Da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo à de Tel Aviv: precisamos falar sobre propaganda israelense e interseccionalidade de lutas

Screen Shot 2018-06-18 at 11.40.58 PM
Screen Shot 2018-06-18 at 11.40.58 PM

Israel busca, através de campanhas midiáticas e de relações públicas, combater sua crescente reputação agressiva e colonialista no cenário internacional

Por Júlia Azevedo, Alexandre Martins e Lucas Alonso

Diversos manifestantes denunciaram os esforços de propaganda do Estado de Israel na 22ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo que ocorreu no dia 3 de junho de 2018. O Consulado Geral de Israel em São Paulo, a Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil e a Accor Hotels promoveram o bloco de Tel Aviv na Avenida Paulista, com a distribuição de camisetas criadas pelo estilista Alexandre Herchcovitch e a presença do DJ israelense Micky Friedman. O Consulado Geral de Israel divulgou a iniciativa com a seguinte mensagem: “Israel é um país aberto, diverso, plural, que aceita todas as pessoas, independentemente de sua religião, orientação sexual ou orientação política.”

O massacre em curso na Faixa de Gaza, onde estão sendo mortos impunemente centenas de palestinos e palestinas em manifestações não violentas, incluindo jornalistas, médicos e crianças, contrasta à declaração do Consulado. Não à toa, ativistas e organizações defensoras dos direitos humanos e da justiça e liberdade na Palestina têm alertado sobre essa estratégia de marketing oficial de Israel de se autopromover como um Estado protetor de Direitos Humanos e amigável à população LGBT+ enquanto viola sistematicamente os direitos humanos da população palestina há 70 anos.

Screen Shot 2018-06-18 at 11.41.36 PM

Foto do bloco de Tel Aviv na 22ª Parada LGBT em São Paulo. Organização afirma que 600 pessoas marcharam atrás do trio do Governo do Estado de SP

O Estado de Israel busca, através de campanhas midiáticas e de relações públicas, combater sua crescente reputação agressiva e colonialista no cenário internacional e evitar seu crescente isolamento. Em 2010, o país estava entre os 10 países com pior percepção internacional de acordo com pesquisa da East West Communications. Neste contexto, Israel utiliza deliberadamente de eventos como festivais de cinema LGBT+ e Paradas do Orgulho LGBT+ em várias partes do mundo para promover sua imagem como um Estado moderno e progressista.

Este uso da pauta LGBT+ é denominado por ativistas dos direitos humanos e pesquisadores no mundo todo como “pinkwashing’, isto é, “lavagem rosa”.  O objetivo do “pinkwashing” é duplo: por um lado propagar a ideia de que Israel é um Estado civilizado e mascarar as violações de direitos humanos perpetradas por seu regime de apartheid, colonização e ocupação; por outro, promover a noção colonial e racista de que palestinos – ou, de modo ainda mais leviano,  todos os  “árabes” – seriam bárbaros e hostis à população LGBT+.

É importante lembrar que a sociedade palestina não é homogênea: há pessoas de diversas religiões e com posições mais ou menos progressistas, como qualquer outra sociedade do mundo. É fundamental também ressaltar que, diferentemente do que esforços pinkwashing querem fazer parecer, a homossexualidade se tornou ilegal na região não por determinação religiosa, mas por imposição do Código Penal do Mandato Britânico de 1936. Essa lei se manteve em vigor após a criação do Estado de Israel, tanto no território israelense quanto no palestino.

Na Cisjordânia, a homossexualidade foi descriminalizada já em 1951, o que só aconteceu em Israel em 1977. Na Faixa de Gaza, infelizmente, o código britânico que criminaliza a homossexualidade continua válido,  com pena prevista de até 10 anos de prisão. Lamentavelmente, os esforços de pinkwashing ao invés de dar voz às pessoas LGBT+ palestinas que lutam contra esta situação e que se contrapõem ao conservadorismo em setores da sociedade palestina de modo geral, optam por propagar falsas informações de que, por exemplo,  LGBT+ seriam assassinados ou apedrejados na Palestina.  

