Teleaulas de violência e má distribuição de renda

Bitucas de cigarro
Bitucas de cigarro

No fim da ditadura militar, aprender física e matemática pela TV também ensinava sobre a crueldade do capitalismo brasileiro

Uma coisa de nerd que ninguém confessa é o gosto por teleaulas. Acabo de ligar na tevê alemã, língua que não domino minimamente, e estão explicando o processo molecular que faz o pão crescer. Entendo por conta das imagens, didáticas. É divertido aprender sem entender parte da mensagem.

A cena me faz lembrar as primeiras teleaulas que assisti. Ou pelo menos que lembro que assisti. Era de um telecurso, primeiro ou segundo grau, não importa. Eu era criança e acordava cedo para ir à escola. Se acordava um pouco mais cedo que o normal, assistia a uma ou outra teleaula.

O país saía da ditadura. Duas delas, uma de matemática, outra de física, ficaram gravadas na minha memória.

Vou começar pela de física. Ensinava como uma pessoa podia atravessar uma rua movimentada, com quatro ou cinco faixas de rolamento. No exemplo, não há semáforo ou faixa de pedestre. A ideia era mostrar a diferença entre velocidade total e velocidade média e mostrar como para chegar do outro lado o cidadão precisaria correr e parar entre as faixas, correndo risco de vida, claro.

A segunda aula que eu jamais vou esquecer, e que na minha memória assisti antes da de física, era de matemática. A ideia era ensinar fração. Vou resumir o caso assim: “Fulano não tem dinheiro para comprar cigarros. Então ele faz os próprios cigarros a partir de bitucas que coleta no chão. Para fazer um cigarro, Fulano precisa de 7 bitucas. Quantos cigarros Fulano pode fazer com 89 bitucas?”

Os exemplos são chocantes em si: um pela violência, outro pela pobreza extrema. Esse era o país da nossa infância, e não me espanta a insensibilidade a que voltamos. A violência e a pobreza são fundamentais no nosso capitalismo.

Fico sempre na dúvida se os exemplos, escolhidos pelos professores que prepararam as teleaulas, procuravam ser denúncias dessa condição ou se eram apenas exemplos naturalizados dela. Passadas mais de três décadas, não consigo mais distinguir uma coisa da outra. O que sei é que Dória é candidato a governador depois de ser eleito com o slogan “Acelera São Paulo” e que Temer foi posto na presidência com a tarefa, entre outras, de frear o principal mecanismo de distribuição de renda do país, que é o aumento do salário mínimo.