Sobre escolas e racismo estrutural

Sobre escolas e racismo estrutural

Preconceitos arraigados podem ter impacto na definição dos "bons" e "maus" alunos pelos professores

Publiquei o texto abaixo no Facebook, um ano atrás. Ele se refere, por sua vez, a outro texto, muito curto e incompleto, que publiquei na Folha de S.Paulo. Acho que vale a pena publicá-lo aqui no blog.

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4 de abril de 2017 – Tá rolando a hashtag #meuprofessorracista. Ela me fez lembrar da primeira vez que fui cobrir a Anpocs, em 1997, pela Folha. Assistia a várias apresentações de pesquisa durante o dia e, no fim da tarde, escolhia um tema para escrever. Era corrido, mas era muito interessante.

No dia 24 de outubro de 1997 publiquei na Folha o texto abaixo, ele saiu cortado pela metade, seco. Falta de espaço, um problema que a internet felizmente resolveu. Fiquei frustrado, porque o corte, de alguma maneira, limitou muito o que desejava exprimir.

O que me marcou naquela apresentação de um pesquisador que eu não conhecia foi a conversa após a exposição.

Alguns anos antes, tinha saído um livro que fez furor, chamado “A Curva do Sino”, de Charles Murray e Richard Herrnstein, que, basicamente, fazia uma comparação de QIs para dizer que os negros eram mais burros mesmo que os brancos, independentemente de avançarem na escola. Não vou gastar mais datilografia com essa bobagem.

Na apresentação dos dados, ficava claro que o pesquisador do IBGE acreditava que havia uma questão complexa que explicava a situação, mas não entendi bem qual. Esperei a sessão do simpósio terminar e fui conversar com ele.Folha desnível escolar

Como bom estatístico, ele frisou: não posso provar, porque não tenho pesquisa de campo para isso, não é minha área. Mas a hipótese é queos professores selecionam os bons e os maus alunos, escolhem quem vai seguir adiante e quem vai ficar para trás. E que nesse momento, algo que nem sempre o próprio professor tem consciência, a cor da pele do aluno é um fator determinante.

Foi uma conversa rápida e marcante. A explicação era perfeita e se aplicava a muito de minha experiência escolar. O recorte de cor não é o único (gênero, classe, relações pessoais – em cidade pequenas principalmente – também são fatores que eu reconheço nas ‘escolhas’ de vários professores que tive), mas é fundamental. E os professores precisam ter consciência disso para escapar da armadilha.

Fora isso, uma questão que à época não estava colocada, há o racismo estrutural, que não está só na sala de aula, mas se manifesta lá dentro.

Então, agora, com um atraso de quase 20 anos, aproveito a hashtag para completar o texto.