No carnaval, de que lado samba Dória Jr? No das mulheres é que não é

Fonte: Arquivo pessoal

Arte postada em redes sociais da prefeitura de SP reacende o debate de se combater assédio sexual

São Paulo já está em clima de pré-carnaval faz alguns dias. Sim, a terra da garoa tem carnaval e é bem movimentado e bacana, viu? E já temos diversos problemas com a gestão da prefeitura de SP durante esse período, dificuldade na gestão de dispersão dos blocos e do tráfego nas regiões com maior concentração de foliões, problema para garantir a limpeza das ruas e uma série de outras coisas.

O eixo de campanha durante o carnaval paulistano já havia sido definido. Seria #CarnavalSemAssedio, sem focar especificamente na questão do assédio e abuso sexual, mas uma campanha mais ampla. Debater a violência de forma ampla não é um problema em si, mas há questões estruturais que baseiam as coisas antes de chegar no tema mais geral. A questão do assédio sexual entre as mulheres é uma destas, sabe? Campanhas contra a violência sexual devem ser cotidianas e se intensificarem em momentos que o imaginário coletivo se amplia ao máximo do “ninguém é de ninguém”.  Não vamos esquecer de toda cultura do estupro que nos coloca como culpadas das violências que sofremos, pois mulher direita não fica bebendo no bloco de carnaval, não usa saia curta, não se dá ao desfrute nessas épocas, combater isso é fundamental. Segundo a ActionAid, 86% das brasileiras já foram assediadas em local público em nosso país, não é qualquer dado, assim como não é qualquer dado que 51% dos casos de estupro notificados no Brasil tem como vítimas pessoas negras e que em 10 anos a morte de mulheres negras aumentou 54%.

Levando em conta o peso que o debate de combate a violência contra mulher tem tomado no Brasil e no mundo, a Prefeitura de São Paulo deveria dar um recado bem nítido para a população que pula carnaval na cidade e aqui reside. O recado é de que assédio, violência e abuso sexual durante o carnaval são coisas inadmissíveis. Inclusive, fazer campanha divulgando todos os lugares que as mulheres podem recorrer caso sejam vítimas de assédios sexuais, boa parte desses aparelhos são da municipalidade e deveriam ter ampla divulgação – apesar de que, não é de hoje, tem um contingente profissional bem aquém do realmente necessário -, ainda mais no carnaval.

A tônica do combate ao assédio sexual contra as mulheres está colocada por blocos de carnavais em diversas cidades do país. Bom lembrar que o Brasil é o 5º país que mais mata no mundo, onde 35% dos casos de violência sexual não são notificados e uma mulher é violentada a cada 11 minutos.

Mas não, ao invés de apelar ao bom senso, a análise de dados e ao momento político em que se encontra o debate sobre violência contra mulher no Brasil e no mundo, João Dória Jr e sua equipe aprovam uma campanha sem pensá-la no todo e aí nos deparamos com coisas como o meme abaixo:

Fonte: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

A priori, o combate a brigas desnecessárias em blocos é algo que precisamos reforçar, mas o texto que acompanha a imagem fala de marcar as amigas e junto com o eixo geral da prefeitura de #CarnavalSemAssédio.

Ora, antes que venham falar sobre interpretação de texto, há anos os coletivos de mulheres e blocos feministas de carnaval utilizam a consigna #CarnavalSemAssédio para falar sobre a responsabilidade dos homens no combate ao assédio, onde recorrer caso sejamos vitimadas durante o período do carnaval. Então, se esse é o seu argumento pra justificar a campanha da prefeitura de São Paulo, volte 10 casinhas e vá pesquisar as milhares de campanhas falando sobre assédio sexual que usam essa hashtag.

A postagem feita na fanpage da prefeitura de São Paulo é de um profundo equívoco. Em todo contexto que temos do texto que acompanha a imagem, até as respostas que a comunicação da prefeitura tem dado a quem a critica demonstra a total falta de tato e relação com a pauta da violência contra as mulheres. Se contradizem, primeiro falam que a arte não é sobre assédio, mas sobre brigas… Mas com o guarda chuva de #CarnavalSemAssédio, a comunicação só fica uma grande maçaroca e passando uma péssima informação de: Mulher, para combater o assédio, não faça a Jéssica, deixa pra lá, cale-se!

Podem falar que é um problema ideológico ou político, mas quando atentamos aos números sobre violência contra mulheres no Brasil, quando verificamos a necessidade de não se calar perante os abusos e assédios sexuais, é perceptível o quanto a equipe de comunicação de João Dória Jr fez uma bagunça e por orgulho, só pode, não dá o braço a torcer sobre o quão misógino foi a construção da arte e da postagem nas redes sociais.

Carnaval sem assédio se faz com política pública que garanta as nossas vidas e não com campanhas equivocadas que só produzem retrocesso quando falamos de combate à violência contra mulheres.