8 de março: A resistência é feminista, antirracista e antiLGBTfóbica

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Há 100 anos russas mudavam a história mundial, hoje quem modifica somos nós

Greve internacional de mulheres. Reforma da previdência. Feminicídio. Genocídio da juventude negra. Mais um 8 de março. Um 8 de março em meio a uma crise econômica e humanitária mundial.

Nunca foi tão importante ocuparmos as ruas. Ocupar dialogando com as pautas concretas existentes em nossos estados, países e tendo profunda solidariedade às mulheres imigrantes e refugiadas que sofrem profundamente com os fechamentos de fronteiras. Se eu fosse uma pessoa que acreditasse em coincidências eu diria que é pior estarmos em 2017, 100 anos depois as mulheres russas de Petrogrado terem inaugurando o processo revolucionário naquele país.

Não sou uma pessoa que acredita em coincidências, mas é inegável a força política que as mulheres vem adquirindo no Brasil e no mundo. Um movimentação política que aprofunda debates políticos, não é mais a representatividade pela representatividade somente.

A Marcha das Mulheres em Washington no começo do ano, as movimentações pela América Latina do “Ni Una a Menos”, a “Primavera Feminista” e a “Marcha das Mulheres Negras”. Todas estas movimentações apontam para uma necessária reflexão sobre a centralidade que os debates sobre gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero e classe tem quando pensamos o enfrentamento a projetos de sociedade conservadores.

O estupro é arma de guerra cotidiana em nossas vidas no globo. Seja em áreas de conflito, seja em lugares considerados “pacificados”. O fato de violência sexual servir de arma de guerra só demonstra o quanto a questão de gênero é intimamente ligado ao debate sobre manutenção de poder.

O machismo e o racismo são necessários pra manter um determinado projeto de sociedade. Um projeto que nos vê como descartáveis, territórios a serem ocupados para desestabilizar o inimigo. E é inegável o quanto a categoria raça/etnia se interliga profundamente nesse processo mais profundo de expropriação de direitos, nos expropriar nosso próprio corpo para atacar aos outros.

É 8 de março e as mulheres novamente não baixam a cabeça para ataques, denuciam a violência estrutural legada pelo machismo e pelo racismo, mas também falam dos ataques mais concretos que estão aí colocados. Falar de mulher, seja hoje ou na história é falar de resistência.

É tornar universal o que acham que é secundário. No Brasil, significa olhar prioritariamente pra condição de vida das mulheres negras e indígenas. A luta pela demarcação de terras, o processo agudo de genocídio que continuamos a enfrentar ano após ano, mês após mês, semana após semana, dia após dia…

O enfrentamento ao machismo é necessariamente antirracista e de enfrentamento de classe. Qualquer tentativa de retirar do quadro estas duas questões é apenas querer garantir direitos para uma mínima parcela das mulheres existentes no Brasil e no mundo.

Pra mim, nunca um 8 de março foi tão marcante. Marcante da necessidade de pensar os temas que atingem o conjunto da sociedade entendendo que as pessoas têm raça, gênero, orientação sexual, identidade de gênero e classe. Essas questões interferem diretamente na política, na vida e no nosso cotidiano.

Há 100 anos mulheres trabalhadoras da Rússia se insurgiram e inauguraram um grande processo de mudança social que impactou o mundo. Hoje nós fazemos história impactando o mundo de que os projetos conservadores apresentados no Brasil e no mundo tem em seu cerne o racismo, machismo e LGBTfobia.

No mundo inteiro as mulheres vão as ruas. Em São Paulo estaremos na Sé, denunciando a reforma da previdência, o genocídio da juventude negra, o feminicídio, a perseguição as refugiadas e a ofensiva latifundiária contra as indígenas em nosso país.

A resistência é feminista, antirracista, LGBT e de classe e precisa se aprofundar.