Com qual personagem de ‘Dear white people’ tu mais te identifica?

Joelle Brooks é interpretada pela atriz Ashley Blaine Featherson (Foto: Divulgação)

Sam e Coco são mulheres fortes, admiráveis, mas quantas de nós não olhamos pro canto e nos sentimos a Joelle?

Havia escrito por aqui sobre os ataques que a Netflix sofreu quando lançou o teaser de “Dear white people”. Demorei a escrever sobre o que achei da série, com qual personagem mais me identifiquei, mesmo nas redes sociais quando amigas e amigos negros escreviam sobre suas impressões da primeira temporada. Creio que boa parte do que deveria ser dito do que é “Dear white people” em um mundo onde as séries são produzidas apenas para os brancos, o parco marketing que a Netflix fez para divulgar nacionalmente a série, bem diferentes com o que temos com Desventuras em Série, OINTB, House of Cards e afins. Resolvi sentar pra escrever um post sobre Joelle.

Sim, já se falou tanto da Sam e da Coco. Do processos delas para ocuparem os lugares que elas ocupam naquele dormitório e naquela universidade. Ambas caminhadas que o vivenciar o racismo cotidianamente pode nos levar a fazer. Mas sempre me vem Joelle na cabeça. Joelle é a melhor amiga, Joelle é apaixonada pelo boymagia que é apaixonado pela girlmagia, Joelle muitas vezes é cortada no meio das reuniões ao tentar dar uma opinião entre seus pares, Joelle não teve direito a uma história própria, apenas dar resposta ao que lhe era demandado, Joelle não tem um episódio para ela, enquanto Gabes tem.

De todas as personagens da série foi com a Joelle com quem eu mais me identifiquei. Quem me conhece pode achar esquisito, por uma série de outras características que eu possuo, mas a personagem que mais toca lá no fundo é a Joelle. Há muitas críticas sobre “Dear white people” por aí, o enredo construído em cima do já martelado arco narrativo escola+faculdade, violência policial ser abordada sem um de nós cair morto no meio da série, a intransigência ou complacência desta ou aquela personagem com algum fato da história.

A questão é que quantas vezes uma série, mesmo com arco narrativo clichê, foi produzida para atingir o público negro e alcançou muito sucesso dentro e fora dos EUA? Que tenha me marcado, apenas o “The Cosby Show”. “Dear white people” é uma série clichê sobre juventude que fala sobre nós, nossos sentimentos, contradições e tantas outras coisas. Mostra nossas trajetórias – nunca vi ninguém reclamar de nenhuma das contradições das garotas Gilmore ou das estudantes de “Gossip Girl”. Entendam, “Dear white people” é uma série para negros fora do BET. Uma série para negros que os brancos deveriam assistir, como duas amigas disseram durante uma conversa nas redes sociais. E é por isso que volto a Joelle.

Justin Siemen, criador de “Dear white people”, já afirmou que gostaria de explorar mais a personagem Joelle. Sim, falou também que a segunda temporada deve ter mais o gostosão Troy no centro da trama. Mas a afirmação de querer explorar mais a história de Joelle foi um alento, sabe? É como querer aprofundar a história de tantas de nós que nos vemos nela, de que não existe apenas o papel de ser suporte ou escudo desta ou daquela mana, mas que somos nós mesmas e muitas coisas quem cuida de nós somos nós mesmas.

É assim que eu sinto a Joelle, como parte de mim. Muitas vezes com opiniões passadas por cima por gente do mesmo lado e se forçando a se colocar no lugar compreensivo, pois estamos do mesmo lado. Vivemos coisas parecidas, mas penso comigo, e se fosse Joelle a assumir o programa na rádio comunitária? Teria o apoio que Sam possui? Ou se fosse ela a assumir o processo de mediação organizado pela reitoria?

Coco e Sam são mulheres muito fortes em seus papéis. Admiráveis, conheço várias delas na minha vida e as admiro muito. A força, a proatividade e tantas outras coisas. Mas quantas de nós não nos sentimos no lugar da Joelle? Pode parecer brincadeira, mas me sinto neste lugar sempre. Quase escondendo cada pedaço de sentimento e reflexão por que os outros entendem mais, aceitando atropelos de iguais a mim, porque meu papel ali é de apoio, suporte e não outro.

Há duas coisas que eu espero sobre a continuidade desta série:

1- Que a Netflix faça o devido marketing nacional para divulgar a 2ª temporada;

2- Que a Joelle tenha mais espaço que o Gabes daqui pra frente e não seja apenas um apoio pra Sam.