Feira Pan Amazônica do Livro: Organizadores apenas reafirmam racismo e machismo ao responder denúncias

Escritoras negras e indígenas brasileiras

Não é a primeira vez que um evento literário enfrenta críticas por conta de curadoria de programação. Em 2016, houve grande pressão dos movimentos sociais em cima da FLIP

Semana retrasada, publiquei aqui no blog artigo da Paloma Franca Amorim criticando a curadoria da 22ª Feira Pan Amazônica do Livro a partir de um elemento muito importante: a ausência de bibliodiversidade no evento. A polêmica em torno do evento tomou corpo, um corpo e visibilidade nacional que não me lembro de ter visto antes envolvendo a Feira. O tema ganhou as páginas da Folha de São Paulo e deu destaque à infeliz afirmação do secretário de cultura do Pará, Paulo Chaves, chamando as críticas de “preconceito inverso”. Não podemos também deixar passar as afirmações feitas pelo representante da Associação Nacional de Livrarias, Robério da Silva, afirmando que Paloma “não conhecia a região norte”. Além disso dá para encontrar alguns textos no blog do Lúcio Flávio Pinto falando sobre a discussão que hoje envolve a 22ª Feira Pan Amazônica do Livro nacionalmente.

Não é a primeira vez que um evento literário enfrenta críticas por conta de curadoria de programação. Em 2016, houve grande pressão dos movimentos sociais em cima da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) pelas mesmas questões que hoje Paloma aponta na Feira Pan Amazônica do livro, com uma brutal diferença: estamos falando de uma feira literária no norte do país, região historicamente invisibilizada e estigmatizada no Brasil, e não do principal evento literário brasileiro. Djamila Ribeiro, Giovana Xavier e Juliana Borges, em 2016, foram ponta de lança importante para a organização dos questionamentos junto à FLIP e isso rendeu frutos. Rendeu uma FLIP, em 2017, homenageando Lima Barreto, com paridade de mulheres escritoras e 30% de escritores negros na programação – destaco aqui que Paloma Franca Amorim estava entre as escritoras convidadas para o evento.

Levando em conta que falamos da Feira Pan Amazônica do Livro e não da FLIP, a argumentação feita pela escritora carrega consigo uma outra dimensão importante: as críticas feitas à curadoria e ao lamentável cartaz do Salão do Livro da Região Sul e Sudeste do Pará colocaram a 22ª Feira Pan Amazônica do Livro em debate no cenário nacional, coisa que não me recordo ter acontecido antes devido ao alto grau de invisibilidade que atinge a nossa região. Dar visibilidade nacional de que existe evento e produção literária no norte do país é um mérito importante a ser levado em conta e que os organizadores da 22ª Feira Pan Amazônica do Livro se esforçam, de forma bem chinfrim, em não ver.

Óbvio que Paulo Chaves e Robério da Silva, ao invés de acolherem as críticas para melhorarem o evento, partem para argumentações péssimas, ao lê-las me deu vontade de dar uma grande e solta gargalhada. Começo com Paulo, pelo fato de que vasta produção acadêmica no Brasil já refutou a teoria de “preconceito reverso”. Fora o fato de que cotidianamente as notícias de jornal e os dados sobre violência e desigualdade de direitos refutam a tese de “democracia racial” cunhado por Gilberto Freyre, além do mais o argumento para defender o vexatório cartaz do Salão do Livro da Região Sul e Sudeste do Pará nada mais é do que apropriação cultural, debate que tem ganhado corpo cada vez maior no Brasil e no mundo.

Me espanta o secretario de cultura do Pará, reconhecido pela erudição e elitismo, não ter o mínimo cuidado de não cair na cantilena da apropriação cultural ao defender o indefensável. Falar sobre bibliodiversidade, política pública para acesso à literatura e formação de novos leitores e público não deveria ser tratado de forma tão leviana em um país onde a PNAD Contínua de 2016 do IBGE revelou que a taxa de analfabetismo para pessoas negras é de 9,9%, enquanto para pessoas brancas é de 4,2%. Se avaliamos os dados de analfabetismo em nosso estado, as afirmações do secretário pioram ainda mais, pois o Pará possui uma taxa de analfabetismo de 9,3%, bem acima da média nacional que é de 7,2%.

