Black Friday do Governo Temer? Mais um capítulo racista da esquerda branca

Fonte: Bruce Newman/The Oxford Eagle

Usar qualquer palavra que remeta a nossa raça de forma pejorativa não possuí outro nome

Acordei e fui me inteirar das notícias. Nas redes sociais muita gente falando sobre “Black Friday”, a queda do Geddel do primeiro escalão do governo golpista de Temer e um residual bem pequeno sobre violência contra mulher. Ora, hoje é dia 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência Contra Mulher, e  os dois principais focos de discussão política acabam por resvalar na invisibilização do machismo e do racismo. Sim, é sempre difícil sermos as pessoas chatas que sempre lembram da morfologia da classe trabalhadora e o que realmente é pensar disputa de poder em períodos de golpe.

Com a crise política instaurada junto ao governo Temer a esquerda branca começa a falar em “Black Friday” do golpismo numa tentativa de dialogar com o dia de grandes descontos em lojas, livrarias e afins. A questão é que essa forma de se referir ao, talvez, início do colapso do governo Temer é uma forma racista de se referir. Ainda mais quando pensamos em um país que o 5º país com a maior taxa de feminicídios no mundo. Segundo o Mapa da Violência de 2015, em 10 anos houve um aumento de 54% da morte de mulheres negras em contraposição a uma diminuição da morte de mulheres brancas.

Não é a primeira vez que a esquerda branca utiliza de termos racistas para caracterizar momentos políticos de disputa com a direita golpista e fascista. Há menos de uma semana, quando fascistas ocuparam a Câmara dos Deputados pedindo intervenção militar no Brasil, um renomado intelectual chegou a escrever que vivíamos um capítulo “negro” da nossa história. Usar designações sobre a nossa raça para falar de questões denebrosas e de forma negativa apenas reforça a narrativa do racismo institucional que existe no Brasil há séculos e em nada ajuda na luta contra o golpe e no processo de reorganização da esquerda. Apenas capitula a direita.

Sim, para mim a esquerda branca que não consegue perceber a necessidade estratégica do debate anticapitalista ser bem articulado com o debate antirracista e antimachista apenas capitula a direita. Abrem espaço para aqueles que torcem pela morte da juventude negra na mão da polícia militar, ou ignora as milhares de mortes de mulheres negras ao retirar importância das políticas públicas para mulheres.

“Ah! Vocês e o politicamente correto”, não há nada de politicamente correto em se discutir o que realmente afeta a luta contra o golpe de forma estrutural, pensando efetivamente o que vem atingindo de forma cotidiana a vida da maioria da população brasileira. A negritude é cerca de 53% da população brasileira e as mulheres 52%. Não é nada divertido ver brincadeiras racistas em um dia que lembramos todos os dados de morte de mulheres negras, lembramos mais uma vez daquelas que foram arrastadas, estupradas e assassinadas por conta da principal característica que envolve a violência contra mulher: a noção de que mulheres são propriedade. Característica que se aprofunda quando falamos de mulheres negras e indígenas que foram escravizadas e desumanizadas pela aristocracia branca brasileira.

Alguns mecanismos que atuam para a perpetuação da violência até o desfecho fatal repetem-se em muitos casos, configurando assim o status de mortes ‘anunciadas’: a tolerância social às diversas formas de violência contra as mulheres, a insuficiência dos serviços públicos de atendimento, segurança e justiça, a negligência de profissionais que atuam nesses serviços, a impunidade e até proteção de autores de violências por meio da culpabilização da mulher pela violência sofrida. (Como evitar ‘mortes anunciadas’? Dossiê Feminicídio)

Como já falei em um outro momento, ou lembremos de ensinamentos importantes de pensadores da esquerda brasileira e mundial que entenderam o que significa a garantia da luta contra o machismo e racismo para a emancipação da classe trabalhadora, ou apenas continuaremos a fazer o mesmo velho jogo republicano que alija da vida pública, política e da garantia de direitos mais de metade da população brasileiro.

2016 vem nos deixando um grande ensinamento e este é que não dá mais para secundarizarmos e invisibilizarmos o debate de gênero e de raça em nossa discussão política de enfrentamento ao golpe.