#GreveGeral: Nossas vidas importam, então não deixemos que tentem nos matar de trabalhar mais uma vez

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Mulheres negras nunca pararam de trabalhar dentro e fora de casa

Acordei neste 15 de março no mesmo horário que sempre acordo para levar a minha filha na escola. Não teve aula hoje, dei um jeito de conseguir comprar um remédio pro meu pai, tudo muito travado. Organizar a minha vida neste dia de paralisação nacional contra a Reforma da Previdência do golpista Michel Temer foi bem complicada e difícil.

Consegui dar um jeito e organizei tudo. Organizei tudo para poder parar ativamente. Ir aos atos, mobilizações contra os ataques. Sabe por qual motivo? Por que minha filha de 8 anos só conseguirá se aposentar se começar a trabalhar este ano. Por que, como jornalista que é diretamente atacada pela famigerada “Emenda 3” de 2007, já não tenho perspectiva de me aposentar.

Fui junto com diversas mulheres do campo e da cidade, negras e brancas, todas trabalhadoras protestar junto a superintendência do INSS aqui em São PAULO contra essa atrocidade que querem fazer com as nossas vidas. E estarei no ato da tarde também, mesmo sem saber como voltar pra casa.

As mulheres negras nunca pararam de trabalhar. Boa parte de nós ocupam postos de trabalho muito precarizados, outra parte só conquistou direito a regulamentação da sua profissão em 2015 quando se decretou a PEC das domésticas, outra parte ainda luta por regulamentação de seus direitos, caso das trabalhadoras do sexo. A real é que com esse projeto pra acabar com a previdência pública que a direita golpista tem apoiado apenas vai nos colocar ainda mais no lugar que eles nunca quiseram que nós saíssemos: a marginalidade social, desumanidade e sem acesso a direitos básicos para sobrevivermos.

É por isso que mesmo sendo afetada em muito com a paralisação de diversas categorias eu apoio essa movimentação. Por que não afeta apenas a mim ou minha filha, afeta milhões de pessoas. A idade mínima que querem igualar entre homens e mulheres neste projeto é superior a expectativa de vida de milhões de mulheres do campo, periferia, negras e que dão duro dia após dia, seja no local de trabalho, seja dentro de casa.

A nossa força para pressionar contra esse projeto cruel, nefasto e, praticamente, assassino é parar as cidades, o país. Só assim aqueles que decidem as nossas vidas sem levar em conta nossas reais necessidades se incomodam, por que o povo na rua pra defender seus direitos e suas vidas incomoda a Casa Grande e incomoda muito.

No dia internacional de luta das mulheres, 8 de março, paramos o Brasil todo pra denunciar o quanto nossas vidas importam e isso passa pelo nosso tempo de trabalho e nossa expectativa de vida. Nossas vidas importam, importam tanto que queremos em nosso horizonte a possibilidade de não morrer trabalhando dentro e fora de casa. Não queremos ver direitos conquistados há tão pouco tempo escorrer em por nossas mãos numa caneta da, ou alguém acha que os racistas que foram contra a PEC das Domésticas não estão amando esse projeto que faz cair por terra anos e anos de luta de mulheres negras neste país?

É dia de parar, de ir pra rua, de dizer não ao fim da aposentadoria, ao aprofundamento da precarização da nossa vida, de sermos protagonistas -mais uma vez – da nossa história, resistência e luta.