O olho arquiteto de Jean Cocteau

Jean Cocteau (1889-1963)
Jean Cocteau (1889-1963)

“Artista encarnou como poucos o anticonformismo”

Publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo de 11 de setembro de 2001

Para Jean Cocteau (1889-1963), “um poeta não deve fazer outra coisa além de poesia”. Mas nin­guém, corno ele, foi tão artista num sentido genérico: deixou sua marca na poesia, mas tam­bém no romance; fez um teatro inesquecível e um cinema ainda mais perene, em que a influên­cia do que se convencionou cha­mar de artes plásticas ou vi­suais esteve sempre presente.

Corno definir um homem assim? Multimídia é a palavra que, hoje, o jogaria na vala comum daqueles que são cega­mente apaixonados pela tecno­logia. Francis Ramirez e Chris­tian Rolot, professores nas uni­versidades Paris 3 e Montpel­lier 3, integrantes da equipe res­ponsável pela edição das Obras Completas de Cocteau pela Pleiade (o primeiro volu­me, dedicado a sua poesia, já foi lançado), acharam uma ou­tra forma de defini-lo: Jean Coc­teau – L’Oeil Architecte (Jean Cocteau – O Olho Arquiteto, ACR Édition, 326 págs.) é o nome de um belo livro de ar­te que eles assinam, lançado na França, que faz uma espécie de “perfil artís­tico” do francês (esse é apenas um dos lançamentos do ano de 2000 que ajudaram a manter a obra de Cocteau – leitura obrigató­ria para os jovens franceses que querem entrar na universi­dade e enfrentam o BAC, um ves­tibular unificado – viva).

O arquiteto, claro, tem um sentido figurado, de criador. E o olho, como mostram os autores, sempre teve um papel cen­tral na obra do artista: “O olho, na obra gráfica de Cocteau, tem a mesma presença obsessi­va que o sexo”, escrevem. Seria a vertente metafísica de sua criação.

A inspiração de Ramirez e Rolot, contudo, veio de urna obra do próprio Cocteau, que, em 1917, em La Création du Monde, define: “Eu/ E tudo se constrói em torno/ de meu olho arquiteto/ e de minha orelha”. “Quando reconstruímos seu olhar, encontramos permanentemente a ideia da invenção”, afirmou Rolot, por telefone, de Montpellier, no sul da França. Na sua opinião, Cocteau, como poucos, era capaz de tirar pro­veito do desconhecido.

Raio X – Para Rolot, o melhor exemplo para ilustrar essa capa­cidade seria o cinema, onde, graças ao fato de não ser um “ci­neasta” (nunca aceitou ser qua­lificado como um profissional), no sentido convencional, foi ca­paz de anunciar em seus filmes a nouvelle vague de François Truffaut e Jean-Luc Godard.

“A ignorância era, para ele, fe­cunda, pois permitia que ele buscasse novos tempos e novos modos de contar histórias”, explica Rolot. O cinema, para Coc­teau, era, portanto, uma arte pri­vilegiada, capaz de provar a existência real do que parecia uma irrealidade, uma espécie de raio X (ou endoscopia) do inconsciente.

Hoje, a ideia de que um artis­ta não precisa se prender a ape­nas um ramo da produção é cor­rente, mas, no tempo em que Cocteau produziu sua obra, um ditado bastante popular na França era: “Bom em tudo, bom em nada”. O “enfant terrible” Cocteau, no entanto, ousou ser apenas bom em tudo. “Ele escre­via sua poesia em cadernos de desenho”, conta Rolot.

Escrevendo desenhos, dese­nhando palavras, filmando mi­tos e montando imagens, Cocteau esteve no centro da produ­ção cultural francesa entre as duas guerras mundiais, como re­gistrou certa vez o crítico tea­tral brasileiro Décio de Almeida Prado, lembrando inclusive que dois ícones da vanguarda mo­dernista do País – Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade – chegaram a entrar em contato direto com Cocteau e sua criação.

Política – Durante a ocupação alemã na França, Cocteau viveu o paradoxo de incomodar os nazistas, mas também a resis­tência francesa. Os nazistas não gostavam de Cocteau porque suas peças e fil­mes tocavam em pontos que não agradavam em nada os ocu­pantes, especialmente quando o assunto era sexualidade. Com a montagem de Les Parents Terribles (Os Pais Terríveis, uma citação indireta do seu roman­ce Les Enfaints Terribles), Coc­teau, já bastante perseguido por suas preferências sexuais, é acusado de fazer apologia do incesto.

Apesar da perseguição dos nazistas, ele tornou-se alvo da resistência por escrever, em 1942, na revista Coemedia, um artigo em defesa do escultor ale­mão Amo Breker, que expunha suas obras na Orangerie. Breker era uma espécie de “es­cultor oficial do nazismo”, res­ponsável por conduzir Hitler em Paris em 1940, logo após a assinatura do “armistício”.

Cocteau justificará a sauda­ção (“Eu vos saúdo, Breker, Eu vos saúdo da alta pátria dos poe­tas, pátria em que as pátrias não existem mais, a menos na medi­da em que carreguem o tesouro nacional”) afirmando que ele era um amigo que conhecera 20 anos antes, fora de qualquer contexto político.

Além disso, Breker poderia ajudar a evitar que os trabalhadores do cinema francês fossem obrigados a receber ordens da indústria alemã. Quando os alemães foram der­rotados, defenderam Cocteau gente do calibre de Jean-Paul Sartre e Paul Éluard. Seu erro durante a guerra acabou por ser perdoado.

Se o comportamento artísti­co de Cocteau marcou sua épo­ca, sua vida também não seguiu regras prestabelecidas, e mui­to do que viveu lembra mais a contracultura dos anos 1960 e 1970 que épocas supostamente bem comportadas. Sua vida ajuda não apenas a entender sua obra, mas também a manter o in­teresse por Cocteau. Como afir­ma Rolot, “ele encarnou, como poucos, o anticonformismo”.