Pra começo de conversa

Um espaço para aproximar o Brasil da América Latina e a América Latina do Brasil

O grande encontro da América Latina com a democracia tem sido marcado e desmarcado ao sabor de conjunturas seculares que ora representam avanços, ora representam graves retrocessos. A partir das independências que cravaram a ruptura com as coroas espanhola e portuguesa no século XIX, a alternância entre duas correntes políticas – liberais e conservadores – foi conduzida por cenários de confrontos violentos sempre seguidos de pactos de grande fragilidade porque costurados sempre por cima. Esse duelo político não impediu que, gradualmente, ideias civilizatórias avançassem e fossem incorporadas pelas elites na forma de sistemas democráticos incipientes.

Mas, por onde se enxergue a questão até os dias de hoje, sempre existiu uma lacuna para a consolidação da democracia no continente: a participação popular. As iniciativas nesse sentido vieram, ao longo dos séculos XIX e XX, por meio de lideranças que introduziram o popular no imaginário das massas, mas que, na prática, dependiam de si mesmas para alimentar seu projeto de poder. Esse tipo de personalidade política latino-americana recebeu o nome de libertador ou populista, dependendo da circunstância histórica. De Simon Bolivar e Solano López, passando por Victor Haya de la Torre até chegar em Lázaro Cárdenas, Perón e Getúlio Vargas, a constatação é que as massas populares não tiveram mais do que um papel coadjuvante, com exceção das revoluções cubana (1959) e nicaraguense (1979).

No atual momento de crise de representatividade política que assola o mundo e, em particular, a América Latina, a pergunta que se faz é praticamente uma só: para onde caminhamos? Depois de um longo período de regimes autoritários, a perspectiva da democracia reacendeu esperanças que, logo em seguida, foram se evaporando com a vitória de governos neoliberais que aprofundaram a recessão e a desigualdade social.

Na virada do século XX para o século XXI, a reação ao modelo de exclusão social em nome de uma economia de livre mercado surgiu na forma de governos de recorte progressista, alguns mais à esquerda, outros menos. Esse cenário fortaleceu iniciativas de maior integração regional e a expectativa de que, enfim, os ideais de soberania, participação popular e maior distribuição de renda fossem implementados. Dependente historicamente de sua produção primária (agricultura, petróleo, recursos naturais etc.), os governos de recorte progressista introduziram a pauta da solidariedade sem mexer estruturalmente nas bases pelas quais a economia funciona no mundo inteiro. Ao substituir a produção pela financeirização, a máquina globalizadora do sistema capitalista capturou a soberania dos Estados, transformando-os em apêndices burocráticos de seus interesses.

A ideia de uma conciliação de classes, onde iniciativas de combate à desigualdade e à miséria fossem acompanhadas de maior compreensão e benevolência cristã das elites econômicas, se esgotou em pouco mais de uma década porque não houve nesse período o necessário processo de formação política e educacional das populações beneficiadas que confrontassem os instrumentos de reprodução simbólica da hegemonia ideológica. As esferas de poder da burocracia estatal e da sociedade civil econômica seguiram intactas e não foram substituídas por uma nova utopia. O consumo bastava.

Os governos ancorados no chamado “progressismo” como via de mudanças não tiveram e não estão tendo condições de responder à contrarreação dos setores que detem, de fato, o poder econômico. Com uma agravante. Ao aceitarem as regras do jogo, algumas lideranças desses governos nele se envolveram resultando num cenário catastrófico para a sua credibilidade política. Não é por outro motivo que a cruzada moralizadora contra a corrupção tem viés conservador, ganha espaço e abre caminho para bandeiras despolitizadas como “todos são iguais” e “que se vayan todos”. Aí reside o grande perigo.

Esse cenário continental nos obriga a uma reflexão permanente para que o grande encontro latino-americano com a democracia esteja no primeiro item da pauta em nossas sociedades. Este é o objetivo desse blog que não vai se limitar a análises da conjuntura, mas também a confrontar posições, instigar ao debate e aguçar a curiosidade de forma crítica, sem compromissos prévios. Enfim, um novo espaço para que o Brasil esteja mais próximo da América Latina e a América Latina do Brasil. Bem-vindos! Bienvenidos!