8 de março: Falar de violência contra mulher é falar de machismo e racismo

Fonte: Rovena Rosa/Agência Brasil

Estamos em momento de ousar e só o faremos ao compreender que não é a universalidade não é branca, mas sim negra e indígena

Chegou o Dia Internacional de Luta das Mulheres. Novamente é 8 de março e mais uma vez sairemos às ruas em todo país. As mulheres brasileiras, em especial as negras e indígenas, tem sido protagonistas importantes no combate e resistência ao golpe e seus desdobramentos. Tanto que na última vez que Angela Davis esteve no Brasil ela afirmou em conferência que “aos poucos, passei a questionar meu papel de trazer o feminismo negro ao Brasil. Percebi que nós, nos Estados Unidos, somos as que mais precisamos aprender com o conhecimento produzido pelas longas histórias de luta do feminismo negro brasileiro“.

Destaco isso por que ao mesmo tempo que é visível o crescimento do debate racial junto ao movimento feminista, também é visível a dificuldade em se incorporar como parte fundamental do combate ao machismo e patriarcado a dimensão de raça. E esse não é um desafio de hoje para o movimentos feminista e sociais. Não há como falar de violência machista se não falarmos do racismo. Os dados brasileiros escancaram isso de forma vergonhosa ano após ano. O feminicídio que enfrentamos no Brasil também é parte do processo de genocídio da nossa população e por que ainda enfrentamos dificuldade em absorver essa dimensão na centralidade dos nossos discursos?

Davis em novo manifesto conclamando greve de mulheres no EUA contra as reformas do presidente Donald Trump deixa muito nítido a importância de que estes debates e formulações devem andar juntas. “A violência de gênero baseada em raça é internacional, como deve ser a campanha contra ela. O imperialismo norte-americano, militarismo e colonialismo fomentam misoginia ao redor do mundo.” Ora, estamos em um momento de recrudescimento do golpe, um momento em que as ações de Garantia de Lei e Ordem mudam de qualidade com a intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro. A história no Haiti e de diversas outras intervenções militares já nos mostraram o quanto tais ações descambam para o aumento de violência sexual e mortes da população negra.

O chamado de Davis, assim como o de 2017, é preciso ser entendido como um chamado a construção de um feminismo dos 99%, mas que é profundamente antirracista, não apenas na citação de dados, mas que beba no que o movimento de mulheres negras e o feminismo negro tem elaborado para servir ao conjunto das mulheres e colocando em evidência o modelo societário que se vale da violência de gênero em todas as suas estruturações. O processo de feminização da pobreza tem raça e etnia. A profunda disputa de terra que vemos pela América Latina é protagonizada por mulheres indígenas, o que há de mais pujante e inovador no pensamento feminista é organizado por mulheres negras. Perder essa dimensão é um erro político gravíssimo.

Sim, chegou o 8 de março. Sim, vamos às ruas como todos os anos. Mas é o momento de virarmos a chave de vez e colocar na centralidade das nossas pautas feministas que o machismo e o racismo andam de mãos dadas, que queremos o fim do genocídio da população negra, a revogação das medidas aprovadas pelo governo golpista que atingem diretamente nós mulheres negras e periféricas antes das demais, é a denuncia de que este país nunca fez processo de reparação real aqueles que sofreram com a escravidão e o genocídio colonial e a afirmação de que nossos passos vem de longe e “eu sou por que nós somos”.

Avançamos muito nos últimos anos nessa interligação das pautas antirracistas e feministas. Estamos no melhor momento para talhar de forma profunda que o feminismo brasileiro não é apenas anticapitalista, mas corre ombro a ombro com a luta antirracista e antiLBTfóbica, profundamente decolonial e diretamente ligado as lutas indígenas e quilombolas por demarcação de terras. Sim, não são temas fáceis, mas para encarar o mundo que temos hoje é preciso um programa ousado e só teremos um programa ousado se pararmos de pensar que a universalidade se dá pelo que é branco, quando é exatamente o contrário!