Acordando para os horrores da militarização de Israel

Imagem: Carlos Latuff
Imagem: Carlos Latuff

Ativistas judias escrevem sobre o significado das mobilizações contrárias à venda de armas israelenses para o genocídio em Myanmar

Por Ilise Benshushan Cohen, Jordy Silverstein e Sahar Vardi, no Mondoweiss

Traduzido por Bruno Huberman

Na segunda-feira, 30 de outubro, ocorreu um protesto histórico em frente ao Knesset, o Parlamento israelense. Aproximadamente 100 pessoas se reuniram para protestar contra a venda de armas e treinamento militar por Israel a Myanmar, onde essas armas e táticas estão sendo usadas na limpeza étnica do povo Rohingya no oeste do país. A manifestação foi organizado por ativistas da extrema direita e esquerda radical em Israel, e contou com a presença dos membros do Knesset Tamar Zandberg e Mossi Raz, do partido de esquerda Meretz, bem como de Yehuda Glik, da ala de direita do partido conservador Likud, e Moshe Faygleen, um membro anterior (e futuro?) do partido Likud, também do lado mais à direita desse partido.

Este protesto ocorreu apenas um mês depois de um protesto dos israelenses muçulmanos na embaixada de Mianmar, em Tel Aviv, e de uma petição pedindo o fim das vendas de armas israelenses para Myanmar ter sido apresentada do Supremo Tribunal de Israel. Enquanto um pedido de mordaça foi colocado na medida judicial — uma decisão rara e assustadora em si mesma — sabemos que uma semana depois, outra venda de navios navais israelenses para Myanmar foi anunciada. Estas últimas armas devem ser adicionadas à venda em curso de tanques, rifles de assalto, treinamentos e outros apoios militares israelenses a Myanmar.

 

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O presidente de Israel, Reuven Rivlin, e o general Min Aung Hlaing durante encontro em Myanmar em 2015

Embora sejam predominantemente ativistas de esquerda israelenses que tem levado essa questão à atenção do público nos últimos anos, seja por meio deste processo judicial apresentado por ativistas de direitos humanos e o advogado Eitay Mack, assim como através da apresentação de projeto de lei que busca restringir a venda de armas em casos de violações de direitos humanos, o movimento político contra as exportações militares israelenses conta agora com ativistas de direita, incluindo um número crescente de rabinos, tanto em Israel como no exterior, e políticos.

Os manifestantes que participaram do protesto em frente ao Knesset, tanto da direita como da esquerda, trouxeram dois pontos principais. Em primeiro lugar, a questão de como nós, judeus, que, como povo, passamos por um Holocausto, estamos dispostos a não apenas sermos complacentes com genocídios e limpezas étnicas que estão em curso, como também estamos armando-os? Não só isso acontece atualmente em Mianmar, como também foi o caso em Ruanda, Angola, Bósnia, os regimes militares no Chile e na Argentina e dezenas de outros exemplos históricos. E, em segundo lugar, nós, como judeus, ao invés de sermos uma luz sobre as nações, como é esperado por muitas pessoas, nós somos Uzis e armas de guerra, como o parlamentar Mossi Raz colocou.

Ambos os argumentos começam com a mesma ideia básica: “Nós, como judeus”. Nós deveríamos ter um padrão moral diferente por sermos judeus. Mas nós temos de fato? E o que torna essa venda de armas em particular tão diferente? Porque não é apenas em Israel que pessoas de todo o espectro político estão mobilizando-se para dizer que Israel precisa deixar de vender armas a Mianmar. Tanto nos EUA como na Austrália, por exemplo, organizações dentro das comunidades judaicas, de esquerda e de direita — organizações que geralmente detestam criticar as ideias de Israel sobre os militares — estão se unindo para dizer que a violência passou dos limites.

Essas são organizações e indivíduos, devemos salientar, que não mantêm os mesmos padrões de direitos humanos quando se trata do tratamento dos palestinos. O seu foco, normalmente, é sobre como a “segurança” pode ser alcançada para os judeus, pelo menos para alguns judeus. Mas aqui, neste protesto em Jerusalém, foi diferente.

