A Índia precisa crescer. Mas como fazer isso sem destruir o ambiente no planeta?

Foto: Technology Review
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A população indiana saltará dos atuais 1,2 bilhões de pessoas para 1,5 bilhões até 2030. Desses, cerca de 20% vivem em condições de extrema pobreza. Para tirar essa fatia da população de condições extremas, o governo indiano precisa fazer com que a economia mantenha a taxa de crescimento em 7% durante a próxima década – isso significa dobrar o PIB indiano nos próximos 10 anos.

Para além da questão se a economia do país conseguirá manter esse ritmo de crescimento econômico, há outra dúvida importante: como o subcontinente indiano conseguirá cumprir essa tarefa sem destruir o ambiente no planeta? Os ambientalistas temem a repetição do fenômeno ocorrido com outro BRIC, a China. Os chineses fizeram o PIB saltar de USS 1 trilhão em 1998 para US$ 15 trilhões em 2015, tornando a China um país de classe média. No entanto, o impacto ambiental foi enorme, fazendo os bancos chineses levarem as externalidades  ambientais em suas análises de investimento.

Já para 2020, a Índia planeja cortar 25% das suas emissões de carbono, conforme o plano a ser apresentado pelo premiê indiano Narendra Modi na COP 21, conferência do clima das Nações Unidas, a ser realizada em Paris em dezembro de 2015. A Índia responde por 6% das emissões de gases-estufa atualmente, mas irá aumentar essas emissões caso consiga manter o atual ritmo de crescimento econômico e caso atenda às demandas energéticas da sua crescente população.

Vejamos o que aconteceu na China: entre 1980 e 2010, o PIB per capita na terra de Mao Tsé-Tung cresceu de US$ 200 para US$ 4500. Por outro lado, as emissões de CO2 passaram de 1,5 toneladas per capita/ano para 6 toneladas. Ou seja, as emissões cresceram 300%. Caso a Índia siga uma trajetória similar à da China, serão adicionadas 8 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera a cada ano – é a mesma quantidade de emissões dos EUA hoje. Se a Índia elevar seu padrão de consumo de energia e fizer isso usando combustíveis fósseis, o resultado será uma catástrofe ambiental.

Em 2015, cerca de 70% da eletricidade indiana é proveniente de carvão. Apenas 17% é gerado em hidrelétricas (no Brasil, 80% da energia vem das hidrelétricas, para comparação). Somente 10% da energia indiana é fundada em fontes renováveis, como usinas eólicas e solares. O problema: ainda existem 50 milhões de lares indianos sem acesso à eletricidade. Para piorar o cenário, o nível de consumo indiano é apenas 30% do chinês ou 1/13 do consumo per capita norte-americano.

Resumindo: Piyush Goyal, o ministro de Energia da Índia, tem um problemaço nas mãos. Aos 51 anos, ele é um dos políticos da nova safra do BJP (seu pai, Ved Goyal, foi ministro do governo de Atal Vajpayee duas décadas atrás). Apostando em políticas neoliberais – seja desregulamentando ou privatizando, o ministro já conseguiu investimentos de US$ 100 bilhões em energias renováveis e outros US$ 50 bilhões para modernizar a infraestrutura do setor energético indiano. Apesar disso, o país ainda é muito dependente do carvão e a indústria carvoeira dobrou seu parque desde 2008.

Segundo acordo com Jairam Ramesh, ex-ministro do Meio Ambiente, a energia hidrelétrica, concentrada no norte da Índia, demanda investimentos mais demorados. A participação dessa fonte energética poderia subir de 17% para 25% em 25 anos. A energia nuclear, por sua vez, passaria de 3% para 6%. Ou seja, no cenário mais agressivo, o carvão ainda responderia por 50% da geração de energia na Índia, jogando 2 bilhões de toneladas de CO2 a mais na atmosfera a cada ano.

A solução pode estar na energia solar. O primeiro-ministro se mostra favorável à ideia – em 7 anos, o país quer passar dos atuais 20 GW para 100 GW de energia gerados por placas solares.O potencial é enorme: usando apenas 0,5% do território, a Índia poderia gerar 1000 GW de potência – quatro vezes mais o pico de demanda energética, atualmente em 250 GW. Mas o país esbarra na falta de investimentos e no lobby da indústria carbonífera.

Dharnai, um pequeno vilarejo na província de Bihar, ilustra essas dificuldades. A região é a origem de um movimento comunista indiano chamado Naxalismo. Por conta do apoio aos guerrilheiros, a região perdeu seu suprimento de energia elétrica em 1981 e, desde então, a comunidade de apenas 3 mil habitantes improvisa para satisfazer suas necessidades de energia elétrica. Os ricos usam painéis solares no telhado. Os mais pobres, se viram com querosene para acender uma simples lâmpada ou manter um ventilador ligado para encarar as altas temperaturas.

O Greenpeace, junto com ativistas locais, improvisou um microgrid de energia solar no local em 2014. O projeto é importante para as ambições dos ambientalistas no país. Eles querem provar que é possível abastecer a Índia sem aumentar a mineração de carvão – e consequentemente, sem emitir mais CO2. Os painéis solares instalados em Dharnai fornecem energia ao custo de US$ 1mês. Isso representa 10% do orçamento familiar da maioria das famílias da região.

Quando o Greenpeace instalou as placas solares em Dharnai, ricos e pobres celebraram juntos. Mas quando as famílias ligaram os aparelhos elétricos com pouca eficiência energética, as baterias esvaziaram em horas. Na manhã seguinte, muitas famílias não podiam sequer ligar uma lâmpada em suas casas. Esse é outro problema: uma lâmpada fluorescente chega a custar 60 vezes mais do que uma lâmpada incandescente e isso prejudica a operação do grid movido a energia solar.

Para muitos, os grids de energia solar são uma solução temporária enquanto os vilarejos não são ligados às redes elétricas tradicionais. Para cumprir o plano de levar energia elétrica a cada lar indiano o governo irá dobrar a produção de carvão para 1,5 bilhões de toneladas métricas ao ano. A principal crítica aos grid solares é que a energia solar ainda é muito mais cara na Índia e que essa seria uma solução para os centros urbanos – onde há pessoas capazes de pagar por ela. Adotar essa estratégia em vilas mais pobres seria matar essa ideia. É um caso a ser acompanhado – a Índia pode definir o futuro da energia solar nos países pobres nos próximos 10 anos.