Sobre Fernando Holiday: entre a esquerda e a direita, sou uma preta de esquerda!

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O vereador é conhecido por ter como principal agenda os ataques ao movimento negro e negação do racismo

Fernando Holiday foi foco após documentos e relatos sobre uso de caixa 2 durante sua campanha à vereança de São Paulo serem divulgados pela imprensa. Demorei muito para tecer qualquer comentário sobre o caso e o parlamentar em questão, pois o debate colocado é de uma profundidade muito maior sobre se Holiday sofreu racismo e homofobia ou não. Ele é um rapaz preto, pobre e gay, portanto sofre sim preconceito, porém precisamos olhar qual papel o parlamentar aceitou protagonizar nos últimos anos para ajudar a direita e a Casa Grande brasileira a atacar lutas históricas do movimento negro do país.

É bom lembrar que Holiday entrou para o MBL após divulgar vídeo atacando a política de reparação histórica para entrada da negritude no ensino superior brasileiro. Holiday vem se fazendo como figura pública na política brasileira vocalizando o projeto racista da direita e dos golpistas, foi à Câmara de Deputados vociferar contra o dia da Consciência Negra e a luta do movimento negro brasileiro contra a falácia da democracia racial em nosso país. Localizar isso é importante pra entendermos qual papel o parlamentar assume na luta contra as demandas raciais no país.

Me pergunto: onde estão os aliados de bancada de Holiday defendendo-o de tais ataques e denuncias? Silêncio. Silêncio porque Holiday achou que poderia fazer a mesma coisa que a Casa Grande brasileira faz na política há décadas e ele não pode, e sabe por que não pode? Porque Holiday é preto e só serve a este projeto para poder destruir tudo o que foi conquistado de enfrentamento ao racismo no Brasil pelo movimento negro. Tanto que uma das suas principais políticas na Câmara de Vereadores é o de acabar com o feriado do Dia da Consciência Negra em nossa cidade, ataque direto ao processo que o movimento negro sempre apresenta que tomar consciência da negritude é uma das principais ferramentas para enfrentarmos o mito da democracia racial que ignora as profundas diferenças estruturais que existem na sociedade entre brancos e negros.

Detalhe que no dia 15 de março o vereador apresentou no plenário da Câmara de Vereadores projeto de lei que institui na cidade o Dia do Nascituro, logo ele que diz que projetos de lei que versam sobre datas comemorativas, mudanças de nomes de vias e escolas são inúteis.

Holiday achou que poderia usufruir de tudo que a Casa Grande sempre fez, tanto que sempre falou que falar de racismo e homofobia era política vitimista, porém ele não pode. É esse o debate, é aprofundar pra além da questão da representatividade e aqui em São Paulo nos devemos isso desde a gestão Celso Pitta. Assim como acredito que a luta antirracista, feminista e antiLGBTfóbica faz parte de um projeto de sociedade que não é o capitalista e precisamos forçar ocupação de lugares de formulação política para pensarmos o que significa a composição da classe trabalhadora no Brasil e os efeitos que os ataques das Reformas da Previdência e Trabalhista, o debate da demarcação de terras tem em cima de nós negros e indígenas brasileiros, precisamos encarar qual o papel que a negritude de direita representa na disputa política que fazemos contra o Estado que mata preto todo dia.

Importante lembrar que Fernando Holiday se elegeu com votos da branquitude paulistana. Aquela mesma que diz, como ele, que racismo não existe e esse debate é apenas vitimismo. Cabe ao movimento negro entender o processo que agora se abre com a falta de apoio que vem se demonstrando por parte da Casa Grande ao Holiday, mas não sair em sua defesa, pois o parlamentar é um dos peões do projeto que visa acabar conosco e ele sabe disso e assume essa tarefa de forma consciente.

Não cabe mais ignorar Fernando Holiday, cabe nos organizarmos para debater as entranhas do racismo no Brasil e enfrentarmos esse debate com a direita como um todo. Inclusive com Fernando Holiday, que hoje se deixa usar de bode expiatório dos racistas, fomentando a desorganização de um processo político importantíssimo para o combate ao racismo e para a emancipação de negros e indígenas neste país. Debater o racismo no Brasil faz parte de debater um projeto societário que pense de forma estrutural o como negros e indígenas foram brutalmente marginalizados e ainda continuam a morrer nas mãos da Casa Grande defendida por este parlamentar.

Por fim, Holiday deveria confrontar os brancos que votaram nele e que são seus aliados de bancada na Câmara Municipal de São Paulo, seja sobre o debate de caixa 2, seja pelo tema dos super-salários que está em debate na casa, e não utilizar de forma casuística um discurso que ele repele desde o início da sua vida pública.