Sindicalista brasileira é eleita vereadora em cidade norte-americana

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook

Sem mordomias, Margareth Shepard vai receber verba mensal de 1,4 mil reais e é mais uma voz contra Donald Trump

A recém-criada cidade de Framingham, de 108 mil habitantes, no estado de Massachusetts, abriga uma antiga e numerosa comunidade brasileira. Em geral, são pequenos comerciantes e prestadores de serviços manuais que migraram na onda das crises econômicas que se abateram sobre o Brasil nas décadas de 1980 e 1990. Entre esses imigrantes, quase todos indocumentados à época, estava Margareth Basílio.

Natural de Inhumas, em Goiás, ela migrou para os Estados Unidos em 1992. Pensava ficar de dois a três anos para aprender inglês. Gostou tanto do lugar e das pessoas que, tempos depois, trouxe pai, mãe, irmãos, casou, adotou o sobrenome Shepard, teve filhos, netos e hoje, com 59 anos, vive com quase toda a família em Framingham.

No dia 7 de novembro, Margareth Shepard se tornou a primeira vereadora de origem brasileira nos Estados Unidos. Esse episódio faz  parte de um processo político que começou ainda em Goiás, quando se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) e atuou como dirigente do movimento sindical dos professores da rede pública.

Shepard (sentada, primeira à direita) é a primeira brasileira a ser eleita vereadora nos Estados Unidos

Shepard (sentada, primeira à direita) é a primeira brasileira a ser eleita vereadora nos Estados Unidos

Camisetas Brazilian for Education

Militante do Partido Democrata, no qual ocupa um cargo de direção municipal, ela foi indicada nas prévias realizadas no distrito 7 (a cidade possui nove distritos e cada distrito elege um vereador para um mandato de dois anos). Na disputa contra o representante do Partido Republicano, conquistou a vaga com 585 votos, 103 votos a mais do que seu adversário. Parece pouco, mas não é. O distrito que ela representa tem em torno de quatro mil eleitores, o que significa 10% do total da cidade. O voto não é obrigatório e o registro eleitoral é voluntário.

A campanha de Margareth foi marcada por uma posição claramente contrária à política de Donald Trump. “Vejo com tristeza o retrocesso que estamos vivendo nos Estados Unidos, com a retirada de direitos e a criminalização dos imigrantes que agora vivem apavorados porque qualquer acusação, mesmo que sem fundamento, pode levá-los à deportação, sendo indocumentados ou não”, afirma ela.

Sua eleição, aliás, faz parte de um conjunto de vitórias recentes das forças progressistas nas disputas que aconteceram em outras regiões do país. Framingham aparece nessa fotografia porque também elegeu como sua primeira prefeita a afrodescendente Yvonne Spicer. “Isso mostra que a sociedade está reagindo à política racista de Trump”, diz a vereadora eleita.

Seu trabalho será praticamente voluntário. Não existe salário para o cargo. Apenas uma verba anual de cinco mil dólares, o que transformado em reais não passa de R$ 1.400,00 mensais. Não tem carro nem assessores à disposição. Seu objetivo é conscientizar a comunidade brasileira da necessidade de participação política. Pretende estimular a criação de uma associação de moradores do seu distrito e fazer parcerias com a sociedade civil na defesa dos direitos dos imigrantes e das mulheres.

A vitória de Margareth tem a ver com essas bandeiras. Nas eleições presidenciais de 2016, ela integrou o movimento Brazilian’s Women for Hillary, que reuniu dezenas de brasileiras na tentativa frustrada de eleger a candidata democrata. Agora a militância segue no Brazilian’s for Political Education. “Minha eleição não é só minha porque representa a vitória da comunidade brasileira que está começando a se empoderar e servirá de exemplo para o surgimento de outras lideranças, especialmente entre a juventude”.

Margareth Shepard toma posse no dia 1 de janeiro de 2018.