Eduardo Coutinho (1933-2014)

Eduardo Coutinho (1933-2014)

Escrevi pouco, mas apaixonadamente, sobre Eduardo Coutinho (1933-2014).

O texto mais antigo, de 1999, parece-me o mais excessivo – hoje relativizaria algumas das afirmações dele, especialmente as mais genéricas, que tratam do cinema ficcional e documental. O de 2003 nasceu como um elogio: apresentava-o para um prêmio. Gostei de fazê-lo.

Muito mais gente escreveu mais e melhor que eu sobre ele.  O que importa é que eu admirava-o como a poucos outros criadores que tive oportunidade de acompanhar mais ou menos de perto a produção.

Eduardo Coutinho

Eduardo Coutinho (1933-2014)

 

Eduardo Coutinho, o cineasta da palavra 

Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo, 3/12/2003.

Diretor de ‘Santo Forte’ e de ‘Edifício Master’ concorre, pela segunda vez, à premiação; “a idéia de que o cinema é imagem e ação é um dos mitos do cinema; cinema é imagem e som”, diz

Eduardo Coutinho conta que voltou ao cinema depois de uma década e meia, quando decidiu fazer Santo Forte (1999), para realizar um filme que ninguém queria ou podia fazer. “Podiam até querer, mas não podiam fazer: um filme sobre religião, num só lugar, sem cena de culto.”

Coutinho é um dos indicados para o Prêmio Multicultural Estadão deste ano.

Ele é, também, até agora, na história do prêmio, o único indicado a concorrer por uma segunda vez. Pelo regulamento, para ser indicado uma segunda vez, é preciso que se passem pelo menos três anos de uma indicação para a outra. O documentarista concorreu em 2000 e voltou a ser indicado pela comissão neste ano. “Não sou movido a prêmios, mas não posso negar que gosto de recebê-los. Esse caso também é interessante, até porque a gente não se candidata”, comenta.

Quando diz que ficou mais de uma década longe do cinema, Coutinho, de certo modo, exagera. Depois de concluir Cabra Marcado para Morrer (1984), o diretor filmou, em 16 mm, O Fio da Memória (1991), sobre o centenário da abolição da escravatura. “Na época, foi um dos filmes menos vistos da história de cinema”, lembra, sobre a obra exibida poucas vezes, num ano em que o cinema brasileiro acabara de iniciar uma das maiores crises de sua história, com a chegada de Fernando Collor de Mello à Presidência. “Foram pouquíssimas sessões; mesmo em vídeo, teve uma distribuição restrita.”

A finalização de Cabra Marcado para Morrer, conta o cineasta, permitiu que Coutinho fizesse a opção definitiva pelo documentário. “Meu último filme antes do Cabra, nos anos 1970, foi de ficção. Larguei o cinema e fui para o jornalismo. Não voltaria ao cinema se não fosse para fazer o Cabra.”

Cabra só podia, por sua vez, ser feito por Eduardo Coutinho, que não pudera, devido à ditadura militar, concluir as filmagens de um documentário sobre o líder camponês João Pedro, assassinado em 1962, e as Ligas Camponesas. As filmagens, realizadas em 1964, foram interrompidas com o golpe militar. Com a abertura política no final da ditadura, Coutinho foi reencontrar as pessoas que faziam parte da história do filme.

Nas faculdades de jornalismo, Cabra é exibido para os estudantes de graduação como um modelo de reportagem. Nas de ciências sociais, O Fio da Memória ajuda a debater etnografia. O próprio Coutinho considera seu documentário Theodorico, O Imperador do Sertão (1978), feito para a TV, uma espécie de sociologia do coronelismo. “Não fiz pensando nisso, não estou preocupado em ser visto na universidade”, diz. “O documentário pode ajudar a entender um aspecto do Brasil, mas, antes, precisa existir como filme; se não for assim, não vai existir de outra forma.”

Se Cabra marcou a escolha pelo cinema documental, Santo Forte marcou uma aposta ainda mais radical na oralidade. “A idéia de que o cinema é imagem e ação é uma das mitologias do cinema. Cinema é imagem e som. As pessoas falam em todos os filmes, a diferença é que nos meus a palavra está encarnada, corporificada.”

Os filmes seguintes, Babilônia 2000 (2001) e Edifício Master (2002) seguem o “suposto modelo”, como prefere Coutinho, surgido com Santo Forte.

“Não se trata de criar padrão”, explica o documentarista. Mas há algumas regras que Coutinho segue e que abriram algumas novas possibilidades na hora de se fazer o documentário no Brasil. Coutinho não filma em sets, não tem uma pauta, não troca a imagem planejada e bonita pela casualidade de uma entrevista em lugares “instáveis”. Coutinho acaba transformando entrevistas em conversas, em que seus personagens também fazem perguntas, pedem licença para atender o telefone, ficam em silêncio. “Filmando assim, a ética é também uma estética e a estética é também uma ética.”

Coutinho não tem o medo infantil de perder o controle da filmagem, nem acha que pode evitar um plano ou uma imagem tradicional usando seis, sete câmeras diferentes. Para achar enquadramentos diferentes, outros cineastas, brinca, acabam deixando o entrevistado “torto na cadeira”. Aí, não dá para virar conversa mesmo e a entrevista pouco acrescenta ao que já se sabia.

O tal “método Coutinho” foi favorecido por uma inovação tecnológica – a câmera digital – que chegou ao mercado na segunda metade dos anos 1990.

“Para mim, foi essencial”, diz. Antes, os filmes em película permitiam a gravação sem interrupção de 11 minutos de imagens e 15 de som. Agora, são duas horas de gravação. Um filme de Coutinho tem orçamento de cerca de “R$ 400 mil, R$ 450 mil”, segundo ele. Incluindo a transferência da gravação digital para o filme em película, para ser exibido no cinema.

