O Doutor House é um perigo

Doutor House
Doutor House

Nos manuais de medicina do seriado, uma unha encravada nunca é só uma unha encravada

Tudo bem que todo mundo adora o cara. Que ele é o tipo de mala que todo mundo gosta. Que o hospital em que trabalha tem os equipamentos mais modernos do mundo. Que sua equipe é fantástica.

É sério. Doutor House é um gênio. É capaz de diagnosticar as doenças mais improváveis. Pode atropelar a ética em proveito do paciente.

Mas vamos e venhamos: o cara é um baita pé-frio. Repare nos pacientes que ele atende…

Além de pé-frio, o doutor House adota uma prática que, mesmo não entendendo nada do assunto (contra a vontade do pai, o Editor do UOL Tabloide não fez medicina), dá para sacar que não funciona.

Diz o bom senso e também alguns manuais de clínica médica que um doutor deve partir das doenças mais prováveis; se elas forem descartadas, têm então de ir para as mais improváveis.

Não é, muitas vezes, a linha de raciocínio que o senhor Casa, digo, mister House, segue.

O cidadão chega ao mister House e conta: estou com uma unha encravada.

Em vez de chamar um podólogo, House parte para o que considera óbvio: parece lógico que o cara tem fibromialgia crônica de fundo psicológico, câncer no períneo sublingual e pancreatite reumática congênita.

Em casos assim, o protocolo é claro: enfia-se o paciente num aparelho de ressonância magnética, retira-se cinco tubos de sangue do cidadão, avalia-se a vida sexual pregressa do dono da unha encravada e, finalmente, faz-se um pequeno furo na unha do outro pé para que se busque uma explicação razoável do por que uma unha estar encravada e a outra não.

Os exames, assim, apontam para outra direção. Nada de fibromialgia crônica de fundo psicológico, mas evidencia-se a possibilidade de uma hepatite aguda do miocárdio; como o sujeito viajou para América do Sul e dormiu com uma chilena, é preciso considerar a possibilidade de que o excesso de selênio na castanha do Pará tenha provocado uma intoxicação renal; finalmente, o câncer no períneo sublingual está descartado, porque House descobre que o períneo sublingual não existe.

A essa altura, o cara que tinha uma unha encravada já sofreu três paradas cardio-respiratórias (que detonaram as pátulas esquerda e direita), pegou uma femurite que atingiu o centro nevrálgico da uretra direita e, finalmente, escarrou sangue, muito sangue.

Na verdade, ele escarrou sangue porque, como estava claro pelos exames de DNA, o sujeito não tinha amidalite – porém, cuidado nunca é demais.

Ok, há muitos fãs de House que querem, agora, dar uma surra no Editor do UOL Tabloide.

Pessoas, vamos tentar manter a pose. Agora, se atacado nas ruas, o Editor faz um apelo: não me levem a um hospital em que House dá plantão (perceba que, para não haver dúvida, o Editor deixou de usar a terceira pessoa para tratar da própria pessoa).

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Publicado originalmente no UOL Tabloide em 15 de setembro de 2009, com o título “Se o Editor do UOL Tabloide ficar doente, não o entreguem ao Dr. House.