Crítica de Lula ao PSOL fala mais de Lula do que do PSOL

Fonte: Paulo Pinto/AGPT

O ex-presidente não é inocente e sabe o impacto que tem numa sociedade profundamente LGBTfóbica e machista sua fala

Refleti bastante sobre sentar para escrever abordando as críticas que Lula fez ao PSOL. O próprio título do post foi reflexão de uma companheira do Pará, até por que não tenho conseguido manter direito meus espaços de produção de conteúdo por uma série de motivos. Resolvi sentar e escrever sobre o tema para tentar abrir uma reflexão real sobre os caminhos da esquerda brasileira de forma respeitosa a todos os setores que fizeram parte da base de apoio aos governos Lula e Dilma, até por que o golpe aprofundou avanço de retrocesso pra cima de pautas que historicamente parte da base de apoio dos governos petistas e da oposição de esquerda a estes governos apresentam para disputar um mundo sem racismo, machismo e LGBTfobia.

14 de julho de 1979

O primeiro voto da minha vida foi para Lula em 2002. Minha primeira grande decepção foi com ele também, antes que venha algum engraçadinho achando que por aqui há alguma expectativa sulista. Ter uma perspectiva de projeto de sociedade diferente do que ele neste momento não significa em nada alguma defesa de “viva lava-jato” ou “Lula na cadeia” como alguns setores do PSOL vinham apresentando para a sociedade há algum tempo.

Há coisas feitas durante os 13 anos de governo do PT que modificaram de forma concreta a vida da classe trabalhadora brasileira, não sou negacionista. Mas também não há como negar que os pontos que o PSOL apresenta para não assumir uma política de “Lula 2018” não são uma “frescura”, existiram, são concretos e também tiveram impacto no processo de crescimento do conservadorismo no Brasil e na reorganização da direita golpista brasileira.

A primeira questão é sobre a palavra que Lula utiliza para criticar o PSOL. O ex-presidente não é inocente e sabe o impacto que tem numa sociedade profundamente LGBTfóbica e machista o que significa diminuir argumentos apresentados dizendo que são “frescuras”. Ele poderia se utilizar de qualquer outra palavra, poderia chamar o PSOL de ingênuo, inocente, iludido até poderia chamar de principista (confesso que se ele utilizasse essa última eu daria umas boas gargalhadas).  Mas não, Lula escolheu a palavra “frescura” para diminuir as críticas que o PSOL aponta para sobre os governos petistas e a própria base de apoio destes desde sua fundação.

“Meses depois, fomos informados de que, na mesma faculdade onde ocorrera o debate, um ativista guei (que gostava de se apresentar, provocadoramente, com o nome feminino de Taís e desfilar travestido pelas ruas de São Paulo) tinha sido atraído para um bosque nas vizinhanças e aí recebera uma sarra, que lhe custou um dente quebrado; enquanto os quatro militantes esquerdistas (seus conhecidos) acusavam-no de estar tentando dividir a luta do proletariado e o exortavam com “essa frescura de movimento homossexual”. (TREVISAN, João Silvério. Paraíso Perdido, Paraíso Reencontrado. In: Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.p.344-345)

No patamar que nós temos no momento atual eu, realmente, não acredito que tratar as posições daqueles que estão na luta contra o golpe, as retiradas de direitos e a escalada de violência que tem ocorrido no campo e na cidade em todo o Brasil seja uma tática adequada. Ainda mais de uma forma que não ajuda a confrontar o enraizamento da LGBTfobia em nosso país. Lula foi uma das principais lideranças da construção do que, na minha opinião, já foi o partido independente da classe: o PT. Por isso ele deveria ter mais cuidado em como caminhar numa seara sem tecer críticas que reforçam um senso comum capitaneado pela direita e não pelos setores que estão em luta contra Temer e suas reformas genocidas.

Para além disso, existe o debate de programa para a sociedade e neste é que residem as “frescuras” atríbuidas a Lula ao PSOL, eu poderia aqui lista diversos momentos dos governos petistas em que as “frescuras” não eram problemas menores, mas debates importantes sobre o que é central ou não para um programa societário para o Brasil, irei me ater a cinco que eu pessoalmente considero relevantes.

O primeiro tem relação com a origem do PSOL que nasce da luta contra a reforma da previdência de 2003, início do governo Lula, composto por setores que foram expulsos do PT por se oporem de forma radicalizada a aprovação da tal medida e de uma parte do PSTU que neste processo apostava no início da reorganização da esquerda brasileira.

