Chile e Honduras rompem lógica da hegemonia de direita na América Latina

Guillier, do Chile, e Nasralla, de Honduras
Guillier, do Chile, e Nasralla, de Honduras

Eleições nas duas pontas do continente mostram que o descrédito na política pode favorecer alternativas progressistas

Economicamente são dois países pouco expressivos, mas politicamente podem representar o início de um novo momento na América Latina. Chile e Honduras parecem dois pontos fora da curva da atual hegemonia conservadora que vem dominando o cenário latino-americano depois de uma primeira década deste século marcada por sucessivas vitórias de governos de esquerda e centro-esquerda. Eleições presidenciais e golpes de novo estilo colocaram o pêndulo na direção contrária das propostas mais voltadas para a justiça social, o que trouxe alívio para os defensores de políticas fiscais austeras e da redução do papel do Estado. O coroamento desse momento conservador foi a então improvável eleição de Donald Trump, que vestiu a camisa do nacionalismo mais tosco e retrógrado em nome de uma recuperação do orgulho norte-americano. Isto está provocando um sério revés para as relações comerciais de muitos países da América Latina com seu maior parceiro no continente. O Brasil é um exemplo e mostra que nem sempre a identidade ideológica representa ganhos.

Por outro lado, denúncias de corrupção e o controle de governos nas mãos dos mesmos grupos de sempre, verdadeiras quadrilhas subordinadas aos interesses empresariais, trouxe um desalento da sociedade civil em relação à política, o que tem gerado descrédito crescente nas instituições e favorecido o aparecimento de lideranças que não passam de “velhas novidades”, como cantou Cazuza.

Eis, então, que aquilo que era dado como certo do ponto de vista das projeções, ou seja, a permanência de uma tendência de direita na direção de muitos governos latino-americanos, começa a ser questionada pelos eleitores em países tão distantes quanto diferentes.

O Chile tem uma história de experiências políticas que vai da eleição de um governo de esquerda em 1970, até a instalação de uma ditadura militar que assassinou em torno de cinco mil opositores e cuja imagem mais representativa é a foto de Augusto Pinochet, de óculos escuros e cara amarrada, sentado ao lado de outros generais e almirantes que depuseram à bala o presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Em 1990, o país dos poetas Pablo Neruda e Gabriela Mistral iniciou um novo momento com a transição democrática e a formação da “Concertación”, uma espécie de “bem bolado” político que alternou no poder, desde então, democratas-cristãos e socialistas. A sequência foi rompida com a eleição de Sebastián Piñera, em 2009, para ser retomada nas eleições seguintes com um novo mandato de Michelle Bachelet, cujo término agora é melancólico e impopular. Píñera, que tenta um segundo mandato, era favorito para uma vitória já no primeiro turno. Esqueceu de combinar com as urnas. No segundo turno, em 17 de dezembro, terá que enfrentar o senador Alejandro Guillier, um competente jornalista que acenou com um giro à esquerda na formação política chamada “Nova Maioria”, que sucedeu a “Concertación”. Guillier perdeu a Democracia Cristã e ganhou o apoio do aguerrido Partido Comunista chileno. Agora, deve levar a maioria dos votos dados à terceira colocada, a também jornalista Beatriz Sánchez, da coalização Frente Ampla, que reúne 13 correntes e agrupações partidárias de esquerda, a maioria nascida das lutas estudantis de 2011 e que buscam um novo jeito de fazer política. Também deverá herdar os votos do centro-esquerdista Marco Enriquez-Ominami, que obteve 5,71% dos votos. De quebra, poderá receber a maioria dos eleitores da democrata-cristã Carolina Goic, que beliscou 5,88% dos votos com uma campanha centrista. Piñera, por sua vez, terá que trazer seu discurso para o centro sem deixar de acenar para a extrema-direita, representada por José Antonio Kast, que conquistou expressivos 7,93 dos eleitores saudosos da ditadura pinochetista. As primeiras projeções indicam empate técnico, o que é preocupante para Sebastián Piñera e promissor para Alejandro Guillier.

Em Honduras, país centro-americano com um dos maiores índices de violência do continente, a primeira prévia do Tribunal Superior Eleitoral mostrou a vantagem do candidato esquerdista Salvador Nasralla, com 57% das urnas apuradas. Apoiado por Manuel Zelaya, deposto num golpe de estado em 2009 que abriu caminho para o que aconteceu no Paraguai e no Brasil, ele está derrotando o atual mandatário Juan Orlando Hernández, do Partido Nacional, que numa manobra jurídica de última hora obteve liminar para concorrer à reeleição. Em Honduras, a Constituição não prevê reeleição presidencial. O interessante é que o argumento que derrubou Zelaya foi exatamente o fato de que ele queria realizar um plebiscito para que a população decidisse sobre a possibilidade ou não da reeleição para presidente. A expectativa agora é que o sentimento das urnas seja respeitado. A demora para a divulgação de uma nova parcial está trazendo incertezas sobre a contagem dos votos. A revista “The Economist” obteve uma gravação onde integrantes do Partido Nacional estariam se preparando para fraudar a eleição.

De qualquer maneira, as duas eleições mostram que há uma insatisfação com o atual estado de coisas na América Latina e alternativas progressistas voltam a fazer parte do cardápio político, vitaminadas por novas experiências de organização e militância. Seria bom que as eleições que estão por vir em 2018 tragam igualmente esses novos ares.