O “cocalero” que sonha com um PT boliviano

O "cocalero" que sonha com um PT boliviano

Completo, com este perfil de Evo Morales, escrito em 1995, a publicação dos trechos mais relevantes do Trabalho de Conclusão de Curso que defendi na ECA-USP em 1995 sobre a economia boliviana. O primeiro trecho: Eleições na Bolívia: como surgiu Evo Morales; o segundo: Bolívia, 1995: breve histórico do neoliberalismo; o terceiro: Bolívia antes de Evo: a estabilidade vale mais que a revolução; o quarto: Bolívia, 1995: um partido da revolução; o quinto: Bolívia, 1995: a professora que amotinou a prisão.

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Imagine como a França se sentiria se, de repente, descobrissem que as uvas têm propriedades narcóticas, e jovens de Nova York passassem a abusar delas e se alienassem com elas. E, então, os agricultores franceses fossem chamados a erradicar suas viníferas e plantar qualquer outra coisa.

Jose Maria Herrera Penaloza

 

Evo Morales discursa no Parlamento boliviano/Foto de Joel Alvarez cc3.0

Evo Morales discursa no Parlamento boliviano em 2007/Foto de Joel Alvarez cc3.0

Como Vilma Plata, o cocalero Evo Morales é aimará, do altiplano andino. Também como Vilma, tem 36 anos. Evo chegou ao Chapare, no Departamento de Cochabamba, quando cumpriu o serviço militar obrigatório. Por lá ficou. É um dos 200 mil bolivianos que vivem da produção de coca.

 

Talvez não seja o acaso a razão de Evo (que assumiria a presidência do país em 22 de janeiro de 2006, após uma bela trajetória política) e Vilma, principais líderes dos movimentos que levaram o governo a decretar o estado de sítio em 1995, terem a mesma idade. Ambos saíram dos 17 anos em 1978, final da ditadura Banzer, aos 21 anos em 1982, quando ocorre a redemocratização do país.

Desarmado de um discurso tão duro quanto o de Vilma, defensor da via institucional e planejando organizar um partido inspirado no Partido dos Trabalhadores do Brasil, a Assembléia pela Soberania do Povo (que depois seria rebatizado para MAS – Movimento ao Socialismo), não se pode dizer que Evo joga “mole” com o governo. O líder dos cocaleros do Chapare, a região que mais produz folha de coca na Bolívia, foi duas vezes confinado durante o estado de sítio – num total de 35 dias (21 na primeira vez, 14 na segunda). E não descarta uma insurreição contra o governo e a sua política – ou melhor, “a política dos Estados Unidos”.

Junto com os camponeses, organizou comitês de autodefesa, que, armados de paus, pedras e arcos-e-flechas, combateram tropas da polícia rual e da DEA, a agência executora da política antidrogas dos EUA. Embora seu discurso não seja tão “esquerdista” quanto o de Vilma, o cocalero dono de 20 hectares e sócio de uma cooperativa rural não poupa palavras duras:

– Não foi um estado de sítio, foi uma ditadura, como qualquer outra. Tenho informações reservadas de que o governo busca um autogolpe, no estilo de Fujimori.

E o que aconteceria com a “fujimorização”?

– Desembocaria numa guerra civil.

De certa forma, a Bolívia já vive um guerra civil não-declarada no campo. Em agosto de 1995, um dia antes da minha entrevista com Evo, que, apesar de estar na Bolívia, tive de fazer por telefone, porque ele estava em Cochabamba e eu em La Paz, o cocalero e companheiros que seguiam da região do Chapare para Cochabamba foram cercados por helicópteros da DEA.

– Neste governo, iniciado em 1993, dez foram mortos, e 35, feridos. Toda a luta está dirigida contra o cocalero, não contra o narcotráfico.

Ao mesmo tempo em que membros do primeiro escalão da atual gestão e do Congresso são suspeitos de ligação com episódios ligados ao tráfico de drogas, o governo anuncia que cada família camponesa só poderá ter até dois hectares de plantações de folha de coca até 15 de novembro. O objetivo é cumprir a nova meta imposta pelos Estados Unidos, ou seja, destruir até o fim do ano 2.500 hectares de coca. Para cada hectare erradicado, as famílias receberiam US$ 2.500.

– Não vão conseguir – avalia Evo.

