Pau D’Arco e Cracolândia: Violência racista cotidiana dá mais um passo a frente

Lilian Campelo/Brasil de Fato

Pará e São Paulo encontram seu ponto de convergência na truculência policial e interesses por terra

Nas últimas duas semanas tivemos dois acontecimentos brutais em nosso país que precisam de toda a nossa atenção. O primeiro foi em São Paulo, quando governos tucanos (estadual e municipal) entraram com toda força policial que tinham na Cracolândia. O segundo foi no mesmo dia da marcha à Brasília contra as reformas e pelas diretas já, quando 10 trabalhadores rurais paraenses foram massacrados pela polícia do governo estadual tucano.

E por qual motivo me desafiei a pensar os dois acontecimentos que parecem distintos em um mesmo texto? Ora, um foi no norte e outro no sudeste, um lida com questão de guerra às drogas e o outro com questão agrária, a priori realidades muito distintas. A questão é que a violência policial, criminalização da pobreza e movimentos sociais, faxina étnica e um tanto de outros elementos colocam essas duas brutais violências como parte da mesma realidade.

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Mas por que fazem parte da mesma realidade? Começamos pelo fato da região norte do país concentrar o maior número de negros e indígenas do Brasil. Só o Amazonas possuí, em termos absolutos, a maior população indígena do país e o norte junto com o nordeste é uma das regiões que mais concentra negro no Brasil, ambas regiões juntas somam 75% da população negra brasileira. Ou seja, quando falamos de um massacre ocorrido no norte ou nordeste do país falamos de um avanço no processo de genocídio da população negra e indígena que historicamente foi construído em nosso país. Além disso a guerra às drogas serve a faxina étnica e ao encarceramento em massa da população negra, indígena e pobre brasileira.

Em nosso país, segundo o Conselho Nacional de Justiça, um em cada 4 presos foram condenados por roubo ou tráfico de drogas. Há também o fato de que a região onde se encontra a Cracolândia é alvo do interesse da especulação imobiliária em São Paulo há muito tempo.

O Brasil é o sétimo país que mais mata no mundo, o quinto que mais encarcera e é líder no ranking dos países em que mais mortes em conflitos de terra. Pau D’Arco e Cracolândia encontram seu ponto de convergência na truculência policial, racismo e interesses por terra. Os dois acontecimentos ocorrerem durante uma semana importante para a política nacional e o processo de luta contra o golpe, reformas genocidas da previdência e trabalhista e por diretas já dão o tom mais sombrio ao processo que temos enfrentado.

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A mesma polícia que duramente reprimiu a grande marcha contra as reformas e por diretas já em Brasília é a mesma que assassinou 10 trabalhadores rurais em Pau D’Arco, interior do Pará, e atou com truculência na dispersão de usuários na Cracolândia. É pelo que significa o racismo estrutural em nosso país e a centralidade que ele toma dia após dia, junto com a luta de classes, que não podemos desconectar esses acontecimentos de uma leitura importante: nós, negros e indígenas, nunca paramos de morrer neste país e com o advento do golpe se aprofunda a dura política de repressão existente no Brasil, criminalização e assassinato que enfrentamos cotidianamente em diversas regiões do país.

Importante ressaltar que tanto o massacre de Pau D’Arco quanto a ação policial truculenta na Cracolândia remontam a episódios fatídicos da história nacional. É inevitável pensar no massacre de Eldorado dos Carajás em 1996 e a Operação Sufoco em 2012. Há anos há um remonte da estrutura de perseguição das nossas vidas, a posição que vemos hoje os governantes tomarem frente os episódios recentes mostram a tônica do recrudescimento da criminalização da pobreza e movimentos sociais aprofundados pelo advento do golpe. Para além disso, demonstra o quão é importante colocarmos na agenda do dia do combate ao golpe o debate racial de forma séria e comprometida com a dimensão que este tema possui frente a conjuntura nacional.

Enfrentamos sim a Casa Grande tomar as rédeas dos territórios e deixar nítido os recados necessários: não suportaremos qualquer afronta ao nosso direito hereditário sobre a propriedade, mesmo que isso signifique a vida e a saúde de vários, principalmente dos negros e indígenas.

É preciso colocarmos em nossa agenda de lutas contra o golpe o genocídio da população negra, a demarcação de terras indígenas e quilombolas, o fim da guerra às drogas, a reforma agrária, democratização da comunicação e o combate cotidiano ao feminicídio.

Pau D’Arco e a incursão na Cracolândia são mais um passo ao fechamento do regime político por aqui.

 

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