Estamos novamente vivendo o tempo de “A noite dos desesperados”?

Cena do filme "A Noite dos Desesperados", adaptado do livro de Horace McCoy
"A Noite dos Desesperados"

Romance dos anos 1930 mostra como a lógica da exclusão é também a do entretenimento em tempos de crise

Em dezembro de 2000, publiquei o texto abaixo, sobre um excelente e breve romance que ganhava uma nova tradução no Brasil. O livro chama-se, em português, “A Noite dos Desesperados” (Sá), seguindo a tradução do filme de Sydney Pollack (1969), com Jane Fonda e Michael Sarrazin. E mostra como a lógica da exclusão, presente em programas como Big Brother Brasil (que ainda não estreara) e No Limite, está intimamente ligada à crise econômica – no caso do livro, à que sucedeu a crise de 1929.

Hoje, vivemos os piores dias, para a América Latina, da crise iniciada em 2008. Isso se materializa em golpes de Estado (Honduras, Paraguai e Brasil), em crises permanentes (Argentina e Venezuela), em programas de governos altamente antipopulares.


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Até quando vamos dançar essa dança? Até quando suportamos?

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Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 30/12/2000.

 

O show da exclusão na “Noite dos Desesperados”

Horace McCoy mostra o terror de um concurso de dança no auge da depressão americana

Por acaso, eles se encontram. Sem emprego e sem “capacitação profissional” para entrar no concorrido mercado de figurantes de Hollywood, Gloria Beatty e Robert Syverten aceitam participar de um concurso de dança em que o mais importante é resistir: vence a maratona quem aguentar por mais dias, não o casal que tem a técnica mais apurada. Uma espécie de No Limite de antanho, em que o esforço físico também tinha de ser combinado com uma resistência psicológica que Gloria não possuía.

O livro começa com o julgamento de Robert, acusado de matá-la – ele não nega o crime, apenas afirma que o fez a pedido de Gloria, para livrá-la do sofrimento que não procurava esconder. Essa não é a única morte do breve romance – uma das mais assíduas espectadoras da competição também acaba sendo vítima das circunstâncias.

A trágica história recriada por Horace McCoy, publicada originalmente em 1935, tornou-se uma das mais cultuadas representações da depressão econômica em que os Estados Unidos e o mundo mergulharam após a crise de 1929. A Noite dos Desesperados (They Shoot Horses, Don’t They?) é reeditado agora no Brasil. Marca o lançamento de uma nova editora, a Sá, fundada pela jornalista Eliana Sá, ex-editora de livros da Globo. Eliana, que deixou a empresa em meados deste ano, dirigia o setor quando a Globo lançou as Obras Completas de Jorge Luis Borges e o livro-reportagem Rota 66, de Caco Barcelos. A obra de McCoy já havia sido publicada no Brasil em 1945 e 1969, pela Livraria do Globo. A tradução era de Érico Veríssimo. Agora, ela é de Renato Pompeu.

A Noite dos Desesperados é um atento olhar de um escritor (e roteirista, na época também com problemas de falta de emprego) sobre uma cruel realidade social. Num estilo que lembra o do jornalismo (em alguns momentos, utiliza-se inclusive explicitamente desse gênero narrativo), McCoy faz um retrato dos símbolos que garantiam que o show não parasse.

A tristeza de Gloria é a outra face da felicidade aparente do concurso e de um mundo que abusa das forças e das necessidades da juventude. O título em inglês (Eles Matam Cavalos, Não Matam?) serve tanto para mostrar como Robert estava embrutecido quanto para mostrar que aquela sociedade era capaz de conceder mais a uma velha égua acidentada que a uma jovem mulher entristecida.

“Foi engraçado o modo como conheci Gloria. Ela, como eu, também tentava trabalhar no cinema, mas só fiquei sabendo disso depois”, conta Robert, narrador da história. Os dois são do interior dos Estados Unidos, ele do Arkansas, ela do Texas. O sonho do cinema acaba por se transformar no conformismo de comer de graça durante a maratona de dança, em troca da possibilidade de serem vistos por um produtor e de US$ 1.000, caso vencessem as dezenas de outros casais, em mais de um mês de concurso (quando tudo acaba, após 36 dias de competição, ainda restavam 20 casais).

A organização mantém, durante todo o concurso, médicos de plantão, para impedir problemas mais graves. Mas a exposição dos participantes vai além dos riscos de saúde. Para os casais sem patrocínio, as roupas vão envelhecendo. Os outros são obrigados a carregar anúncios nas costas.

Empresas prometem prêmios de umas dezenas de dólares para os casais que correm mais, pois há também uma disputa diária, em que os casais têm de dar voltas no salão juntos – a dupla que chega por último, desde que não atrapalhe os planos dos organizadores, é desclassificada. A eliminação do outro torna-se, portanto, banal, como se fosse também inconsequente.

O concurso de dança nos anos 30, assim como No Limite de hoje, expressa muito bem a realidade que está em seu entorno. Afinal de contas, a exclusão não é privilégio dessas criações esdrúxulas. Ocorre que elas não são apenas “espelhos” da realidade. Eventos como esses auxiliam a construir ideologia da exclusão, a torná-la “natural”.

O que tornou o livro de McCoy um marco é justamente essa percepção. Sua anti-heroína, Gloria, não pede para ser morta por perder os US$ 1.000 destinados aos vencedores, mas apenas por não aceitar mais participar do jogo – não o concurso em si, mas a disputa desenfreada que o mundo vivia, especialmente quando a depressão ampliava ainda mais o rol dos excluídos.

Não por acaso, o livro é relançado agora. Mas o mundo não é exatamente o mesmo: hoje, a banalidade da eliminação do outro é capaz de conviver até mesmo com um cenário de crescimento econômico, como o dos EUA nos anos Clinton.