Mensalidade na USP: um projeto digno da República Velha

Mensalidade na USP: um projeto digno da República Velha

A USP nasceu em 1934 como um projeto de universidade da elite. Juntava as três faculdades tradicionais (Politécnica, Medicina e Direito) a uma nova faculdade, a FFCL (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras).

 

Os amigos de Julio de Mesquita FIlho, do jornal O Estado de S. Paulo, ficaram encantados com a ideia, mas não deixavam que seus filhos trocassem as carreiras tradicionais por cursos “incertos” como sociologia, história, letras, física, biologia, química, matemática, geografia.

 

1.Prof. Dr. Fernando de Azevedo

Fernando de Azevedo. Foto: Arquivo FFLCH-USP/Serviço de Comunicação Social

 

 

Resultado: na primeira turma, não havia alunos que justificassem as novas vagas. Fernando de Azevedo, que representava naquele momento um projeto liberal democrático para a universidade, foi à escola normal e conseguiu convencer muita gente a trocar o certo (o curso profissionalizante com emprego quase garantido) pelo duvidoso, e matricularam-se 182 pessoas.

 

Os grã-finos da cidade pegavam seus carrões e até iam assistir às primeiras aulas, muitas de professores estrangeiros, mas continuaram não vendo futuro naquilo. Na segunda turma, de novo não havia alunos, e criou-se a figura do “professor comissionado”, que era afastado com remuneração do seu cargo (uma bolsa, portanto), para fazer a universidade. Resultado: 218 inscritos.

 

A USP, em particular a FFCL, assim se “popularizou”, abrindo logo no início suas portas para filhos de imigrantes que, muitas vezes, eram os primeiros a terem educação formal na família. Ainda nos anos 1940, havia uma divisão de gênero equitativa: na faculdade de Direito, apenas 1,5% das formandas eram mulheres, na FFCL, elas eram metade!

 

Desde então, o projeto da FFCL – que deu origem, direta ou indiretamente, às faculdades de Física, Química, Matemática, Biologia, Psicologia, Comunicações e Artes, Arquitetura e talvez outras que eu esteja esquecendo de citar, além da própria FFLCH, até hoje a mais popular do campus Butantã – enfrenta resistência da elite que preferia não ter esses cursos a ter de pagar por eles (eles felizmente eram minoria em 1934).

 

A USP foi feita por gente que recebeu para estudar nela e que acreditou na produção do conhecimento como algo de interesse público, para além de carreiras privadas.

 

Cobrar mensalidade é, sem meias palavras, um projeto da República Velha.