Parecia que esses políticos estavam assumindo um risco, mobilizando-se com vítimas que eram muçulmanas, não judias, e problematizando uma decisão do establishment de segurança e do Ministério da Defesa. As pessoas pareciam, de verdade, estar agindo nessa questão a partir de um profundo senso de compromisso consciente. Não podemos viver sabendo de que são “nossas” armas israelenses que estão cometendo essas atrocidades e não fazer nada a respeito. Este é o sentimento que parece ecoar em torno das comunidades judaicas em todo o mundo.

Essas atrocidades podem ser uma descoberta recente para parte da esquerda israelense e, agora, para a direita, e falar sobre isso é digno de honra, pelo risco que eles acreditam que estão tomando. No entanto, essas experiências são bem conhecidas por aqueles que são historicamente mais afetados pela militarização israelense e pelas políticas racistas, da Nakba à ocupação dos territórios palestinos, ao controle comunitário e ao policiamento racista, incluindo palestinos, judeus etíopes, sefaradim e mizrahim, africanos requerentes de asilo e “trabalhadores estrangeiros” em Israel. Aumentar essas lutas por justiça contra a militarização, o policiamento e o racismo deve ser um ponto central para a esquerda e a direita israelenses, muitos dos quais fizeram parte da liderança europeia ashkenazi e da elite e podem ver a imagem de Israel ser manchada no exterior, mas ainda não engajam-se em um trabalho interno necessário para cessar esses comportamentos em Israel.

Continua o desafio: como fazer essa mudança acontecer? Como forçar o governo israelense a ouvir pessoas, em Israel e no exterior, e parar de ajudar esse genocídio em curso? E como fazer esse movimento contra o uso da força militar, contra o lucro através da morte e da destruição, contra a indústria e o sentimento construído em torno da militarização, que atravessam todas as vendas de armas israelenses? O desafio que enfrentamos é, imediatamente, forçar Israel a parar de vender essas armas, e, ao mesmo tempo, fazer com que os testes de armas sobre os palestinos, que ocorre das formas mais criativas, violentas e insidiosas possíveis, cessem.

Uma maneira pela qual podemos fazer isso é através da ação internacional coletiva. Devemos alinhar os movimentos internacionais e nacionais por justiça nesse sentido. A Sedq, uma rede judaica internacional por justiça do qual fazemos parte, lançou recentemente uma campanha no Facebook pedindo às pessoas ao redor do mundo, e especialmente nas comunidades judaicas, que chamem e escrevam para as embaixadas israelenses exigindo que Israel suspenda suas vendas de armas para Mianmar. Isso é apenas um exemplo. Existem inúmeras outras campanhas em todo o mundo: cabe a todos nós encontrar uma maneira de causar um impacto, encontrar uma maneira de pressionar Israel a deixar de apoiar a destruição que suas armas estão causando.

Se Israel pretende reivindicar a sua legitimidade na comunidade internacional, o governo tem a obrigação de encerrar a sua participação na produção e venda de armas a nível mundial, na medida em que leva ao fornecimento de armas aos Estados que as utilizam contra os povos marginalizados. Israel deve cessar suas práticas de transformar armas em palestinos e fomentar globalmente sentimentos e práticas islamofóbicas. E Israel também deve parar o uso de suas práticas e policiais militarizados e racistas contra judeus etíopes, sefarditas e mizrahi, requerentes de asilo africanos e trabalhadores estrangeiros. Como Eitay Mack afirma: “Não se pode lutar contra o antissemitismo seriamente sem combater o racismo dentro e fora de Israel, e sem acabar com o apoio de Israel aos regimes racistas em todo o mundo”. E todos aqueles que permaneceram juntos neste momento devem continuar a ficar juntos . Para tirar as lições do protesto de que não devemos ser vistos como os rifles e armas para as nações, mas devemos encontrar uma maneira de repensar o que significa estar seguro no mundo, trabalhando em prol da justiça e da paz, em vez da perpetuação das armas, da militarização e da violência.

Sahar, Jordy e Ilise são integrantes da Sedq: Rede Global Judaica por Justiça, que possui membros de todos os continentes e de 13 países.