‘Leviatã’ e a velha brincadeira sem graça do ‘onde está o Auster’?

No romance, relançado no Brasil, narrador e protagonista têm nomes que remetem ao autor

Um poeta português que vive em São Paulo e que não gosta de romances – Ernesto Melo e Castro – costuma dizer que eles o incomodam por terem, sempre, cem páginas a mais. É uma bravata, exagerada na maioria das vezes, mas que, no caso de Leviatã, de Paul Auster, relançado no Brasil pela Companhia das Letras, peca pelo comedimento (na sua primeira edição no Brasil em 1993, pela Best Seller, as letras miúdas ajudaram o livro a ter 240 páginas; agora, são 312). Auster é um autor cult, consagrado, pelo menos elogiado na grande parte das resenhas – de seus livros e filmes (ele também dirigiu Os Mistérios de Lulu). Poucas vozes ousam discordar, e quem reagiu com muito bom humor a esse simpático vendedor de livros foi Ivan Lessa, brincando justamente com essa capacidade de se autopromover (chegando, mesmo, a publicar 55 páginas com “as melhores entrevistas” que concedeu, no livro A Arte da Fome, em que reúne também vários de seus ensaios) e de convencer críticos e literatos.

O que é esse Leviatã de Paul Auster? O livro narra o encontro casual e arbitrário de dois escritores, Peter Aaron (que, claro, tem as mesmas iniciais do autor) e Benjamin Sachs (Benjamin foi um pseudônimo de Auster), também uma espécie de protetor de Aaron. Benjamin está morto, suicidou-se com uma bomba, e Aaron, depois de transar com a mulher de seu amigo, está disposto a salvar a imagem de homem honrado.

Ocorre que Aaron tem pressa, pois o FBI (sempre o FBI) está no seu encalço, afinal, além de explodir a bomba suprarreferida, Sachs é também o Fantasma da Liberdade, espécie de terrorista do simbólico, que percorre as cidades norte-americanas explodindo réplicas da estátua da Liberdade – porque os ideais dos pais fundadores dos Estados Unidos não estariam sendo respeitados (na verdade, há muito menos de heroico e muito mais de história pessoal nessa atitude do que parecem acreditar o autor, o narrador e o protagonista: Sachs caiu do quarto andar da estátua durante a festa de cem anos da sua inauguração).

Em resumo, o que temos: um autor que não se confunde apenas com o protagonista, mas que consegue a proeza de ser uma mistura dos dois, sem nenhuma sutileza, num mal ajambrado jogo que poderia se chamar “Onde Está o Auster?”; um autor que compara a opressão do Estado norte-americano a um monstro, evocando Hobbes, mas que acha que isso não ocorreria se os políticos no poder hoje não tivessem traído as boas intenções dos revolucionários.

Em resumo, mesmo, temos um escritor profundamente impregnado pela ideologia do partido democrata (que o francês Serge Halimi chama de uma das duas cabeças do partido único norte-americano), cheio de boas intenções, que transfere para seus dois personagens (narrador e protagonista) o que considera uma qualidade. Esquece que, de boas intenções, pode-se fazer péssima literatura.

Por que, então, Auster teria tantos admiradores? É difícil dizer, mas uma primeira pista é que ele sabe muito bem disfarçar seus defeitos. A força da casualidade, que tanto chama a atenção em seus livros, é um hábil recurso para justificar personagens com falhas de construção.

Quando o livro sugere uma pista falsa, não é preciso desqualificá-la de modo coerente, basta jogar a responsabilidade na surpresa que tudo muda, inclusive a percepção do narrador em relação a seu mui amigo. Se é preciso fazer com que Fanny, a mulher de Sachs, se interesse por Aaron, então ela própria revela que Sachs gosta de namorar suas admiradoras – e, mais ainda, de lhe contar. O narrador não precisa escolher a versão, nem procurar se informar de fato, até mesmo para chegar à conclusão que chega sem nada disso: a de que nunca saberá exatamente qual relato é verdadeiro. O que importa é que era preciso levá-los à cama, e isso é simples, ainda que não faça sentido algum.

Não se trata de eliminar a importância do acaso, mas de apontar a banalização do seu uso, tornando-o um recurso frouxo, mesmo que seja uma boa saída para quem quer supostamente ajudar os mais fracos, mas que apenas faz reforçar seus inimigos. A roda viva não está contra a corrente do autor, mas, sim, a favor dele. Quando aquele que supostamente está precisando da mão do narrador-autor está para cair do penhasco, o santo acaso dá uma batidinha nas costas do narrador, ele se distrai, e ouve-se apenas aquela voz ecoando ribanceira abaixo.

O problema é que Auster seduz, é difícil abandonar a leitura, uma vez iniciada. No caso de Leviatã, pelo menos, o motivo não é um grande talento ao estruturar a obra, mas, novamente, de uso habilidoso de recursos do gênero “cenas dos próximos capítulos”. Auster está sempre a lançar iscas, e quando o leitor descobre que aquela informação, na verdade, não tem relevância alguma para o enredo, páginas e páginas depois, tantas novas pistas foram jogadas que o engano parece “sacada”.

Lessa, na sua resenha, usa a ironia para compará-lo a Danielle Steel, autora de romances cor-de-rosa que também podem ser acusados de amarrar os leitores. De fato, como literatura, Auster não é para ser levado a sério. Se fosse brasileiro, provavelmente seria maltratado pela crítica, mas como é porta-voz de uma ilustrada “modernidade progressista” norte-americana (estudou literatura francesa e italiana na Columbia e morou em Paris), acaba passando por um grande autor. É livro de praia.

(Quem quiser ler Leviatã, é bom não começar pelo trecho abaixo – porque, numa brincadeira de mau gosto, está aí o final do romance.)

Trecho

Harris veio sozinho, sem o estorvo do carrancudo e silencioso Worthy. Iris e as crianças tinham ido nadar no lago e, de novo. Eu estava sozinho, parado diante da casa, enquanto o vi descer do seu carro. Harris estava de bom humor, mais jovial do que da última vez, e me cumprimentou como se fôssemos velhos conhecidos, colegas na missão de buscar a chave para os mistérios da vida; Trazia novidades, disse Harris, e achava que talvez fossem do meu interesse. Haviam identificado a pessoa que andava autografando os meus livros e constataram que eia um amigo meu. Um homem chamado Benjamin Sachs. Pois bem, por que um amigo iria querer fazer uma coisa dessas?

– Por que sentia minha falta – respondi, enfim. – Ele partiu em uma longa viagem e esqueceu de comprar cartões-postais. Era o seu modo de se manter em contato comigo.

– Ali – disse Harris. – Um autêntico brincalhão. Talvez você possa me falar mais a respeito dele.

– Sim, tem muita coisa que eu posso lhe contar. Agora que ele está morto, já não faz mais diferença, não é?

Então, apontei paia o escritório e, sem faliu* mais nada, levei Harris através do jardim sob o sol quente da tarde. Subimos juntos a escadinha da entrada e, uma vez lá dentro, lhe entreguei as páginas deste livro.

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 3 de fevereiro de 2001.