Sofre por uma paixão roubada, roubada pelo filho.

 

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RESENHA

Perguntas sem respostas dão sentido ao romance

Livro equilibra referência universais com uma Manaus desfloclorizada

Zana, a matriarca, está doente, poucos dias antes de sua morte, e pergunta: “Meus filhos já fizeram as pazes?” Não obtém resposta. Estamos, ainda, na segunda página do romance.

E essa apenas uma das perguntas da retomada, por Milton Hatoum, do mito bíblico de Esaú e Jacó.

Aqui, Yaqub é o primogênito – e cumpre o papel de Esaú, enquanto Ornar acaba sendo o escolhido pela mãe. É a rivalidade entre os gêmeos que norteará todo o romance, em especial a maior de todas as perguntas não respondidas: quem é o pai do narrador, chamado Nael, filho de Domingas com um dos dois. Nael espera que a mãe consiga. um dia, reunir forças para falar sobre seu pai. E, enquanto isso, conta essa história.

Numa Manaus em que os imigrantes libaneses buscam a construção de uma nova identidade, regada a molho de tucupi e jambu, a dúvida da origem resulta no drama, comum aos personagens, mas também particular a cada um.

Zana é a mãe cuja preferência pelo caçula, “peludinho” (nova referência à história bíblica), dá origem à grande divisão que marcará a vida dos gêmeos e de toda a família. Os dois competirão por mulheres, trocarão agressões, deixarão rusgas profundas nas próprias vidas e nas de todos os personagens que rodeiam a casa da família.

Cada um luta a seu modo, cada vez mais típico, cada vez mais oposto. O predileto, com todos os mimos que recebe, tor- na-se um errante indomável, enquanto Yaqub, o primogênito, é mandado ao Líbano aos 13 anos, como parte de uma longa história de “domesticação” de sua violência. Não chega a eliminá-la, e é essa capacidade de planejar suas vinganças que permite a Dois Irmãos, paradoxalmente, a imprevisibi- lidade, evitando que a simpatia escoe toda para Yaqub e que ele se transforme em herói.

A busca por respostas é, na verdade, uma tentativa, em geral fracassada, de restituir per- pi ejambu, a dúvida da origem das. Halim perde a mulher, Zana, para um dos filhos e não entende exatamente o motivo. Yaqub perde o amor da mãe logo após o seu nascimento. Ornar coleciona algumas derrotas para o irmão, além de ser privado, pela força que Zana exerce sobre ele, do amor completo de outras mulheres. Rânia, terceira filha do casal, não pode realizar seus desejos pelos irmãos e perde o futuro – não se casa. Zana, além da culpa pela divisão que provoca entre os irmãos, não consegue entender a escolha pela solidão feita pela filha. Domingas não acha forças para fugir da vida que encontrou em Manaus e da família de Halim e Zana. O filho, neto de Halim, recebe o nome de Nael, que a mãe considerava estranho, por sugestão do avô. Domingas perdeu sua liberdade, mas não tem forças para reencontrá-la.

A vida dos personagens é construída a partir desses “males de origem”. Eles não são corrigidos – porque não podem sê-lo. Dois Irmãos não apenas mantém essa coerência por todo o texto, mas também se apropria de modo criativo de narrativas universais, como é o caso da rivalidade entre Esaú e Jacó. O resultado é uma feliz combinação literária: o mito dá a força da repetição e da referência conhecida, enquanto os habitantes dessa Manaus pouco folclorizada, recriados por Hatoum, garantem a surpresa e o desconhecido.