Empate na noite das celebridades do livro

Capas de 'Nove Noites' e 'Pico na Veia'
portugaltelecom

Uma crônica, de 2003, de uma entrega de prêmio no Brasil que deu mais errado do que o Oscar 2017

Em novembro de 2003, o mundo era tão diferente… A Portugal Telecom estava no Brasil e patrocinava prêmios literários; não havia a crise de hoje, mas uma perspectiva de crescimento que, depois, foi além das expectativas. Sebastião Uchoa Leite, Rubens de Falco, Raul Cortez, Mario Chamie, Cauby Peixoto estavam vivos.

O texto abaixo, escrito por mim, foi publicado com o título acima (Empate na noite das celebridades do livro) em 6 de novembro de 2003 no jornal O Estado de S.Paulo. Atualmente, o Prêmio se chama Oceanos e tem outro patrocinador.

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Pico na Veia e Nove Noites dividiram o prêmio da Portugal Telecom 

Não se sabe o motivo preciso, mas o fato é que até Rubens de Falco estava lá (talvez representando Lucélia Santos, sua colega de A Escrava Isaura que não foi vista). A Sala São Paulo lotou anteontem à noite para a apuração e entrega da primeira edição do prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.

Depois de uma reinterpretação do regulamento do concurso, o presidente da empresa no Brasil e idealizador do prêmio, Eduardo Correia de Matos, corrigiu a auditora que cuidava dos envelopes lacrados com os votos dos sete jurados (Flávio Loureiro Chaves, Lucila Nogueira, Deonísio da Silva, Luiz Costa Lima, Beatriz Resende, Fábio Lucas e Ítalo Moriconi) e anunciou que os dois líderes na apuração, Bernardo Carvalho, autor de Nove Noites (Companhia das Letras), e Dalton Trevisan, de Pico na Veia (Record), dividiriam apenas o valor do primeiro prêmio (R$ 50 mil para cada um deles), e não a soma do primeiro e do segundo.

Individualmente, foram, digamos, R$ 15 mil brutos a menos para os escritores (mas R$ 20 mil a mais para o poeta Mário Chamie, autor de Horizonte de Esgrimas e terceiro colocado, que não receberia nada, e R$ 10 mil a mais para o também autor de poemas Sebastião Uchôa Leite, que desceria uma posição – acabou com os R$ 30 mil destinados ao segundo colocado).

Parece confuso? Não reclame, esse texto poderia ter sido escrito por Christiane Torloni. Durante a apresentação, a cada envelope aberto, ela tentava corrigir seu companheiro Raul Cortez (não se vai comentar aqui a interpretação que deram para as poesias de Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Manuel Bandeira e Cecília Meireles) e só piorava as coisas. Teve gente até, maldosa, que disse que ela estava interpretando Luciana Gimenez. Quando tudo acabou, os sete votos haviam sido apresentados, mil pessoas viam a tabela (parecida com a do Campeonato Brasileiro) num telão com um empate evidente e nenhuma indicação de que o desempate seria por saldo de gols, ela vem e diz: “calma, gente, tudo pode mudar”.

Christiane e Cortez apresentaram a entrega, a que compareceram a prefeita Marta Suplicy, seu marido Luis Favre e vice-governador Cláudio Lembo – mas que, devido a um atraso “providencial”, não tiveram tempo de discursar. Dalton Trevisan, evidentemente, não estava lá. Bernardo até deu uma entrevista bem-humorada depois de tudo, mas no palco ficou um pouco constrangido (foi o primeiro prêmio de sua carreira).

O destaque, portanto, ficou com os músicos, que fizeram uma homenagem a Noel Rosa. Cauby Peixoto, aos 72 anos, foi o último e o que mais impressionou os jornalistas portugueses convidados, cantando Último Desejo, mas nem de longe o mais cômico. Wanderléa entrou no palco pensando que era Elba Ramalho e tentou animar a platéia (o microfone estava baixo) cantando “A Juju já sabe ler/ a Juju sabe escrever/ há dez anos na cartilha”. O efeito kitsch, contudo, tinha contagiado o ambiente muito antes, quando, vestido de garçom (sério, calça preta, paletó branco e gravata borboleta) Eduardo Dusek cantou Com Que Roupa. Virginia Rosa (Conversa de Botequim) foi profissionalíssima e Luiz Melodia improvisou um pouco, uma vez que não conseguiu decorar (nem ler) a letra de O X do Problema.

Quanto ao resultado do prêmio, pode-se dizer que houve certa justiça. Nove Noites foi, sem dúvida, um dos dez finalistas mais bem recebidos em 2002. Poderia ter ganho sozinho, porque há uma certa incoerência em premiar um livro de Dalton Trevisan que é, para boa parte dos que acompanham literatura, muito inferior ao que ele já produziu, ao que vinha produzindo e mesmo ao que fez depois (seu livro Capitu Sou Eu, lançado neste ano). Mas júri de literatura tem mesmo esse padrão, o de ser incontrolável.

E as festas de entrega são como todas as premiações: engraçadas.