A casa grande surta quando o quilombo ocupa a Netflix

Fonte: Divulgação

Racismo reverso não existe e tomara que Dear White People tenha uma longa vida

Saiu o teaser da nova série da Netflix, Dear White People, nesta semana. O vídeo é sarcástico e ácido ao mostrar a protagonista da série, Samantha White, falando sobre blackface. Obviamente, a polêmica se instaurou por conta da forma que o teaser trata do tema do racismo e uma chuvarada de descurtidas chegou ao canal da Netflix no YouTube, não apenas no vídeo, mas também teve gente que cancelou a inscrição no canal e ameaçou retirar a assinatura do serviço.

O sítio “Jovem Nerd” publicou matéria sobre o lançamento e a repercussão que teve Dear White People. Na matéria, Marina Val localiza o que significou e significa o blackface na manutenção do sistema racista nos Estados Unidos até o processo de luta pelos direitos civis iniciado nos anos 60. Novamente, uma enxurrada de comentários racistas que reivindicavam a falácia do racismo reverso e reivindicando a posição de diversos negros alinhados ao pensamento conservador e racista.

Não é a primeira vez nesta semana que a narrativa falando de negros não abaixarem a cabeça a uma pretensa concessão da branquitude incomoda e gera uma pororoca de comentários racistas na Internet. Falei sobre isso ao comentar os ataques misóginos e racistas que Bruna Sena sofreu ao declarar que não acredita em meritocracia e que a entrada dela no curso mais concorrido da USP.

Vou dizer uma coisa, se a casa grande surta quando entramos na universidade, o mesmo acontece quando falamos de entretenimento. Foi assim quando o BET Awards foi lançado, quando a Tais Araújo e Maju Coutinho se levantaram contra comentários racistas que receberam e tantas outras vezes que o tema veio a baila no mundo do entretenimento. Só servem aos brancos os negros que repetem seus discursos e justificam a manutenção do sistema racista em nossa sociedade. A branquitude gosta de Fernandos, Staceys, Lils e tantos outros que se dispõe a construir um projeto de sociedade que tem por base explorar, encarcerar e exterminar a população não branca no mundo – incluo aqui negritude, indígenas, árabes, semitas e todos aqueles que até hoje são alvo do racismo e da xenofobia.

Essas manifestações que temos visto de forma crescente nas redes sociais e na internet tem ligação real com projeto de sociedade e isso nos impõe ainda mais a árdua tarefa de reafirmar que algumas coisas não existem por conta da conformação social que existe no mundo. Ou seja, não existe racismo reverso. É duro ter que repetir isso toda vez que há alguma notícia sobre garantia de direitos para negros, indígenas, árabes e afins. Porém, é extremamente necessário que façamos isso.

Para começar deixo aqui algumas perguntas: Quantos povos brancos foram sequestrados de suas terras e levados para alhures? Quantos brancos foram vendidos em praça pública? Quantos brancos foram açoitados até a morte em pelourinhos? Quantos brancos tiveram que cultuar suas religiões escondidos para não serem castigados? E antes que venham com besteiras, é preciso lembrar que o sistema de escravidão da Grécia antiga e de Roma não era por meio de sequestro, contrabando e que as condições destes escravos eram profundamente diferentes das condições que o mercantilismo e o contrabando de escravos impôs ao povo negro nesse mundo. Também não confundam semitas com caucasianos, judeus foram perseguidos por que  são semitas e não caucasianos/arianos.

O processo de invasão das Américas por parte dos europeus não foi algo nada tranquilo. Dizimaram povos indígenas, que foram escravizados pelos colonizadores e, também, aldeados a força pelos jesuítas. Contrabandearam negros para aqui explora-los até a morte. Estas questões estabelecem relações sociais nada simétricas. Não é a mesma coisa ser negro ou indígena do que ser branco.

O racismo inverso não é. Isso decorre de um entendimento limitado acerca das expressões racismo, preconceito e discriminação, como bem mostra o professor Kabengele Munanga. Um negro pode até ser preconceituoso em relação a um branco, o que normalmente é um caso isolado, mas isso não muda a estrutura racial brasileira. Brancos não deixarão de ter poder e privilégios por causa disso. Não retira nem o poder, nem os privilégios da branquitude, como mostra a pesquisadora Lia Schucman em sua tese. (Por que você deve parar de afirmar que o racismo reverso existe?)

As manifestações de boicote a Dear White People apenas reforçam o quanto é necessário continuar afrontando e apontando que o racismo é uma parte estrutural da nossa sociedade. Existe extermínio da juventude negra, as mulheres negras morrem mais que as mulheres brancas, a negritude ganha menos do que a branquitude, as terras quilombolas e indígenas são negadas pelos grandes latifundiários brancos, Trump e Macri se posicionando contra imigrantes refugiados e uma série de tantas coisas que só demonstram que racismo reverso e white tears são contos da carochinha nesse mundo. Que para o sistema capitalista a questão de raça e gênero é tão universal quanto a de classe.

O chorume que se abre a cada vez que se ocupa um lugar historicamente dominado por brancos é por justamente abrir espaço para que falemos o quanto o racismo mata, oprime e constrange. Isso é inadmissível fazer, os brancos preferem aqueles que tomam pra si o papel do bom selvagem, o papel da gratidão pelas migalhas. O papel de levantar a voz e dizer que existe racismo sim, que é preciso combatê-lo, que representatividade com conteúdo importa e que é necessario enegrecer todos os espaços incomoda, sempre incomodou. Afrontar incomoda. Lutar incomoda. Incomoda por que significa perda de espaço de poder e privilégio e isso para a branquitude é inadmissível!

Tomara que a Netflix não verga a pressão conservadora, racista e retrógrada. Que venha dia 28 de abril, Dear White People virou minha nova série favorita antes mesmo de estrear.