Agora, a postura de Robério da Silva não tem base empírica ou acadêmica alguma. É apenas machista e racista ao recorrer o seu lugar de “homem de bem” que não precisa se respaldar em pesquisas, dados ou experiência. Na mesma coletiva de imprensa onde ele afirma que Paloma não conhece a região Norte, apresenta os motivos do porquê o cartaz do Salão do Livro realizado em Marabá não fazia sentido algum pra além de uma reprodução do senso comum racista e machista no país e refutando sem notar a já péssima resposta de Paulo Chaves sobre a polêmica. Robério afirma que a Feira Pan Amazônica do Livro é conhecida nacionalmente, porém ele mesmo reconheceu na tal entrevista coletiva que o governo paraense não conseguiu garantir junto ao governo colombiano nenhuma delegação de artistas e escritores daquele país para acompanhar o evento. Além disso, os cadernos sudestinos de cultura – como já falei – só deram bola para o evento que acontece agora em maio por conta da polêmica que envolveu a programação e o tal cartaz.

Além do mais, Robério deveria no mínimo organizar uma pesquisa mais minuciosa antes de fazer ataques à escritora que iniciou as denuncias sobre a 22ª Feira Pan Amazônica do Livro. Saberia assim que Paloma ganhou em 2002 o Concurso de Redação do Círio de Nazaré quando ainda era estudante secundarista, também veria que ainda adolescente foi responsável por escrever algumas dramaturgias oriundas das oficinas da ETDUFPA (Escola de Teatro e Dança da UFPA) e teria levantado toda a produção de crônicas que ela desenvolveu para “O Liberal”, contando inclusive com crônica de João Carlos Pereira saudando a qualidade da escrita de Paloma no diário paraense.

A questão para mim é básica: Paloma colocou no cenário nacional uma contradição paraense que não gostamos de ver exposta. Contradição essa que a tradicional família paraense alimenta ao se aproveitar da invisibilização promovida pelo eixo Centro-Sul do Brasil para com a nossa região. Sim, a tradicional família paraense alimenta essa invisibilidade para não ampliar o espaço e quebrar de vez um elitismo do período da Belle Epóque e dos áureos tempos da borracha. É disso que estamos falando, é por isso que há discrepância de pagamento aos convidados para a Feira Pan Amazônica do Livro, é por isso que Paulo e Robério estão incomodados com a repercussão que há sobre a polêmica envolvendo a programação. Estão incomodados porque uma mulher, negra, amazônida, lésbica, paraense e – principalmente – ótima escritora decidiu falar sobre o absurdo de um evento literário que se diz Pan Amazônico ser tão pouco amazônico, levando ao conjunto do público sudestino e de outras regiões brasileiras que há uma Feira Pan Amazônica do Livro e que existem maravilhosos escritores paraenses contemporâneos que não possuem espaço na sua próxima região por conta de interesses econômicos.

A questão é que Paulo e Robério querem taxar Paloma como alguém sozinha no cenário quando não é. Paloma reflete uma das mais importantes filosofias africanas ao expor as contradições do tucanato paraense na Feira Pan Amazônica do Livro: Ubuntu. Ela só é por que nós somos e nós só somos por que ela é. Mais uma vez Paulo Chaves se encastela no seu eruditismo tacanho e sem lastro social algum e o tucanato só demonstra o quanto sua política para todos os campos do Pará é o de garantir e aprofundar a invisibilização promovida pelo eixo Centro-Sul brasileiro. Fazem isso no campo da cultura, fazem isso quando falamos de segurança pública e o fato do governo ter matado 32 pessoas que estavam sob sua custódia em Santa Isabel, fazem isso dia após dia ao não ouvirem os paraenses que residem dentro e fora deste tão amado estado.

Tenho esperança, esperança de que a luta muda as coisas e que assim como toda a movimentação feita em 2016 sobre a FLIP e que resultou em 2017 em uma Festa Literária muito mais diversa, nós consigamos ter uma Feira Pan Amazônica do Livro mais amazônica e cheia de bibliodiversidade.