“Os melhores inimigos”: 1968, o ano em que dois intelectuais xingaram muito na TV

Bill Buckley e Gore Vidal: intelectuais duelando na TV
Buckely e Vidal

Políticos frustrados e polemistas afiados, Bill Buckley e Gore Vidal protagonizaram um dos capítulos mais interessantes das eleições norte-americanas de 1968

William Buckley dirigia a National Review, a revista da ultradireita norte-americana. Gore Vidal era um escritor de sucesso. Buckley defendia uma pauta anticomunista e, sobretudo, antiliberal; Vidal defendia os direitos civis da população negra, a busca por igualdade, a homossexualidade como uma condição natural.

A rede ABC, terceira colocada na audiência, não tinha recursos para bancar uma cobertura exaustiva das convenções republicana e democrata, num ano explosivo – lembre-se, estamos falando de 1968, o ano que não terminou em nenhum lugar do mundo. Um ano que conheceu rebeliões juvenis no Brasil, na França, na China, no México e, claro, nos Estados Unidos.

Gore Vidal e William Buckley, preparando-se para um dos debates da ABC (Magnólia Filmes)

Gore Vidal e William Buckley, preparando-se para um dos debates da ABC; imagem do filme “Os melhores inimigos” (Magnólia Filmes)

 

Foram dez confrontos entre Buckley e Vidal. Dos dois lados, filhos da elite norte-americana branca e anglo-saxã. Dos dois lados, intelectuais altivos, mas distantes da academia. Dos dois lados, mestres da retórica.

Buckley impunha uma pauta reacionária, que inspiraria fortemente a gestão de Ronald Reagan, nos anos 1980. Vidal, uma pauta típica da esquerda norte-americana, que foi parcialmente adotada nos governos Clinton.

Os debates foram um sucesso de público. E uma escalada de antipatia explícita. Vidal começa mostrando o discurso de ódio de Buckley e sua assustadora defesa de um ataque nuclear ao Vietnã do Norte. Buckley reage o tempo todo, atacando o comportamento do autor do romance Myra Breckinridge, protagonizado por uma personagem transgênero que horrorizava a direita norte-americana.

Vidal recusava-se a definir-se como homossexual ou heterossexual. Mas não deixou, em mais de uma ocasião, de insinuar a ambígua sexualidade de seu oponente para denunciar sua hipocrisia. Num dos ataques, disse que Myra era inspirada em Buckley – por sua insignificância. Em outra, chama Buckley de “Maria Antonieta da direita”.

Buckley era muito hábil em desviar dos ataques e em colocar sua pauta em discussão, opondo-se ao apoio aos grupos mais fragilizados da sociedade norte-americana e defendendo a forma como ele e Reagan chamavam a parte da população que vivia de programas sociais: “Parasitas”.

A disputa entre os dois crescia em virulência, mas mantinha alguma aparência, até que, no nono confronto ao vivo, os dois perderam a linha: Vidal chamou Buckley de neonazista; Buckley respondeu chamando Vidal de “fag” (viado).

O xingamento entrava na vida política. Gore Vidal nitidamente venceu, durante os encontros, nos argumentos, mas tanto por sua disposição de participar de um duelo intelectual com Buckley quanto por ter entrado num jogo de crescente violência verbal, acabou por legitimar o adversário. Elevou-o a um degrau que Buckley não merecia.

Hoje, o modelo de Buckley está cheio de seguidores. O de Gore Vidal é menos comum. O equilíbrio que havia em 1968, atualmente, parece pender para a direita.

Essa história toda é contada no documentário Os melhores inimigos, disponível no Netflix.