Em ano de retrocessos no combate a violência contra mulher, reeditamos a Primavera Feminista

Fonte: Jornalistas Livres

Governo Temer diminuiu 61% de investimento nas políticas públicas de enfrentamento a violência doméstica e zerou investimentos de combate a LGBTfobia

Mais um 25 de novembro. Para quem não sabe, este é o dia internacional de combate a violência contra mulher. A data remonta ao 25 de novembro de 1960 quando as irmãs Pátria, Minerva e Maria Teresa Mirabal foram assassinadas brutalmente pela ditadura na República Dominicana. As três eram conhecidas como “Las Mariposas” e faziam parte da resistência contra o regime comandado pelo ditador Leônidas Trujillo e no Primeiro Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho de 1981, realizado em Bogotá, Colômbia, a data do assassinato das irmãs foi proposta pelas feministas para ser o dia Latino-Americano e Caribenho de luta contra a violência à mulher.

2017 tem sido um duro ano para nós mulheres e o combate a violência machista que a cada 2 segundos atinge uma brasileira. Em nosso país a cada dia 12 mulheres morrem e 135 são vítimas de estupros, a motivação para tanta violência? Machismo, racismo e LBTfobia. Estamos terminando um ano em que os investimentos em políticas públicas para o enfrentamento a violência contra mulher foi cortado em 61% pelo governo de Michel Temer, não houve investimento em políticas de enfrentamento da LGBTfobia e os números de violência subiram. No primeiro semestre do ano, só na capital paulistana houve aumento de registro de Boletins de Ocorrência sobre violência contra mulheres em 22,3%. Isso por que não contabilizamos no Brasil a violência contra mulheres trans e travestis como parte do totalizante dos números da violência contra mulher, fruto da transfobia estrutural que precisamos encarar quando falamos de violência machista no Brasil.

Em pesquisa realizada pela ONU mulheres junto com a Universidade Federal do Ceará (UFC) sobre violência contra mulheres no nordeste brasileiro lançada nesta semana se apontou que 17% de mulheres residentes em capitais nordestinas sofreu violência física pelo menos uma vez na vida. Além disso, mulheres em situação de violência acabam duram 21% menos em empregos, dificultando assim a quebra do ciclo de violência e a independência econômica. Este dado demonstra o quanto a questão do machismo não é apenas um problema da pauta feminista, mas uma questão importante para podermos entender o mundo do trabalho brasileiro.

Comemoramos 11 anos da Lei Maria da Penha e o que observamos no pós-golpe é o desmonte dos poucos serviços que estabelecidos no país para o enfrentamento a violência contra mulher. A direita conservadora e os golpistas conseguiram se opor a toda opinião pública nacional e internacional que existe sobre políticas contra a violência machista enterrando as poucas conquistas no enfrentamento desse tipo de violência no país.

Para além dos retrocessos do pós-golpe que precisam ser denunciados a cada momento. Neste 25 de novembro é fundamental relembrarmos que a violência contra as mulheres brasileiras não é apenas machista, mas racista e LBTfóbica também. O maior número de mulheres mortas em nosso país são negras, assim como os casos de estupro corretivo enfrentado por mulheres lésbicas e bissexuais e o fato do Brasil ser o país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo. Chegou o momento de encararmos de vez todas as características estruturantes da violência que atinge a nós mulheres cotidianamente. O cenário de violência machista brasileiro é uma das faces mais aterradoras do genocídio da população negra no país.

Não daria para escrever sobre o 25 de novembro de 2017 sem falar de ataques aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres promovido pela PEC 181. Em um país que a cada dia 135 estupros são praticados por dia a tentativa da bancada fundamentalista, juntamente com a bancada da bala, bancos e boi, em criminalizar as formas de aborto legalizados no Brasil é uma nítida declaração de morte as mulheres brasileiras e apresentar uma posição de que não importa para a maioria que exerce o poder no Brasil o aprofundamento da violência contra nós.

O cenário é difícil, mas é importante resgatarmos o que foi a Primavera Feminista e a Marcha Nacional das Mulheres Negras em 2015 que inauguraram um importante processo de resistência cotidiana a retirada de direitos e retrocessos políticos. Não saímos das ruas desde então e se de um lado a direita conservadora machista e racista se fortaleceram e protagonizam os ataques, nós também nos fortalecemos dia após dia nas ruas confrontando o fundamentalismo e destacando que para enfrentar o golpe é necessário enfrentar o recrudescimento conservador e colocar na estratégia o combate ao machismo, racismo e LGBTfobia.

Neste dia 25 de novembro, continuamos nas ruas contra o machismo, o racismo e o golpe e dela não saíremos!