Stephen King troca o puro horror por sadomasoquismo e psicologia

'Jogo Perigoso'
'Jogo Perigoso'

As algemas são a grande metáfora dos bloqueios causados pelos dois homens da vida de Jessie: seu pai e seu marido

Texto publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 31/12/1994.

Stephen King resolveu dar uma virada em sua carreira. Depois de “Trocas Macabras”, onde destrói uma cidade –a fictícia Castle Rock, no Maine, seu Estado natal–, King parte para uma trama psicológica e sadomasoquista em “Jogo Perigoso”, livro de 1992 lançado agora no Brasil.

A trama começa na “cama de viúva” de Jessie, numa casa de campo completamente isolada, no mesmo Maine. Jessie está algemada, praticando, um tanto a contragosto, o sadomasoquismo que tem ajudado em muito o marido Gerald (o título original do livro é “Gerald’s Game”, ou “O Jogo de Gerald”) a se excitar.

Jessie pede a Gerald que pare. Ele não o faz. Finge, pelo menos ela acredita nisto, que o pedido faz parte do jogo. A mulher reúne todas as suas forças e aplica simultaneamente com os pés golpes na barriga e nos testículos de Gerald. Provoca-lhe um ataque cardíaco, fazendo-o cair morto ao lado da cama.

A partir daí, começa a luta pela vida. Conseguir beber a água que está na prateleira ao lado, tentar impedir que um cachorro esquálido se alimente do marido morto e, principalmente, se libertar das algemas. São as provações por que Jessie tem de passar durante o período de mais de um dia em que fica presa à cama.

É um bocado de tempo –suficiente para se lembrar do que realmente aconteceu durante o eclipse total do sol de 1963, quando seu pai abusou sexualmente dela, uma garotinha que entrava na adolescência. Tempo suficiente para recordar das sessões de análise em que não conseguia “contar tudo”, como o relacionamento com Gerald.

Ou seja, as algemas são a grande metáfora dos bloqueios causados pelos dois homens da vida de Jessie: seu pai e seu marido. Há outro, o mais enigmático e assustador (mas não muito) do livro, que a personagem vê nas duas noites que passa na casa. É mais uma representação clara e desavergonhada do pai e do marido.

Apesar de mais pretensioso que outros livros do autor, “Jogo Perigoso” corre o risco de decepcionar os fãs de King: não traz horror em doses fortes.

King está disposto a investir nessa nova temática. Seu thriller seguinte, “Dolores Claiborne”, ainda não publicado por aqui, segue a mesma linha: uma menina molestada sexualmente, a mulher que mata o marido e o mesmo eclipse de 1963 que aparece em “Jogo Perigoso”.