Se para Coutinho a câmera digital trouxe novas perspectivas, “para a garotada”, diz, “ela é uma bênção”. E vai mudar, “para o bem ou para o mal”, a forma de se fazer documentários. Porque, como ela barateia muito o custo, permite que se iniciem as filmagens sem o dinheiro para a finalização e se busque esse dinheiro com algo concreto – e não com um roteiro, que pode engessar um filme do gênero.

Atualmente, Coutinho trabalha na edição do filme que realizou com os antigos companheiros de São Bernardo do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva.

“Estou angustiado.” O filme deve ficar pronto até abril de 2004.

Uma das entrevistadas do documentário "Santo Forte" (1999)

Uma das entrevistadas do documentário “Santo Forte” (1999)

 

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Documentários em cartaz levam à reflexão

Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, 20/12/1999.

Há três documentários sobre o Brasil em cartaz em São Paulo: Santo Forte,  e Os Carvoeiros. Assistir a qualquer um deles faz pensar nos problemas brasileiros; assistir aos três obriga a refletir sobre o próprio gênero, talvez o mais genuíno, num país periférico como o Brasil.

Explica-se: a grande marca do cinema norte-americano é o total descompromisso com a realidade, com o cotidiano. Só nos Estados Unidos são feitos filmes de exaltação do Estado e do capital convincentes, que nos transmitem a sensação de verdade. E, quanto mais fantástico, mais convincente. Um exemplo dessa singularidade é Independence Day. Não se imagina um cineasta brasileiro – ou francês ou inglês – contando a história de uma guerra interplanetária cujo principal protagonista é o presidente de qualquer uma dessas – ou de outras – nações.

A realidade costuma ser matéria-prima dos cinemas que não o norte-americano, ainda que se tratando de filmes de ficção. É o caso de Quando Tudo Começa, em cartaz no Espaço Unibanco -a crise da escola pública francesa é só mais uma manifestação do empobrecimento da população e do descaso da burocracia, quer nos dizer o diretor Bertrand Tavernier.

A produção francesa recente, mesmo que marcada por preocupações de uma classe média decadente, vira-se cada vez mais para a periferia, povoada por jovens desocupados e cães violentos.

O documentário, por ter na realidade não apenas a matéria-prima, mas também seu objetivo final, pode ser, assim, o cinema por excelência em países que não os EUA. Arriscaria a dizer que quanto mais periférico e mais contraditório o país, mais o bom cinema de ficção tende a se assemelhar com o documentário.

Mas o que é um documentário? É um cinema de compromisso total com a realidade, da origem ao produto final. Um cinema cujo objetivo primeiro é expressar as contradições do mundo real.

Não é tarefa fácil. Antes de rodar Santo Forte, Eduardo Coutinho, em entrevista à revista Sexta-Feira (nº 2), feita por pós-graduandos em antropologia, disse o seguinte: “O cara pode ser um camponês da Amazônia, mas ele te vê e intui o que você quer ouvir. Eles são muito mais vivos que todo cineasta que vai procurá-los”. Para superar esse problema, é preciso estar aberto a todo o tipo de resposta. “Estar aberto para ouvir que é bom ou ruim é não desqualificar previamente a opinião dessa pessoa”, completou.

Santo Forte é um filme sobre religião sem cenas de rituais. A realidade contada é aquela narrada pelos personagens. O compromisso com a verdade expressa pela palavra é tanto que a edição não se importa com cortes descontínuos. Dançarinas de boate, aposentados, praticantes das mais diversas religiões explicam suas relações cotidianas com os deuses e os santos.

“Resolvi dar prioridade total ao discurso dos personagens. Por uma razão simples: se eu não fizesse isso, ninguém ia fazer. Ninguém está interessado em apostar assim radicalmente na palavra”, disse Eduardo Coutinho em entrevista publicada na Folha.

A frase de Coutinho se aplica perfeitamente ao documentário Os Carvoeiros, de Nigel Noble, que investe na imagem. Os protagonistas do filme têm poucas oportunidades de falar. Nem lhes foram dirigidas perguntas mínimas. As conversas entre a equipe de filmagem e os carvoeiros param, em geral, nas primeiras perguntas.

A contradição evidente entre o carvoeiro e a indústria siderúrgica (e a que utiliza o aço) é minimamente explorada -chega, por vezes, a dar a impressão de que surge apenas para que o filme não seja criticado por evitá-la.

A opção de Os Carvoeiros pela imagem afasta-o da realidade. Velhos carregando toras dentro de fornos cheios de fuligem sugerem que o trabalho não apresenta tantos riscos (não há doentes no filme); crianças sujas carregando tijolos podem também significar que elas têm capacidade física para tanto, só que ganham pouco; a escola perde 80% dos alunos, apesar da bolsa-escola, e terminamos o filme sem saber ao menos que explicação a professora dá para o fato.

O cineasta parece ter encontrado uma humanidade que não esperava nos fornos de carvão. Surpreso, em vez de explorá-la, contentou-se em ficar surpreso -e maravilhado pelas fotografias que poderia fazer.

, de Ricardo Dias, fica no meio do caminho entre os dois.

Pretende-se um grande painel da religião brasileira. Percorre caminhos conhecidos, de imagens conhecidas (Círio de Nazaré, cultos da igreja Renascer, terreiros de umbanda, Vale do Amanhecer). Mas não se contenta com a imagem, embora a priorize. Também ouve seus personagens com decência, mas com uma diferença: não consegue envolvê-los. E, sem esse envolvimento, o filme não realiza a verdade que busca, embora a busque com sinceridade.