Carro boliviano com adesivo de Lula, em 1995/Foto Haroldo Ceravolo Sereza

Carro boliviano em La Paz com adesivo de Lula, em 1995: Brasil como referência /Foto Haroldo Ceravolo Sereza

O anúncio da nova meta veio acompanhado da notícia de que o governo não pagara todas as indenizações do primeiro semestre (embora dissesse ter gasto US$ 76 milhões com elas).

Os camponeses também têm uma avaliação muito negativa dos dez anos de neoliberalismo. Para eles, as políticas ditadas pelo FMI e pelo Banco Mundial fomentam o narcotráfico e a produção de coca com o objetivo de produzir cocaína.

– As importações acabam com os cultivos tradicionais. Se as coisas continuarem assim, Estados latino-americanos inteiros passarão a viver da produção de coca e maconha. E não adianta erradicar. Nos anos 1970, os EUA erradicaram as plantações de maconha na Colômbia. Hoje eles próprios são os maiores produtores. É preciso mudar a economia mundial.

Evo tem forte convicção no que fala. E lembra que, no Chapare, há um sindicato de mineiros “relocalizados”, ou seja, mineiros que perderam seus empregos a partir de 1985 e que hoje produzem coca, mostrando que a dinâmica da economia não pode ser separada da vida real. “Com a privatização das estatais, teremos sindicatos de cocaleros do Lloyd Aéreo, da Ende (energia elétrica), da Entel (telefonia) etc.”

Evo é um novo porta-voz de um novo movimento social. Mas esse movimento já vem elaborando uma resposta a boa parte das questões em que está envolvido. Para entender melhor a clivagem que há entre as necessidades dos cocaleros e o governo boliviano, nada mais claro que as resoluções tomadas no mais recente congresso camponês boliviano. Vejamos algumas das conclusões da comissão de folha de coca do IV Congresso da Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia:

• Os inimigos da coca são inimigos do país e dos povos aimarás, quéchuas e tupi-guaranis. Eles querem explorar os camponeses, nas fazendas coloniais, nas minas e nas fábricas capitalistas;

• A folha de coca não será erradicada e muito menos substituída. Sua utilização para a produção de cocaína é recente. Ela é plantada há 7.000 anos;

Plantadores de coca em protesto em La Paz, 1995/ Foto Haroldo Ceravolo Sereza

Plantadores de coca em protesto em La Paz, 1995/ Foto Haroldo Ceravolo Sereza

• A folha de coca serve de alimento, medicamento e outras necessidades próprias de nossa cultura;

• A folha de coca sustenta a economia do país. A economia informal, mais de um terço do PIB, é uma espécie de colchão que permite atenuar o impacto do modelo econômico neoliberal. Os mesmos que criticam o narcotráfico e o uso de drogas utilizam o dinheiro dessas atividades para se manter no poder. O dinheiro da folha de coca garante a governabilidade do país – os políticos querem o monopólio da produção de coca;

• A legislação permite que o camponês seja facilmente encarcerado, não o traficante;

• O lema “Coca por Desenvolvimento”, adotado pelo governo, é imoral, antinacional e mentiroso. Sem a coca, não há interesse pela Bolívia – o marco da política internacional e da política econômica boliviana é a coca. Se entregarmos a coca para que venha o desenvolvimento, perderíamos toda a capacidade de conseguir financiamentos para o desenvolvimento. Se o governo não compreender isso, o país cairá na mais absoluta miséria;

• A coca é a única saída para os relocalizados, os despedidos e os camponeses que voltam à terra devido ao seu preço estável e a resistência às pragas. Sem a coca, 70% da população ativa ficaria sem emprego e faminta;

• A guerra contra a coca substitui a guerra contra o comunismo, para manter nossos povos oprimidos e evitar a libertação;

• De 1989 a 1990, o país perdeu US$ 1.075.700 com a redução dos cocais. E as perdas chegariam a US$ 1.386.700 se a erradicação continuar;

• O governo deve organizar a exportação por meio de organizações ou instituições econômicas de fomento à exportação direta;

• A industrialização dos subprodutos da folha de coca deve ser feita internamente;

• É preciso despenalizar a folha de coca e os seus derivados hoje ilícitos. É preciso conscientizar os países do norte de que eles são os culpados por produzir os elementos químicos para a transformação da folha de coca em cocaína;

• É preciso protestar contra a Corte Suprema dos Estados Unidos, que decidiu que o país tem o direito de sequestrar companheiros identificados com a defesa da soberania nacional da sagrada folha de coca.

• A presença das Forças Armadas na Bolívia é uma ameaça. Os americanos nunca deixam pacificamente um país.