Há que se defender veementemente a liberdade sexual e de gênero na sociedade palestina, assim como em todos os lugares do mundo – inclusive dentro de Israel, onde também há opressão LGBTfóbica e retrocessos conservadores. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar as ilegalidades da opressão e da colonização israelense aos palestinos e palestinas. Como aponta a organização LGBT+ palestina Al Qaws, não existe uma porta cor-de-rosa no Muro de apartheid construído por Israel. LGBT+ palestinos da Cisjordânia, Faixa de Gaza ou refugiados pelo mundo, não podem ir a Israel por impedimentos jurídicos e físicos que restringem o seu livre movimento, independentemente de sua identidade de gênero ou orientação sexual.

Dentro de Israel, 20% da população é palestina. Estas pessoas, LGBT+ ou não, vivem sob preconceito e sem plena cidadania. Convivendo com o racismo em interações cotidianas, pessoas palestinas LGBT+ chegam a ser barradas na entrada de bares ou baladas LGBT+ israelenses por serem consideradas “árabes” demais. Além disto, palestinos e palestinas dentro de Israel não têm os mesmos direitos que os israelenses judeus, discriminado por dezenas de leis.

Cabe então a reflexão sobre a importância do papel da interseccionalidade de lutas nos movimentos minorizados. Ninguém é apenas lido como LGBT+, há um contexto mais amplo de opressões – de cunho étnico, cultural, de classe, entre outros – que também deve  ser considerado. De modo geral, urge aos movimentos LGBT+ no mundo depositar maior esforço em se conectar com pautas feministas, do movimento negro, indígena, campesino, e pautas anti-coloniais como a palestina.

A artista Linn da Quebrada é um exemplo recente de união de forças entre o movimento negro e periférico LGBT+  com a causa palestina. O documentário sobre a vida de Linn, “Bixa travesti” concorria  à premiação do Festival Internacional de Cinema LGBT de Tel Aviv (TLVFest), para o qual a artista também foi convidada a fazer uma performance. Ao se aprofundar nas questões políticas envolvidas e dados os vínculos institucionais e cumplicidade  do TLVFest com as violações de direitos humanos do Estado de Israel,  Linn decidiu cancelar sua participação no Festival, aderindo assim ao chamado palestino por solidariedade efetiva através de Boicotes, Desinvestimento e Sanções (BDS). Trata-se de um dos 11 cancelamentos que abalaram o TLVFest esse ano.

Foi por todas essa razões que movimentos diversos, espontâneos e independentes uniram suas forças para denunciar, na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, as violações de direitos humanos contra os palestinos e o uso das pautas LGBT+ como forma de propaganda institucional do Estado de Israel. É importante ressaltar que de forma alguma a mobilização se colocou contra indivíduos, como possíveis turistas israelenses ou judeus e judias de qualquer outra nacionalidade. O chamado de boicote cultural é se posiciona contra vínculos institucionais com qualquer agente que cometa violações de direitos humanos.

É igualmente fundamental combater as acusações infundadas de que a reação ao “pinkwashing” seria algum tipo de propagação de antissemitismo. O regime de apartheid, colonização e ocupação de Israel não tem nenhuma relação com a religião judaica e o movimento BDS se opõe a toda forma de discriminação, inclusive o antissemitismo. Parcela considerável dos ativistas pró-Palestina e apoiadores do BDS no Brasil e no mundo são judeus e/ou israelenses. Muitos deles também têm denunciado dentro de Israel, e contra a própria parada LGBT de Tel Aviv hoje, o uso indevido da pauta LGBT+ e de suas identidades.

Em um país extremamente desigual e racista como o Brasil, líder de assassinatos de LGBTs em todo o mundo, é de extrema importância que os movimentos LGBTs compreendam a necessidade da interseccionalidade para o avanço da luta pela liberdade plena de nossos corpos. Como nos lembra Angela Davis, “nossas lutas LGBT e feministas não existem no vácuo. Das favelas brasileiras à Faixa de Gaza; da luta de negros e negras nos EUA, ao movimento anti-apartheid da África do Sul: estamos juntas lutando pela liberdade, justiça e igualdade de nossos corpos”.

Júlia Azevedo é formada em Relações Internacionais, pós graduada em Gestão Pública e membro da FFIPP Brasil.

Alexandre Martins é formado em Ciências Sociais, mestrando em Sociologia e membro da FFIPP Brasil

Lucas Alonso é formado em Ciências Econômicas, estuda Psicanálise e é membro da FFIPP Brasil.