Não apenas os setores que hoje estão no PSOL enfrentaram o então governo Lula nessa pauta, parte importante da própria base de apoio dele nos movimentos sociais o fizeram e fomos derrotados nessa seara. Não foi qualquer derrota, foi mais um passo para o desmonte da previdência pública, visto que o próprio FHC havia feito uma primeira e importante modificação no regime previdenciário ao igualar tempo de contribuição a tempo de serviço.

O segundo é o processo de conciliação com o PMDB, podem dizer que o PMDB abandonou o projeto do PT para dar o golpe, é um argumento válido, mas com pouco lastro quando observamos uma série de medidas implementadas por esta coalizão no país, sabe? A própria Katia Abreu lembrou para Caiado e Biaggi, durante a votação do impeachment no Senado, sobre os insumos e lucros que o agronegócio obteve durante os governos petistas. Esse segundo ponto cai, na minha opinião em um problema importantíssimo e delicado que é a demarcação de terras quilombolas e indígenas. FHC foi sabido, demarcou tudo aquilo que não fosse mexer de forma mais estrutural com o latifúndio, esse vespeiro ele deixou para seu sucessor e por conta desta característica das terras que esperam demarcação e da relação estabelecida com o agronegócio o direito de indígenas e quilombolas se paralisou. Se falamos em alternativa real ao golpe esta questão precisa ser bem pensada e projetos de coalizão com o setor que mais expropria indígenas, quilombolas e ribeirinhos e ajudou bem pouco na luta por terra no Brasil.

Não irei entrar no fato de Dilma ter incluído em seu programa eleitoral de 2010 a nacionalização das UPPs implementadas por Cabral no Rio, visto que em 2014 ela recuou e tirou esse ponto do seu programa. Mas não dá pra escapar de falar da “Lei Antiterrorismo”, instrumento criado no governo Dilma e que hoje é ferramenta importante usada pelos golpistas pra criminalizar a luta por democracia em nosso país. Além de ambos os governos terem dado seguimento ao processo de superencarceramento no Brasil que atinge principalmente a população negra. Inclusive, a direita brasileira segue no plano de superencarceramento, quando precisamos pensar um processo de segurança que não seja patrimonial e nem baseada na guerra às drogas. Esse é um importante debate a ser confrontado em uma plataforma política alternativa para o Brasil.

O quarto ponto foram os recuos do PNDH-3 em 2010. Resgato esse episódio por que ali, olhando agora com a devida distância, estava desenhado o que seriam as bancadas a apoiarem o golpe em nosso país e a tônica dos retrocessos galgadas não apenas na exploração capitalista, mas estruturalmente relacionada com o machismo, racismo e LGBTfobia. O recrudescimento conservador que vimos ser capitalizado por diferentes organizações da direitas e figuras públicas durante os últimos anos deu demonstração da sua real força ali naquele momento e o governo Lula cedeu a pressão.

Por último, mas não menos importante, está o fatídico leilão do  “Campo de Libra” em 2013. Momento em que o governo Dilma mobilizou o exército e a Força Nacional para garantir a execução do leilão e assim entregar uma parcela da exploração do petróleo brasileiro para o capital estrangeiro. Esse episódio juntou a oposição de esquerda ao governo Dilma e parcela da base de apoio do mesmo para confrontar o processo de leilão, inclusive apresentando a demanda sobre a abertura de um amplo debate nacional sobre o que deveria ser a exploração do pré-sal. Os movimentos sociais e centrais sindicais foram recebidas no Rio de Janeiro pelas forças repressivas do estado e a frente do local onde se realizou o leilão se transformou em uma praça de guerra.

Por que resgatei esses episódios? Por que assim como sabemos que sim as pessoas saíram da pobreza extrema durante os governos petistas, que aqueles que tem como principal demanda a sobrevivência tiveram garantia ao acesso a educação superior (mesmo que em universidades precarizadas) e tantas outras coisas que os ex-governistas apresentam como parte real do balanço do que foram seus governos, é importante encarar as críticas que o PSOL aponta aos governos.  As contradições existem e, na minha opinião, o processo que se abriu com o golpe é o de qual o programa realmente necessário que a esquerda deve apresentar como alternativa, não falo de programa eleitoral, falo de programa societário. Ainda temos muita estrada pela frente, não começou em 2013 e nem se encerrará em 2018. Mas haverá debates que teremos que encarar, sem tentar diminuir de forma torpe a posição política do outro. Com isso, só quem ganha é a direita e o golpismo.

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