Os objetos sem proprietário fixo

Os objetos sem proprietário fixo

“De graça, mesmo?” Nem as crianças acreditam: numa rua de Montreuil, uma cidade do subúrbio parisiense, centenas de objetos empilhados em mesas estão totalmente à disposição dos pedestres num autoproclamado “espaço de gratuidade”. Roupas, livros, DVDs, louça, e até computadores: aqui, todo mundo pega e leva o que quiser. Não é um mercado de pulgas ou de trocas, mas um espaço temporário sem fins lucrativos, como conta esta linda reportagem do site francês Basta! que, animado por uma equipe de jornalistas e ativistas, tenta dar visibilidade às questões ecológicas, às ações cívicas e aos movimentos de solidariedade no mundo inteiro.

 

Assine a revista Samuel. Apoie a imprensa independente.

 

 

O projeto nasceu alguns anos atrás. “Durante uma refeição de bairro, lançamos a ideia entre amigos e vizinhos da rua” conta Vito, um dos organizadores, para a jornalista Agnes Rousseaux. “No início, alguns não acreditaram. Mas, agora, já estamos na quarta edição”, completa. A ideia é compartilhar e favorecer os encontros.

 

 

Nem troca, nem obrigação de reciprocidade, nem caridade, o chamado “espaço de gratuidade” é uma maneira útil de reduzir o volume de lixo, dando uma segunda vida para os objetos da casa. É também uma forma de recuperar o espaço público, a rua, criando um convívio entre vizinhos. “Um desafio à sociedade de consumo”, resume a matéria do Basta!. “Os valores “Comprar” e “jogar fora” são substituídos pelas alegrias de “dar” e “recolher””, explicaram os organizadores da primeira edição.

 

 

Foto via Basta!

 

 

O exemplo de Montreuil não é o único: existem vários, no mundo inteiro, permanentes ou temporários, instalados num canto de calçada, num carrinho de supermercado deixado na beira de uma estrada ou abrigado por uma associação. Em alguns casos, o dom é definitivo; em outros, convidam as pessoas para fazer circular os objetos, para que se tornem “SPF”, “sem proprietário fixo”, um trocadilho em referência aos “SDF”, os “sans-domicile fixe”, ou seja, os moradores de rua. Em outros lugares, são imaginados espaços onde todos os objetos podem ser emprestados ou comprados coletivamente, para depois serem usados por todos.

 

“Todos esse lugares são um incentivo para derrubar a nossa relação com propriedade e consumo, enquanto ajudam de maneira concreta nestes tempos de crise. Um desafio para a nossa imaginação”, conclui Agnès Rousseaux.