Intervenção de Temer no Rio é mais uma demonstração da centralidade do racismo para o golpe

Fonte: Fotos Públicas/Marcos Corrêa/PR

Não é a primeira vez que o “caos” na segurança pública e a famigerada guerra às drogas são utilizadas para impor retrocesso e terror à população

Amanhecemos com a notícia que Temer irá autorizar intervenção militar na segurança carioca. Essa movimentação não é nenhum pouco simplória, mostra o alto grau de comprometimento do golpe que sofremos com o aprofundamento das políticas de extermínio, açoitamento e criminalização da população negra e pobre brasileira. Importante lembrar que não é a primeira vez que se utiliza um pretenso caos em segurança para se justificar uma intervenção militar. Para conter a crise penitenciária, Temer autorizou a utilização da Força Nacional Penitenciária em diversos estados, a gravidade disso passou ao largo de muitas das análises sobre os passos que se seguiram no pós-golpe pelo fato de afetar um setor ultra-marginalizado da população brasileira que são os negros e pobres encarcerados em nosso país.

Além disso, há um vasto caminho muito bem pavimentado para que essa decisão do governo Temer ganhe ainda mais força e antecipe outros capítulos do golpe que vivenciamos no Brasil. Somos o país que mais encarcera no mundo atualmente, o processo de extermínio da população negra tem atingido números cada vez mais alarmantes, a não compreensão de que o tema da segurança e do combate ao racismo andam de forma conjunta e são estratégicas são partes importantes dessa consolidação.

Há poucos dias, a internet se enchia com análises bem fracas sobre o que significava o desfile  da Paraíso do Tuiuti. Como não conheço muito de Carnaval, acabei por não falar muito. Mas com essa decisão de Temer o que vimos na Sapucaí ganha contornos ainda mais reais para além da denuncia do racismo estrutural que perpassa a constituição do Brasil há mais de 500 anos e nos trouxe até o momento atual.

Um momento em que o recrudescimento da segurança pública nos estados e penitenciárias é justificada por uma inexistente guerra às drogas, ou esquecemos que boa parte da base do governo golpista tem relações com o tráfico internacional e nunca são investigados quando os morros e as comunidades no Rio e resto do país sofrem com intervenções militares de tempos em tempos?

A intervenção que se anuncia nesse momento não é um precedente como parte da esquerda brasileira pode apresentar, não é um precedente por que os precedentes já ocorreram a cada momento em que se delegou ao Exército ou à Força Nacional a tarefa de conter algum “caos” de segurança pública seja em penitenciárias, seja nas ruas de qualquer outra cidade brasileira, ou esquecemos do quase um mês que a Rocinha ficou sitiada pelo exército em 2017? Esquecemos das UPPs instaladas ainda durante o governo Dilma sob o argumento de pacificação de regiões dominadas pelo tráfico?

“O Congresso Nacional tem 10 dias para aprovar a intervenção, e enquanto estiver valendo a intervenção nenhuma mudança na constituição pode ser feita, OU SEJA, a reforma da previdência fica congelada.

O pior é saber que para seguir com o plano de acabar com a previdência do Brasil, Temer e seus comparsas pensam em suspender a intervenção por um dia e depois voltar com ela. (Marielle Franco)

A cada novo capítulo do avanço do golpe urge que a esquerda branca brasileira se atente para como a centralidade da questão racial conjuntamente com a de classe tem nesse processo, inclusive para poder responder de forma mais contundente os processos de aprofundamento do extermínio da população negra e indígena que vemos acontecer no último período. A quem esteja lendo este texto, nunca foi tão necessário entender o processo de como se deu a composição da classe trabalhadora brasileira e a marginalização de um vasto setor dessa classe no processo de embranquecimento ocorrido no final do século XIX.

A intervenção que se dará no Rio de Janeiro é para assegurar um conjunto de coisas necessárias para a continuidade do golpe, assegurar a repressão contra os movimentos sociais combativos que tem se levantado com o desmonte daquele estado, aprofundar a guerra às drogas que é parte importante da movimentação da burguesia nacional e da base golpista de Temer, além de avançar o processo de genocídio da população negra.

Até quando seremos nós por nós?