Graciliano Ramos por Audálio Dantas

Jornalista foi o curador de uma bela mostra em homenagem ao escritor, que ocorreu no Sesc Pompeia, em 2003

Texto publicado em O Estado de S.Paulo, 19/01/03. Título original: “A terra e a obra de Graciliano Ramos”.

Mostra no Sesc Pompéia, em São Paulo, traz documentos e imagens que revelam o universo e a trajetória do autor de Vidas Secas e São Bernardo

Se o Sesc Pompeia perdeu a efeméride do ano passado (110 anos do nascimento), não será por falta delas que vai deixar passar 2003. Abre lá, na terça-feira, às 20 horas, e segue até o dia 30 de março, a mostra “O Chão de Graciliano”, que, além de comemorar com certo atraso os 110 anos, marca os 50 da morte do autor de São Bernardo (20 de março de 1953), os 70 da publicação de seu romance de estreia, Caetés (1939), os 75 sua posse (7 de janeiro de 1928) no cargo de prefeito de Palmeira dos Índios e os 40 da realização do primeiro filme baseado em um dos seus livros, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.

Também faz 40 anos que o artista plástico Aldemir Martins criou uma imagem para a cadela Baleia para as edições do romance Vidas Secas. Especialmente para esta exposição, Aldemir fez uma nova versão da cachorra que caça preás e ajuda a alimentar a família de Fabiano e Sinha Vitória.

Duas Baleias, por Aldemir Martins, baseadas na obra de Graciliano Ramos (Vidas Secas)

Duas Baleias, por Aldemir Martins

“Ela está mais magra”, diz o autor do desenho. Seu “sorriso” e os traços curvos, no entanto, mostram que ela parece menos triste do que quando olhada de frente e um tanto distante da descrita no romance pouco antes de ser morta por Fabiano: “A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam, num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.” A cachorra de Aldemir não está tão mal. “É uma Baleia com esperança no novo governo”, brinca o artista.

Uma Baleia que parece estar no mundo com que sonha, ainda segundo Vidas Secas: “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.”

Documentos – “O Chão de Graciliano” tem curadoria do jornalista Audálio Dantas. Segundo ele, a mostra procura apresentar a terra do escritor, com fotos e documentos da época em que ele viveu em Alagoas, mas também refazer sua trajetória literária.

A mostra contará com imagens atuais de Quebrangulo, onde nasceu Graciliano, Viçosa (onde escreveu o primeiro conto, “O Pequeno Pedinte”, aos 12 nos), Buíque (PE) e Palmeira dos Índios, feitas pelo fotógrafo Tiago Santana no ano passado.

É nesse chão, escreve Audálio Dantas na apresentação da mostra, que Graciliano “escreve três de seus romances – Caetés, São Bernardo e Angústia – e ambienta outro, Vidas Secas, assim como as memórias de infância, o livro de sua dolorosa descoberta do mundo, da tragédia da terra e do homem que a habita”.

Como não poderia deixar de ser, mas talvez mais claramente que na maioria dos escritores, uma está radicalmente ligada à outra. A “estreia literária”, a obra que torna Graciliano conhecido é um relatório que faz sobre seu primeiro ano de gestão à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios (para a qual foi eleito em 1927, aos 35 anos, já viúvo e pai de três filhos), feito cinco anos antes de conseguir lançar Caetés.

Edições do Diário Oficial que publicaram o relatório do prefeito-autor estarão à vista do público, bem como o registro geral de contas, escriturado pelo próprio Graciliano, sua certidão de nascimento e as pranchas de um novo projeto gráfico para suas obras, que será lançado ainda no primeiro semestre deste ano. Também será exibida a cópia de uma carta, inédita, do escritor para o folclorista Aloísio Vilela.
Vilela escrevera, com um pseudônimo, sobre Caetés. Graciliano manda a correspondência agradecendo os elogios, dizendo não merecê-los (ele passaria a vida criticando a própria obra) e apresentando os principais personagens de São Bernardo — Paulo Honório é o o “proprietário que enriquece matando os vizinhos e tomando-lhes as terras”, e Madalena, a “professora”.

Sem o rigor de um museu, “O Chão de Graciliano” leva ao Sesc documentos do Instituto de Estudos Brasileiros (USP) — como um exemplar de Vidas Secas dedicado ao escritor Mário de Andrade —, dos museus Casa Graciliano Ramos e Xucurus, de Palmeira dos Índios, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e da Imprensa Oficial de Alagoas, dirigida por Graciliano nos anos 1920. Ainda promete exibir as versões para o cinema de sua obra — além de Vidas Secas, Nelson Pereira dos Santos adaptou Memórias do Cárcere, e Leon Hirszman dirigiu São Bernando.

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A CARTA
A carta inédita

Meu caro Aloísio Vilela:
Ontem li o artigo que v. publicou, a 4 deste mês, no Correio de Viçosa. Muito obrigado. Não nego o que você escreveu: o livro é ordinário e tem cabelos brancos. Isto, porém, não faz que os meus agradecimentos deixem de ser sinceros. V. teve boa intenção. Desculpe-me uma pergunta indiscreta. Por que não escreve com o seu verdadeiro nome? O artigo poderia ser assinado e não envergonharia o autor. O que não lhe perdoo é v. ter aludido ao jornal e literatura da Viçosa de 1905. V. nem imagina o que aquilo era. O pessoal admirava ferozmente os contos de Coelho Neto e os versos de Alberto de Oliveira. Mário Venâncio, o gênio da terra, começou desta forma uma espécie de novela, que sectários exaltados decoravam e declamavam pelos balcões e pelos bilhares: “Jerusalém, a deicida, dormia sossegadamente à luz pálida das estrelas.” Isto era lindo naquele tempo. Mas o que deu a Mário Venâncio reputação de literato notável não foi a Jerusalém nem foram as estrelas: foi o hábito que ele teve de calçar tamancos e vestir fraque por cima duma camisa de meia. Todo o mundo supôs que um vestuário tão extravagante era consequência de algum desarranjo mental originado por excesso de talento. Essas coisas se passaram há quase trinta anos. Com franqueza, não valia a pena desenterrá-las. Certamente a Viçosa de hoje não lê o Inverno em Flor, não recita A Lagarta nem procura adjetivos difíceis no dicionário. Tudo mudado. Quando estive aí, notei várias transformações por fora das casas. Estou convencido de que há transformações por dentro. O seu artigo mostra que também nessas paragens as frases bonitas estão desmoralizadas. “Jerusalém, a deicida.” Pobre do Mário Venâncio. Se estivesse vivo, seria um infeliz, como certos ídolos que ele adorava e que ainda se arrastam pelas portas das livrarias porque têm fôlego de sete gatos. Não conheço bem a Viçosa atual. Mas v. me diz que ela difere pouco de Palmeira. É bom que seja assim. O meu livro que Gastão Cruls vai editar em maio trata de coisas daí: as farras com aguardente e caju no Parnaíba, o Pão sem Miolo, o S. João, o hotel, a professora, a tia da professora, o advogado malandro, o padre político, o proprietário que enriquece matando os vizinhos e tomando-lhes as terras. É um romance que não me descontenta, creio que está apresentável. Talvez me engane, mas acho-o muito diferente do outro, que, graças a Deus, é bem ruinzinho.
Adeus, meu caro Aloísio. Mando-lhe dois abraços: um para v., outro para o velho Olegário, que apesar de selvagem, é uma das criaturas que mais estimo.

Amigo
Graciliano Ramos
Maceio-8-3-1934

Carta de Graciliano Ramos ao folclorista Aloísio Vilela

 

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