Exclusão racista e machista marcam XXII Feira Pan Amazônica do Livro

Escritoras negras e indígenas brasileiras

Mulheres pretas que escrevem querem e vão escrever. Não pediremos mais que nos permitam fazê-lo. Há uma mudança irrefreável em curso, tremei império da Casa Grande

A Paloma Franca Amorim* ocupa esse espaço essa semana para falar sobre bibliodiversidade e a programação da XXII Feira Pan Amazônica do Livro de 2018.

A XXII Feira Pan Amazônica do Livro deste ano segue tenebrosamente na contramão de outras feiras literárias nacionais e internacionais. Enquanto suas irmãs procuram investir em um caráter de bibliodiversidade e proporcionalidade étnica, racial e de gênero, a Pan Amazônica paraense permanece encastelada em princípios elitistas, machistas, racistas sobre a arte e a literatura.

Ano passado fui convidada para a Feira Literária Internacional de Paraty  junto aos escritores Evanilton Gonçalves, da Bahia, e Geovani Martins, do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, celebramos em debate minha trajetória como autora amazônida, evocando a importância de uma produção literária descentralizada. Para minha surpresa, a tendência da Feira Pan Amazônica do livro é oposta: a programação incorre em patéticos gestos internacionalizantes, hegemônicos, investindo nas mesmas autorias de homens de grandes editoras do sudeste.

À exceção de Geovani Martins todos os principais convidados são canônicos no mercado editorial. Aqui não estou questionando a qualidade literária de Hugo Mãe, de Loyola Brandão, de Hatoum – pois, vejam, nem pude ainda adentrar a discussão estética, gasto o meu tempo como escritora disputando os espaços que deveriam me integrar organicamente a partir do momento em que meu trabalho é avaliado como relevante no cenário literário paraense e brasileiro.

Onde estão as autoras na XXII Feira Pan Amazônica do Livro? Onde estão as autorias afroindígenas que resistem na Amazônia? A intelectualidade negra que tem pautado nos últimos anos os eventos literários nesse país? A voz das antologias literárias de pessoas transgênero?

Cartaz divulgado pela SECULT-PA para divulgar o circuito Sul e Sudeste da Feira Pan Amazônica do Livro – tirado do ar depois de protestos

Ao me deparar no início da semana com o cartaz do circuito sul e sudeste do Pará da feira, que ocorrerá em Marabá, tremi nas bases. Ali há uma trabalhadora negra carregando livros na cabeça em alusão às mulheres Palenqueras, símbolos da cultura colombiana (Colômbia é o país “homenageado”, mesmo sem a participação de intelectuais colombianos na programação principal), fiquei angustiada não porque essas mulheres não mereçam ser visibilizadas, mas porque quem entende o mínimo de história da América Latina sabe que foram condenadas pela colonização espanhola a trabalhos exploratórios como, por exemplo, vender frutas em bacias carregadas no topo da cabeça e seu sorriso e orgulho hoje são expressão de resistência e não resultantes de uma normalidade folclórica.

Ademais, por que a mulher carrega os livros na cabeça ao invés de os ler? O cartaz e a programação da XXII Feira Pan Amazônica ignoram os debates travados sobre os avanços políticos de democratização da leitura e da escrita nos meios historicamente subalternizados.

A nota de retratação da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Pará (SECULT/PA) publicada no dia de hoje, 20 de abril, nas redes sociais após uma série de denúncias de racismo e visão colonialista sobre as mulheres negras, é no mínimo constrangedora:

Os organizadores da 22ª. Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém, juntamente com os Salões do Livro da Região do Sul e Sudeste do Pará e do Baixo Amazonas, resolveram refazer a arte do cartaz utilizado para promover o evento.

O cartaz anterior buscava representar um dos símbolos culturais mais tradicionais da Colômbia, país homenageado: as Palenqueras, mulheres que podem ser vistas em diversos cenários do país, particularmente em Cartagena, cidade escolhida pela Unesco como patrimônio da humanidade. As palenqueras tradicionalmente usam roupas multicoloridas com bacias de frutas encimando as cabeças. A imagem também é comum em países da África e onde as raízes da cultura africana também possuem seus fortes traços,e mesmo no Brasil, onde a Bahia, por exemplo, tem como um dos seus ícones urbanos as vendedoras de acarajé e abará em seus tabuleiros ou ainda as tacacazeiras que se paramentavam para a venda numa Belém de outrora. Ao escolher uma dessas mulheres do cenário urbano da Colômbia, com seus trajes típicos, substituíram-se as frutas por livros, numa metáfora para divulgar uma feira… de livros.

No entanto, sem esta devida contextualização e apenas com a ativação do imaginário brasileiro, a imagem pode gerar diversas interpretações. E, assim, remeter à um passado que só deve ser lembrado para que não volte a ser jamais reproduzido, como os tempos da escravidão. Aliás, o respeito a todas as diversidades, incluindo a racial e de gênero, é uma das marcas da gestão do Governo do Estado, não apenas com campanhas educativas e de conscientização, mas especialmente com políticas públicas.

A própria Feira Pan-Amazônica do Livro, que possui mais de duas décadas de existência, tornou-se mais que um evento literário: é uma celebração humana, da diversidade e da riqueza da produção cultural de todos os povos, participando de suas edições, indistintamente, escritores, poetas, palestrantes e artistas de diferentes raças, gêneros e orientações. A celebração é da cultura, de todas as culturas. E, justamente por ter esse intuito e não tolerar qualquer vertente que não seja a do respeito, a organização optou por efetuar a devida troca da arte do cartaz, encontrando outra forma de referência, mantendo a justa e devida menção à Colômbia, país homenageado nesta edição e lamenta que a referida imagem tenha causado leituras diferentes do que pretendíamos, o que jamais foi o intuito, conforme devidamente esclarecido.

 

Além de responsabilizar o público por uma interpretação errônea do significado intencionado no cartaz, a organização da Feira mais uma vez se exime de responder ao público o porquê da ausência de um projeto de diversidade étnica/racial e de gênero no evento, além de não explicar a incursão repetitiva na projeção de grandes editoras do sudeste em detrimento do apoio aos editores, livreiros e escritores locais que a duras penas promovem por si mesmos circuitos de formação e de debate literários no Pará.

O movimento que se inicia nas redes sociais por razão de um cartaz colonialista deflagra a demanda urgente pela revisão do debate sobre a promoção cultural no estado do Pará, o repasse de verba pública para a cultura e a perpetuação da visão discriminatória das classes dominantes, a elite sociologicamente branca desse país, sobre os significados do exercício intelectual literário e artístico na capital e nos interiores paraenses.  A crítica ao cartaz é a porta de entrada para um processo de transformação política e social – tardio e necessário.

Mulheres pretas que escrevem querem e vão escrever. Não pediremos mais que nos permitam fazê-lo. Há uma mudança irrefreável em curso, tremei império da Casa Grande. Nossos passos vêm de longe. Isso não é uma ameaça (longe de mim, não me valho dessas armas), isso é uma promessa.

*Paloma Franca Amorim é escritora amazônida. Escreve às quartas-feiras para o jornal paraense O Liberal e é autora do livro de crônicas e contos Eu Preferia Ter Perdido Um Olho (Alameda Editorial, 2017)