#InvisibilidadeMata: Rayzza Ribeiro e a necessidade de unidade feminista pra enfrentar a violência

Fonte: Blogueiras Feministas

Esquecimento apenas fortalece a naturalização da violência e mais invisibilidade

Novembro negro. Mês de luta do movimento negro e também de lembrar da necessidade do combate à violência contra mulher.

Este mês o Instituto Patrícia Galvão lançou um Dossiê sobre Feminicídio organizando pesquisas sobre violência contra mulher e dados que foram levantados através de monitoramento de matérias relacionadas ao tema na mídia.

Debater o feminicídio e a violência contra mulher nunca foi tão urgente. Vivemos um processo de golpe no Brasil que tem profundas raízes na misoginia e no racismo e isso precisa ser entendido. No final de 2015, o Mapa da Violência havia apresentado o alarmante dado de que em um período de 10 anos a morte de mulheres negras havia aumentado mais de 50%, enquanto a morte de mulheres brancas diminuiu no mesmo período. Além do nosso país ser o 5º no ranking daqueles com maiores taxas de assassinatos femininos no mundo.

Um dos casos emblemáticos de como a mídia e a sociedade lidam de forma ruim quando o assassinato é de uma mulher é o da jovem de 21 anos Rayzza Ribeiro na região dos lagos em maio deste ano. A narrativa das poucas matérias na mídia burguesa nacional destacavam informações que jogavam a culpa para cima da jovem e em nada destacava o fato dela ter comentado durante uma festa no colégio estadual ocupado “Miguel Couto” que havia sido perseguida e sofrido uma tentativa de assalto naquele mesmo dia antes de chegar ao festival de rock da escola.

A semana em que Rayzza morreu, Daiana Borges de 34 anos foi esfaqueada pelo ex-noivo na região dos lagos e veio à tona o caso de C.P. que sofreu estupro coletivo organizado por 33 homens no Rio de Janeiro. Resgatar e lembrar hoje da morte de Rayzza, lembrar que ela possuia uma vida, que era negra e que o caso continua sem novidades depois de meses é fundamental para lembrarmos o quanto a invisibilidade e o não falar sobre misoginia, machismo e racismo matam as nossas cotidianamente.

Nas poucas notícias que saíram sobre o caso se aventa que o motivo do assassinato possa ser ou latrocínio ou vingança, ao lermos sobre como a jovem foi encontrada nos deparamos com um relato que lembram as mulheres torturadas pela inquisição por serem consideradas bruxas. A motivação é bem óbvia neste caso: crime de ódio. Por Rayzza ser uma mulher negra, engajada nas lutas dos secundaristas de sua região e, sobretudo, na luta contra o machismo e o sexismo. (Mais uma vítima do machismo no Brasil. Rayzza Ribeiro, presente!)

As investigações levaram a pelo menos um suspeito que foi morto a tiros em junho deste ano em São Pedro da Aldeia (RJ) e desde então nenhuma nova notícia, informação sobre o que levou o jovem que era suspeito neste caso a ser morto ou de outros suspeitos que estejam envolvidos na morte brutal de Rayzza.

Em tempos que avançam contra as poucas políticas públicas para mulheres e de combate a violência machista é imperativo que falemos sobre machismo, racismo e LGBTfobia a todos os momentos. Não são questões marginais em nossa sociedade, mas sim estruturais. Rayzza, assim como as outras duas vítimas de violência machista naquela mesma semana nunca foram culpadas e não devem ser esquecidas. Esquecimento apenas fortalece a naturalização da violência e mais invisibilidade.

É preciso cobrar não apenas sobre as investigações deste caso, e dos outros, mas também cobrar o poder público sobre investimentos que ajudem a prevenir tais mortes. E isto se faz de diversas formas, seja falando sobre machismo, racismo e todas as formas de violência para além da física nas escolas para desnaturalizarmos que mulheres são objetos e culpadas por suas violências. Investimento permanente em espaços multi-profissionais de acolhimento as vítimas que realmente acolham e não nos culpabilizem.

É preciso retirar forças do luto para lutar, cada vez mais. Ainda mais quando presenciamos em diversas esferas um processo por parte daqueles que apoiaram o golpe desestruturando o pouco de política pública para as mulheres que temos em diversos níveis do poder Executivo. É momento para enfrentarmos o machismo de cada dia com resistência, unidade e sem sectarismos. Nossas vidas dependem disso.