Uma voltinha num carro elétrico, no século passado

Peugeot 206 elétrico
Peugeot 206 elétrico

Em 22.08.1999, quando se firmava a data do Dia Mundial Sem Carro, dei uma volta num carro elétrico em Paris. Foi legal, mas também um pouco desanimador

Em 1999, as fábricas começavam a produzir em série os primeiros carros elétricos. Eles melhoraram muito desde então, mas ainda são minoria absoluta no mercado de automóveis.

Em 22.08.1999, quando se firmava a data do Dia Mundial Sem Carro, dei uma volta num carro elétrico em Paris. Foi legal, mas também um pouco desanimador. Fiz um texto num tom de crônica, cujo final foi alterado pela redação em São Paulo.

De vez em quando cito esse caso para comentar as dificuldades de se trabalhar como correspondente: a redação nem sempre está com a mesma vibração que você. E correspondente é bicho memorioso, nunca esquece esses pequenos casos.

Para que não se perca essa história um dia, republico o texto, agora com o final correto. O final impresso pelo jornal vai na sequência, junto com o link do jornal da época.

 

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Público faz teste de carro elétrico

de Paris

Dia sem carros, mas dia útil -até mesmo para as montadoras de automóvel. A 50 m da praça da Bastilha, uma grande empresa francesa montou um estande para tentar provar aos parisienses que carros não são, necessariamente, poluentes.

Incentivadas pelo governo, Peugeot e Renault fabricam carros elétricos. Esperavam estar vendendo 100 mil unidades por ano até o ano 2000, mas não conseguem passar de 5% disso ainda.

“O senhor quer dar uma volta, podemos levá-lo aonde quiser”, perguntava uma jovem vendedora às pessoas na rua.

O carro que ela exibe é um modelo a eletricidade fabricados pela Peugeot -e, portanto, autorizado a circular ontem na região central. É idêntico a um modelo popular na França.

Quem me conduz é o motorista Vincent Loussourarn. “Eu não sou vendedor, não sou funcionário da Peugeot”, avisa. Nem por isso esconde o entusiasmo.

“A diferença de preço é grande (um carro normal custa US$ 10,9 mil, o elétrico, US$ 14,9 mil), mas deve compensar. Em duas horas, você abastece para 200 km por apenas US$ 1,30″, diz, enquanto passeamos.

Vincent vai desfiando vantagens do carro elétrico: 1) “O governo ajuda a pagar (há uma ajuda de cerca de US$ 800)”; 2) “Não faz barulho”; 3) “É um cabo simples, dá para ligar na tomada, você paga quando chegar a conta”; 4) “É mais durável”; 5) “As 20 baterias duram quatro anos e você aluga por um preço irrisório. São 99% recicláveis”.

Passamos ao redor do Louvre, pelo cais do rio Sena na região. O tráfego, de táxis e ônibus, não lembra em nada o de Paris em dias normais.

Mas, com tantas qualidades, por que quase ninguém compra carros elétricos?, pergunto.

“Bom, continua a ser um carro de cidade, porque a autonomia ainda é pequena”, acha ele. “O porta-malas é pequeno” (em parte ocupado por baterias), diz. E, finalmente: “Ele não vai a mais de 90 km/h. Correndo, a bateria acaba logo”.

O carro não polui e é silencioso, mas também não anda.

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Originalmente publicada pela Folha em 23.08.1999, com o final “O carro não polui e é silencioso, mas o consumidor ainda não comprou a ideia.”