4 de abril: não foi sobre Lula, foi sobre a incapacidade de se colocar no centro do debate o combate ao racismo

Fonte: Ponte Jornalismo

Neste mesmo dia rememoramos Luther King, Maya Angelou e Marielle Franco e o cotidiano genocídio da população negra no Brasil

Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal,
Porque eu rio como se eu tivesse
Minas de ouro no meu quintal.
Você pode me fuzilar com suas palavras,
E me cortar com o seu olhar
Você pode me matar com o seu ódio,
Mas assim, como o ar, eu vou me levantar (Still I Rise)

Tenho escrito menos do que eu gostaria. Muita coisa acontecendo e pouco tempo para conseguir colocar as ideias no lugar. Mas neste 4 de abril de 2018, não era no julgamento do habeas corpus de Lula no STF em que eu pensava. Há 50 anos morria Martin Luther King Jr.; Marguerite Annie Johnson, também conhecida Maya Angelou, faria 90 anos e há 3 semanas Marielle Franco foi executada nas ruas do Rio de Janeiro. Não é qualquer dia, não é qualquer momento. Vivemos a cada momento mais um capítulo do golpe iniciado em 2016. Um golpe que tenta massacrar aqueles que tem sonhos, que se levantam e não calam e perguntam “quantos mais precisam morrer para que essa guerra acabe?”

Assistia ao julgamento e ao mesmo tempo resgatava minhas leituras sobre Martin, Maya e Mari. E por que tentar falar sobre o julgamento do habeas corpus de Lula e a lembrança temporal de 3 importantes referências da luta antirracista e por direitos humanos? Por que no momento atual em que vivemos a ordem dos fatores altera sim a compreensão do momento político em que vivemos no Brasil e no mundo.

Não sei o que acontecerá agora. Os sonhos que lutamos tanto para conquista ao chegarmos no topo da montanha e vislumbrar a possibilidade da igualdade há décadas tem ruído. A cada momento que nos desdenharam, que se incomodaram com nossa presença, nos olhamos e nos levantamos, pois sabemos que cada um de nós é por que somos. Mas o que isso tem haver com o habeas corpus de Lula julgado no STF? Ora, tem tudo haver, primeiro por conta da narrativa que inverte os fatos do processo histórico do racismo no Brasil.

Martin, Maya e Mari lutavam por igualdade entre nós. Compreendendo o que significava a desigualdade racial para o lugar que nos era/é reservado na sociedade. Localizavam a defesa da vida para avançar nos questionamentos sobre a nossa sociedade tão desigual. Lutavam sabendo que mesmo no mais duro asfalto era possível brotar esperança.

Passaram a vida falando de como o sistema de discriminação racial não garantia os direitos humanos e a vivência plena das pessoas. Mari, em especial, questionava o processo de encarceramento em massa, guerras às drogas, intervenção militar no Rio de Janeiro e o genocídio da população negra, em especial juventude e mulheres. É disso que estou falando que para entendermos os acontecimentos atuais é preciso inverter a ordem de análise.

Sim, a vida ficou pior com o golpe. Com a intervenção militar, nem se fala. Mas o Brasil já vivia uma guerra aberta contra aqueles que há muito foram considerados inimigos internos do Estado brasileiro. A decisão contrária ao habeas corpus de Lula no STF é demonstração grande disso. Pelo menos, desde a redemocratização do país para cá nós, a esquerda, não demos a devida atenção estratégica do que é o significado dos processos de reformas da justiça criminal, o aumento do primitivismo e a fácil saída do superencarceramento. Não falarei do racismo, por que isso desde antes do golpe de 64 nunca foi efetivamente incorporado como parte fundamental da estratégia para a revolução brasileira.

Para justificar mais uma decisão arbitrária relembraram dados que nós pretos do movimento negro ou não já cansamos de repetir. Ao invés de se dar um passo a frente na agenda de desencarceramento, ou na desconstrução do mito de que a polícia prende e a justiça solta. Ao contrário, se prevaleceu o entendimento de que o mais do mesmo deve permanecer, não apenas por causa do peso político que Lula ainda tem. Mas, sobretudo, para não se abrir novos flancos para a pauta do desencarceramento do nosso povo avançar. Não estamos falando sobre Lula ou ser ou não preso, Lula ser ou não candidato. Estamos falando também de Lula, e como já disse a ordem dos fatores na análise política sobre o momento altera sim o que vemos como fundamental e estratégico de ser feito.

O caminho que nos trouxe até esse momento não foi o caminho em que se ordenava as coisas a serem combatidas observando o que é a composição real da estrutura de classes em nosso país e como o que era secundário para um setor significava o extermínio cotidiano para  maior parte da nossa população.  Estamos vivenciando o significado concreto do relegar a assunto secundário temas relativos ao racismo, segurança pública, justiça criminal e guerra às drogas em nosso país.

O golpe vai avançando, a nossa frágil democracia vai se fraturando cada dia mais. A cada momento que a fratura avança o setor social que mais sofre é a população negra, indígena, feminina e trabalhadora do nosso país. Não podemos nos enganar nem sobre os efeitos que as decisões das elites brasileiras significam para o grosso do país, mas também não podemos não deixar nítido que o caminho consolidado até esse momento em nenhum momento considerou a pauta completa do movimento negro  brasileiro.

Nunca foi tão necessário termos sonhos como Luther King, nos levantarmos como Maya Angelou e questionar como Marielle Franco. Que este 4 de abril não seja apenas de lembrarmos daqueles que se tornaram ancestrais, mas que inicie uma real movimentação pautando da abolição inconclusa em nosso país, pedindo justiça pra Marielle e Anderson e defendendo o direito de Lula ser candidato. Além disso, é o momento de apresentar alternativas que realmente organizem a disputa da política brasileira pelo que realmente apenas aprofunda o golpe no Brasil, ou seja, respostas políticas contundentes sobre o encarceramento em massa, guerra às drogas e genocídio da população negra para se responder de forma real ao avanço conservador e a escalada fascista em nosso país.