No discurso de Temer na ONU cabe tudo, mas e na resistência ao golpe?

Fonte: Fotos Públicas/Beto Barata/PR

A cada declaração, silenciamento ou passo que o presidente dá fica nítido o quanto o golpe é machista, racista e LGBTfóbico

Temer fez nesta terça-feira (19/09) seu discurso de abertura da 72ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Falou de uma série de pontos importantes, mas um tanto contraditórios quando observamos atentamente o governo do golpista. Afirmou que as reformas genocidas apresentadas pelo seu desgoverno fazem o Brasil ser um país aberto para o mundo. Me pergunto a qual mundo ele se refere, pois as reformas tão laureadas por Temer é quase uma suspensão da Lei dos Sexagenários para a população negra brasileira.

O que mais chamou atenção foi o compromisso que Temer disse ter com a Amazônia, não me deterei sobre o tema, pois Sônia Guajajara já explicou muito bem durante vários momentos da última semana o que significa o projeto golpista para com as populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas e com o ecossistema brasileiro. Há uma passagem do discurso de Temer na ONU que me chamou a atenção:

O Brasil é um país de liberdades arraigadas, que se fez, e ainda se faz, na diversidade. Diversidade de etnia, de cultura, de credo, de pensamento. Mais que tudo, é dessa diversidade que tiramos nossa força como nação. Rechaçamos o racismo, a xenofobia e todas as formas de discriminação“.

Vamos lá. Segundo a ONU: “os direitos humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre e muitos outros. Todos merecem estes direitos, sem discriminação“.

Neste um ano do golpe que colocou no poder Michel Temer nós já tivemos um corte de 61% de verbas federais para programas de enfrentamento a violência contra mulher. Bom lembrar que o Brasil é o 5º país mais violento para mulheres no mundo. Entre 2003 e 2013 foi registrado um aumento de 54% da morte de mulheres negras. Ao fazer estes cortes no início de 2017 Temer sinaliza que o problema da garantia da vida das mulheres mortas em decorrência da violência machista não é um problema do governo brasileiro, mas algo que deve ser resolvido de forma individual, sem acolhimento multidisciplinar, acompanhamento e enfrentamento real ao problema. Se o golpe já demonstrava nitidamente suas facetas machistas e racistas, com esta movimentação de Temer no começo do ano o machismo e racismo foram deliberadamente escancarados.

Só em 2016 houveram 3.526 casos de estupros coletivos no país, um a cada duas horas e meia. A situação é periclitante e a resposta dada por parte do governo federal é aquele belo e sonoro: CRICRICRI.

A outra situação alarmante que vivemos no país é o encarceramento em massa. O Brasil ocupa o 4º lugar no ranking dos países que mais encarceram no mundo, ficamos atrás apenas de EUA, China e Rússia. Além disso no Mapa do Encarceramento de 2016 há diferença entre o número de encarcerados brancos dos negros.

“Em 2012, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos acima de 18 anos havia 191 brancos encarcerados, enquanto para cada grupo de 100 mil habitantes negros acima de 18 anos havia 292 negros encarcerados, ou seja, proporcionalmente o encarceramento de negros foi 1,5 vez maior do que o de brancos em 2012”.

A política de encarceramento em massa no Brasil cresce conjuntamente a política de genocídio da população negra brasileira. A cada 23 minutos um jovem negro é morto no país, esse dado foi apresentado em 2016 pela CPI do Senado sobre Assassinato de Jovens. De um lado o racismo e o capitalismo encarceram de forma desenfreada e doutro matam a população negra e pobre brasileira. Não há uma menção sobre isso por parte do governo golpista. A resposta foi colocar no Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes, ex-secretario de justiça de São Paulo, um dos estados que mais mata e encarcera a população negra brasileira.

Uma coisa é falar de dados que remontam uma realidade anterior ao golpe, outra coisa é vermos as movimentações legislativas acontecidas no último período às sombras do importante debate da Reforma Política. Tentam avançar com a retirada do direito ao aborto legal no Brasil na Câmara Federal e no Senado recolocam em pauta o tema da redução da maioridade penal. Temas polêmicos e que sabemos que historicamente são usados como moeda de troca junto as bancadas conservadoras (boi, bíblia, bala e bancos) para se aprovar medidas de achaque a população brasileira. Temer fala na ONU de diversidade e direitos humanos, mas se faz se cego, surdo e mudo sobre os temas no Brasil para garantir sua base de governo e assim barrar a segunda denúncia sobre corrupção que a PGR (Procuradoria-Geral da República) apresentada na última semana e garantir o curso do golpe. Não precisamos nem esperar para ver o silêncio sepulcral do governo golpista sobre a decisão tomada na justiça do Distrito Federal tornando legalmente possível a prática da “cura gay” em nosso país.

A cada passo, cada declaração ou cada silêncio que Temer dá é nítida a relação do projeto entrelaçado de exploração de classe, raça e gênero. O discurso proferido por ele nesta terça na ONU e a realidade de como se encaminham as coisas no Brasil demonstram exatamente isso: o quanto temas relacionados ao meio-ambiente, raça e gênero são profundamente descartáveis e só servem para fazer uma presença bonitinha na frente dos outros.

Mas tudo isso sobre Temer nós já sabemos há muito tempo. O que espanta é a demora por boa parte da oposição ao governo tratar estas questões com a urgência e centralidade que elas precisam ter no enfrentamento ao golpe. No discurso de Michel Temer cabe qualquer coisa, daria para colocar até uma receita de bolo ali no meio que não faria diferença alguma pros atos que ele e seus aliados comente dia após dia no Brasil.

2018 é ano eleitoral, diz a lenda. Em diversos lugares pipocam as necessidades de se debater programa e as tarefas necessárias para o Brasil enfrentar. Nós sabemos onde o debate de meio-ambiente, mulheres, negritude, indígenas, LGBTs e direitos humanos em geral estão localizados para a direita golpista, a pergunta que fica é: nós que estamos em luta contra Temer e seus aliados sabemos qual o lugar que estas questões tem em um programa para realmente enfrentar o golpe?